quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aos leitores

Criei uma conta de e-mail (memoriasdomeuavo@gmail.com), referida no final do blog, para o caso de desejarem perguntar ou sugerir-me alguma coisa, ou até partilhar comigo as vossas próprias histórias/memórias com os vossos avós, fora da esfera pública dos comentários. Sintam-se à vontade.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O gosto pela leitura

O gosto pela leitura herdei-o do meu avô. A leitura, a par da rádio, constituía para ele o meio de eleição para se manter informado sobre a actualidade e eram sobretudo as questões políticas e económicas do país que o preocupavam, fazendo-o perder horas e horas de sono a conjecturar o futuro da nossa família. A noite trazia-lhe a lucidez e concentração necessárias para avaliar factos e encontrar soluções. Quando estava mais descontraído, até poemas de mais de trinta quadras rimadas ele criava mentalmente e memorizava. 

Por isso, e tendo em conta que ele se recusava a ver televisão, sempre que eu podia, leváva-lhe jornais e revistas, mesmo que já tivessem alguns dias. Quando algum deles continha uma notícia que ele considerava particularmente interessante ou relevante, guardava-os na garagem, apontando nas capas as páginas referentes ao tal artigo oportuno. 

Mas, nem sempre a fome de leitura do meu avô se restringiu a jornais e revistas e, tão-pouco, a notícias da actualidade nacional e internacional. Quando era novo, o meu avô devorava romances, lendo, muitas vezes, pela noite dentro. O seu autor favorito era Camilo Castelo Branco, do qual leu "Amor de Perdição", "A Freira no Subterrâneo" e "A culpa dos Pais". Curiosamente, foi preso pela PIDE pelo seu nome constar de uma lista de uma biblioteca, à qual pertenciam o nome de vários comunistas. Isto porque, livros como "A Freira no Subterrâneo" eram proibidos no Estado Novo, pelo que ele os procurava para os ler à revelia. Ele gostava de histórias que facilmente se pudessem confundir com a realidade. Do "Amor de Perdição" (que já se encontra na fila para as minhas próximas leituras), ficou a recordação de quando ele levou a minha avó ao cinema para ver o filme baseado na obra, ainda eram namorados. Quando eu lhe perguntava se a minha avó tinha chorado muito, ele dizia "Ui, moça!", ao que ela acrescentava depois que, durante alguns dias, nem conseguia comer, já que "parecia que a comida nem passava para baixo".

Se dúvidas houvesse quanto "a quem eu saí", assim viciada na leitura, penso que acabaram de se dissipar. Foi mesmo ao meu avô. Mais um legado feliz que ele me deixou.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sem título #1

Hoje, enquanto aguardava com a minha avó uma consulta de oftalmologia na sala de espera do hospital, lembrei-me de uma das inúmeras histórias de deliciosa malícia que o meu avô tinha sempre prontas na ponta da língua e que não se cansava de mas contar, ao ponto de eu as saber quase todas de cor, embora, quando contadas por mim, não tenham metade da graça. Ainda assim, não resisti e resgatando a minha avó do seu estado de alheamento, murmurei-lhe "Vó, vê lá se não te põem um olho de um cão". Ela compreendeu de imediato e retribuiu-me o sorriso. Se, por acaso, o meu avô estivesse ali, tenho a certeza de que se teria rido com gosto. Ele tinha um riso contagiante que o traía sempre que queria contar uma das suas marotices. Ria-se, começava a contar, voltava a rir-se, recomeçava de novo, ria-se mais uma vez e nós começávamos a rir-nos também, ainda antes de ele ter conseguido contar o que quer que fosse. 

Em relação à história em questão, era mais ou menos assim: havia um homem que era cego e, como acontece com qualquer cego, o seu maior sonho era poder ver, nem que fosse de um só olho. Então, um dia foi ao médico e expôs o seu problema com tanto fervor, suplicando ao especialista por uma qualquer solução que lhe permitisse enxergar minimamente o mundo que o rodeava, que conseguiu comovê-lo ao ponto de este lhe prometer que havia de encontrar uma solução. E assim o fez: transplantou-lhe um olho. Só que, não tendo um olho humano disponível, fê-lo com um olho de um cão, não prevendo nenhum efeito colateral significativo que pudesse advir desta pequena e inofensiva troca. E a operação foi, de facto, um sucesso, sendo que a origem do olho nunca foi revelada ao paciente que, entretanto, já nem cabia em si de contente por poder finalmente ver.
Passaram-se umas semanas e, aparentemente, tudo corria bem, até ao dia em que o paciente apareceu no consultório do médico a queixar-se de que havia qualquer coisa de estranho consigo, qualquer coisa que mudara nele, no seu interior, desde a operação e que ele não sabia explicar o que era. O médico, não pouco constrangido, acabou por confessar o inevitável: que lhe tinha transplantado um olho de um cão. Ao que, o paciente, visivelmente aliviado, respondeu: "Ahh, agora compreendo, Senhor Doutor. Por isso é que, há já alguns dias, eu trago uma cadela debaixo de olho!".

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Da minha infância #4

Enquanto frequentei a Primária foi sempre o meu avô quem me acompanhou à escola. Íamos e vínhamos a pé, todos os dias - o meu avô a carregar a minha mochila. Só quando chovia é que ele me ia buscar no seu Seat Ibiza verde-escuro. Geralmente, íamos pela rua principal e voltávamos pela rua do aeroporto, sendo que o nosso percurso nunca demorava menos do que uma hora, porque eu gostava de saber tudo e perguntava-lhe sobre as flores, as árvores, as borboletas e ele, pacientemente, ía-me respondendo com carinho, levando-me sempre a sério. Às vezes, a minha avó também nos acompanhava, mas era pouco frequente.

Já durante a tarde, depois dos deveres da escola que eu fazia com o maior entusiasmo, sobretudo quando envolvia composições e pinturas de desenhos - sempre sobre a supervisão, ajuda e aprovação final do trabalho feito pelo avô -, íamos passear pela "bouça dos cãezinhos", uma bouça de eucaliptos, carvalhos e pinheiros que, ainda hoje, ladeia a urbanização onde fica a casa dos meus avós. Eu chamo-lhe "bouça dos cãezinhos" porque vivia lá no meio, num casebre, uma família que, embora fosse muito pobre, tinha sempre imensos cães. Pelo caminho, eu gostava de apanhar "cocas" (os frutos dos eucaliptos), verdes e vermelhinhas. As vermelhinhas eram as que eu gostava mais, porque eram mais difíceis de encontrar. Também apanhava bugalhos, mas a minha avó não queria que eu os levasse para casa, porque, dizia ela, enchia tudo de mosquitos. Ao longo do caminho, pelo qual o meu avô me guiava, atravessávamos uma ponte e às vezes ficávamos a ver o comboio a passar por baixo.

Outras vezes, íamos à bouça recolher troncos e cepos de árvores para arderem no fogareiro. Eu ía sempre procurar os cepos, porque sabia que o meu avô gostava especialmente deles, já que ardiam muito bem. Quando já tínhamos um molho grande, voltávamos para casa e, um a um, o meu avô ía serrando-os, em cima do poço, comigo a segurá-los para evitar que oscilassem enquanto ele o fazia. Eu gostava de ver o serrim a acumular-se no chão, fazía-me lembrar farinha Cerelac. E gostava ainda mais que o meu avô me deixasse ajudar e ele deixava sempre.

Para além de irmos à bouça, também costumávamos ir comprar leite a uma casa de lavradores que ficava na rua que dava para a escola. Lembro-me de perguntar ao meu avô, uma vez, se o Sr. Almeida (que era o nome do lavrador que, infelizmente, também já faleceu, há muitos anos atrás) não dava banho às vacas. O meu avô disse-me que não e eu fiquei muito indignada, por elas estarem sempre todas sujas. Enquanto esperávamos pelo nosso leite, ficávamos a observar o lavrador a ordenhá-las com aquelas máquinas estranhas em forma de tetas. Isso e a canseira delas a lamberem o ranho com a língua.

Entretanto, em frente à casa desse lavrador havia castanheiros. E, por altura do magusto, eu e os meus avós íamos lá apanhar umas castanhas. Eu gostava de ir descobri-las nos ouriços meios abertos camuflados entre as folhas de outono no chão. Depois, em casa, cozinhávamo-las. Assadas no forno era a forma preferida do meu avô. Já eu e a minha avó também apreciávamos comê-las cruas.

Hoje em dia, infelizmente, os castanheiros já não existem, a casa de lavradores está desabitada e a "bouça dos cãezinhos", agora sem cãezinhos, já se encontra meia despida. E, ainda assim, nada disto me interessava verdadeiramente se o meu avô aqui estivesse para o recordar comigo. Se o tempo pudesse voltar atrás, nem que fosse por um bocadinho. Só o bocadinho de eu conseguir olhar nos seus olhos e abraçá-lo. Nem precisava de dizer nada.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do medo de esquecer

Um dos meus maiores medos, neste momento, é o esborratar da minha memória. Começar a tornar-se impreciso e dúbio na minha cabeça o som do riso do meu avô; a ferida de cor amarelada, por causa do Betadine, que marcava o lado esquerdo do seu rosto sempre que se barbeava; os dedos das mãos inclinados por causa das artrozes e a forma como ele, às vezes, os observava, esticando-os devagarinho; os olhos aguados e o tremido dos lábios sempre que se comovia. Pormenores que eram o meu avô, pormenores que me dilaceram de cada vez que os evoco. E medo, sobretudo muito medo de perdê-los, agora que nunca mais os vou voltar a ver. Nunca mais é a pior sentença de todas.

E, como recordá-lo, na sua alegria, é a única forma que temos de o resgatarmos, por um bocadinho que seja, para perto de nós, a memória torna-se um factor tão crucial neste processo. Tão crucial e tão ingrata. Diz-se que o tempo cura tudo, mas neste contexto, o tempo só estraga. Será que as pessoas dizem que com o tempo fica mais fácil porque vão perdendo gradualmente a imagem dos seus entes queridos? Espero que não, é uma ideia assustadora. Prefiro pensar que, se calhar, dizem isso, porque a vida, ao impor-se na sua obrigação de ser vivida, as foca nos outros mil e um problemas que vão surgindo no dia-a-dia, ao ponto de a pessoa que se perdeu só se atravessar nos seus pensamentos pouco antes de adormecerem. Sinceramente, não gosto de nenhuma das duas opções, embora, a acontecer, que seja a segunda.

A melhor forma de recordar acaba por ser conversar com os familiares sobre essa pessoa. Mas, enquanto umas vezes, ao relembrar, nos sentimos quase felizes de novo, nem que seja por uma fracção de segundo, outras vezes torna-se demasiado doloroso, demasiado triste, já que a sombra da morte e da perda nunca desaparece. Acho que, em parte, é por isso que escrevo. Porque às vezes, ao falar tanto sobre o meu avô, deixo a minha família triste. Por exemplo, nos primeiros dias eu sonhava com ele e, de manhã, contava à minha avó. Eram sonhos tristes, mas eu contava à mesma, precisava de contar. Até que ela me pediu para não o fazer mais. 

Mas, para além de conversarmos com a nossa família e de recorrermos às fotografias, há outra coisa que, parecendo menor, torna-se importante: os objectos. As pessoas mais antigas e geralmente com menor grau de educação, são muito supersticiosas, pelo que fiquei a saber que, quando alguém morre, acreditam que não é bom ficar com as coisas dos entes queridos e, então, em poucos dias, logo depois do funeral, começam a arrumar os pertences da pessoa e a oferecer muitos deles. Isto foi uma coisa que me fez imensa confusão: eu não queria dar, nem lavar nem trocar de lugar nada que tivesse pertencido ao meu avô. Porque os objectos também dão personalidade às pessoas, os objectos remetem-nos para situações vividas. Por que é que havemos de nos desfazer deles? Se calhar, os mais antigos acreditam que os objectos nos prendem ao passado e, de certa forma, não nos permitem superar, continuar. É uma suposição, eu não sei mesmo de onde vem esta superstição. Mas se for este o motivo, eu não concordo de todo. Eu não vejo mal nenhum em guardar o que tão bem e por tanto tempo caracterizou uma pessoa e, sobretudo, que nos faz lembrar dela.

Por exemplo: os óculos de mocho do avô que ele usava para ler o jornal no café ou artigos de revistas em casa, que lhe ocupavam quase metade da cara e lhe davam um ar tão amoroso; o relógio de pulso de corda que já contava com mais de 60 anos e que o avô tinha conseguido numa loja de penhores (ele adorava aquele relógio); a bengala que já havia sido da minha bisavó e que o acompanhou nestes últimos anos; o pullover bege, a gravata vermelha, os sapatos de lona e a manta castanha que ele usava por cima dos ombros...

Tudo isto faz parte do que o meu avô foi e de como ele continua a ser dentro do meu coração. Quando penso nele, é assim que o vejo. E eu vejo-o, cá dentro, repetidamente, todos os dias, com os olhos do amor. Do amor grande que sinto por ti, avô.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Da minha infância #3

Há aprendizagens e experiências que quase todas as crianças vivem no período da sua infância, sejam largar a chupeta, puxar um dentinho de leite com um fio, trepar uma árvore, perder o medo de dormir sozinhas no quarto, construir um cata-vento, deixar as rodinhas de trás da bicicleta. Eu fiz quase todas estas coisas que descrevi (só não me lembro de trepar uma árvore), entre muitas outras: umas mais divertidas, outras de lágrima no olho. E em quase todas, "houve dedo", como se costuma dizer, do meu avô. Vou contar-vos, assim por alto, algumas delas: largar a chupetinha foi uma experiência traumática, tal era o consolo que aquele pequeno objecto de borracha me trazia. Claro que o meu avô não lhe achava graça nenhuma, porque não me deixava falar correctamente e me entortava os dentes. Então, uma vez, lembrou-se de me dizer que a atirou para o monte de estrume que nós tínhamos lá no quintal. Ai e eu chorei, se chorei. Chorei e, com o meu pequeno coração despedaçado, andei tempos infinitos a inspeccionar o estrume de fio a pavio a tentar encontrá-la, para, mais tarde, vir a descobri-la atrás da torradeira na cozinha de cima. Não se faz, avô, não se faz. (Gosto de imaginar que, neste momento, ele se está a rir).

Depois, houve o perder o medo de dormir sozinha no quarto, porque, durante muito tempo, eu dormi com a minha mãe. Ora sem chupeta e sem mãe, a vida não ficou fácil. Os meus avós iam deitar-me e, todas as noites, o avô vinha falar comigo, para que eu me portasse bem. Mas não adiantava nada, eu não queria ficar ali sozinha e chorava. Então, houve uma vez (e isto eu não me lembrava, foram os meus avós que me contaram já eu era crescida) em que fomos ao Porto e eu vi uma boneca numa montra. E, segundo eles, fiquei encantada com a boneca, pelo que o meu avô me perguntou se, se ele ma oferecesse, eu à noite ficava sossegada, sem medo de dormir sozinha (nota que o meu avô nunca foi de nos dar brinquedos nem guloseimas). Mas, eu devia ser tal "peça", que ele fez este acordo comigo. E eu, menina esperta, disse que me ia portar lindamente, de maneira que ele me deu a tal boneca. E eu cumpri o acordo, pelo menos até ir para a cama. Quando lá cheguei é que não houve boneca que me salvasse. E o avô não ficou muito contente.

Mais tarde, quando eu andava na escola primária, o meu avô ajudou-me a construir um cata-vento e um trapézio (uma tábua com pregos que utilizávamos para representar figuras geométricas com elásticos). 

E, depois, ensinou-me a andar de bicicleta sem rodinhas de apoio. Ainda me lembro como se fosse hoje: foi na minha bicicleta amarela (a "Yellow", como eu lhe chamava), oferecida pela minha mãe. Só com uma roda, comecei, aos poucos, a tentar equilibrar-me, no terreiro de cimento lá de casa. O avô ia-me segurando no selim para eu não cair. Quando finalmente consegui pedalar sozinha, o avô deixou-me ir para a rua e ficou a ver-me, ao portão, a dar voltas à urbanização, aconselhando-me a ter cuidado com os carros, sempre que passava por ele. Noutros dias mais tarde, aventurámo-nos em passeios maiores. Eu, de bicicleta, e o meu avô, ao meu lado, a pé. Quando chegávamos a uma subida mais íngreme, eu descia da bicicleta e ele levava-a à mão. Ou então punha a sua mão atrás do selim e dava-me um empurrãozinho.
Costuma-se dizer que quem aprende a andar de bicicleta, nunca mais esquece. É verdade. Mas eu digo, ainda, outra coisa: nunca mais se esquece quem nos ensinou a andar de bicicleta. Quem nos ensinou a ser um bocadinho mais livres. Obrigada, querido avô.

domingo, 26 de maio de 2013

Da minha infância #2

Quando eu era criança, lembro-me de me ajoelhar no poço da casa dos meus avós a fazer chás de brincar, esmagando pétalas de flores coloridas com um bocadinho de água. Disso e de ir à caça de abelhões com o meu avô. Dito assim até faz rir, mas é verdade: pegávamos em garrafões de água vazios, nos quais o avô fazia alguns buraquinhos para que os abelhões pudessem respirar, e, cuidadosa e pacientemente, íamos tentar apanhá-los, enquanto eles retiravam o pólen dos agapantes azuis que tínhamos lá num canteiro. Quando já tínhamos alguns, daqueles mesmo gordinhos e de um amarelo vivo, colocávamos a tampa e ficávamos a admirá-los a esvoaçar dentro do garrafão. Não era lá grande coisa para os abelhões, mas eu gostava daquela brincadeira e, no fim, acabávamos sempre por devolvê-los à Natureza.

Para além dos abelhões, também nos entretínhamos a contar as sardaniscas, sobretudo quando íamos à feira ou à farmácia. Elas costumavam estar a apanhar sol nas reentrâncias do muro que delimita a rua de acesso à feira e, ao longo do caminho, eu e o meu avô íamos contando quantas é que víamos, indicando um ao outro onde é que elas estavam. Houve uma vez em que contámos 36 ou 37! Às vezes, ainda relembrávamos, animados, este nosso feito. 

Agora já não temos agapantes e, por isso, os abelhões já não param muito lá por casa. Mas, em contrapartida, temos muitas sardaniscas a passear pelo jardim. Tenho pena que não possas vir contá-las comigo, avô. Não sei se viste no outro dia o grito da avó quando uma sardanisca grande lhe passou pela mão enquanto ela estava a matar lesmas no canteiro. Eu ri-me muito. Se fosses tu, tinhas logo perguntado "O que é que foi, Mila?" e quando ela te dissesse o motivo do grito, tinhas respondido "Porra, porra", em desaprovação, por te ter assustado por causa de um bicho. Ohh, avô, as saudades que eu tenho tuas!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tarde com sabor a chocolate e nozes

Um par de dias após o Natal, numa sexta-feira, salvo erro, por volta das duas da tarde, entrei no portão de trás da casa dos meus avós com um bolo de chocolate e nozes, feito por mim, decorado com uma imitação de azevinho de plástico que encontrei cá em casa. A marquise estava vazia e só ouvi a voz da minha avó. Estava ao telefone com um discurso derrotista: queixava-se de estar cansada, com falta de energia e com o pó ainda por limpar e a cozinha por arrumar. Não deu por mim atrás dela e eu esperei que terminasse a chamada, o mais silenciosamente possível, para que ela tivesse uma dupla surpresa quando me visse: eu e o bolo (a minha avó é muito gulosa). E assim foi: ela virou-se, viu-me, deu-me dois beijos, eu perguntei o que é que se passava, que discurso feio era aquele e disse-lhe que se animasse que eu a ajudava a limpar o pó. De seguida, mostrei-lhe o bolo e perguntei pelo avô. Como estava um dia quente e à tarde o sol incide na garagem, era costume o meu avô passar lá a tarde, mais ou menos até à hora do lanche, por volta das cinco horas. E lá estava ele: sentado no sofá bordô desbotado, de óculos de sol de lentes esverdeadas e bengala ao seu lado. Quando me viu, sorriu logo. Mostrei-lhe o bolo (que, por acaso, tinha ficado bonito e alto, embora levemente tostado por cima), disse-lhe para cheirar. Ele ficou agradado, embora me tenha dito, como eu já esperava, que não se podia meter em coisas doces, porque tinha de ter muito cuidado com a saúde para não ficar com diabetes. Dantes, acontecia-me, muitas vezes, levar alguma coisa para ele, nem que fosse um chocolate pequenino e ele agradecer o meu gesto mas não comer, mesmo que lhe apetecesse. O meu avô era mesmo muito rigoroso no que tocava à saúde. Mas ultimamente, já ia cedendo mais. E eu gostava, oh como eu gostava! que ele aceitasse aquele pequeno mimo.

Ficámos a conversar enquanto a minha avó lavava a loiça. Entretanto, ela chegou para irmos limpar o pó, já mais airosa por contar com a minha ajuda, e eu vi na expressão do meu avô que ele preferia que tivéssemos ficado ao pé dele. Ele gostava de ter a nossa companhia, porque, no fundo, passava muitas horas sozinho, enquanto a minha avó andava nos seus afazeres diários, ou calado, porque, mesmo quando estavam ao pé um do outro, não falavam muito. A minha avó tem muita necessidade de, como ela diz, "descansar a cabeça" e para isso gosta do silêncio. Se bem que, quando eu ía para lá, isso era impossível, não parávamos de contar histórias, de rir e até ela acabava por participar. O meu avô diz que ela ficava logo outra quando eu chegava. E ele, ele também ficava outro, ficava com o rosto luminoso, com o espírito mais leve.

As limpezas tardaram até à hora do lanche. Fomos para a cozinha (já se estava a levantar um vento fresco) e depois da sua generosa malga de leite com cevada e pão integral (por vezes, comia sete bolachas Maria), lá provou uma fatia pequena do meu bolo. Saboreou, disse que eu tinha jeito. O meu avô sempre foi um apreciador de chocolate. Costumava contar-me que, quando era novo, os seus lanches eram um pão com dois golpes onde colocava duas barras de chocolate fininhas e um copo de vinho branco. E a meio da manhã, comia uma boa posta de bacalhau assado. E ao almoço, nem chegava a usar o prato, era mesmo da travessa: um belo bife de quarto de quilo com batatas fritas. Outros tempos e um avô muito diferente daquele que eu conhecia, agora, que pouco comia, deixando a minha avó, por vezes, à beira de um ataque de nervos.

O lanche chegou ao fim e ele cismou que tinha de me pagar o bolo. Claro que eu não deixei, porque não fazia sentido nenhum, mas este assunto ainda serviu para uns longos minutos de discussão. Quando se tratava de dinheiro, o meu avô era muito sério e irredutível (chegava mesmo a ser casmurro). Mas lá consegui convencê-lo de que preferia que me gratificassem num outro dia.

Esta tarde ficou-me gravada na memória assim. E o bolo de chocolate com nozes ficou gravado no meu coração como "o bolo do avô", se calhar, porque não cheguei a ter oportunidade de lhe dar outro a provar. Fica-me a imagem dele a saboreá-lo, lentamente, de olhos fechados, e eu a perguntar-lhe se sabia muito a nozes e ele a dizer-me que não.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Da minha infância #1

Durante a minha infância, o meu avô foi o meu companheiro de aventuras. Eu andava sempre atrás dele e no Verão, então, com as férias da escola, passava mesmo muito tempo com os meus avós maternos. Íamos muitas vezes à praia do Marreco, em Matosinhos, a praia favorita por ser bastante rochosa e amparar do vento. A minha avó gostava de se ir esticar nas rochas ao sol, de forma a levar, de vez em quando, com os salpicos das ondas. O calor da areia fazia-lhe mal. Já eu e o meu avô, todos os dias, sem excepção, íamos fazer a nossa caminhada, pela beira do mar, até ao Cabo do Mundo. O Cabo do Mundo era um rochedo muito grande que, salvo erro, separa a praia do Marreco de uma outra. Íamos devagarinho, sempre de mãos dadas, a conversar: eu, do lado do mar, o avô do lado da areia. Esta era a regra para o caso de vir uma onda com mais força, ele poder segurar-me e puxar-me. 

Para além da caminhada, fazíamos outra coisa: apanhávamos conchas e beijinhos-do-mar, uns búzios pequeninos e arredondados, de cor rosa, naquela orla de conchas e mexilhões que o mar deixa ao longo da praia. Eu gostava especialmente dos beijinhos, porque eram mais difíceis de encontrar e eu ía logo a correr, orgulhosa, quando encontrava um, mostrar ao avô.

Depois, chegava a hora do lanche, que a minha avó preparava amorosamente todos os dias e que levávamos nas lancheiras. Muitas vezes, até almoçávamos lá. A mim, saía-me quase sempre na rifa um pão com queijo. E eu como não gosto muito de queijo, quando a minha avó não estava a olhar, enterrava-o discretamente na areia ao meu lado. Eles nunca repararam, se não a esta hora, tinha outra história para contar: o famoso puxão de orelhas do avô, que eu também cheguei a experimentar.

Este é só um dos exemplos das experiências maravilhosas que vivi com os meus avós. Tenho saudades desse tempo de ser criança, do tempo em que o avô era um ser imortal, do tempo em que era inimaginável que ele não me pudesse vir acordar com cócegas (a que nós chamávamos "bichinhos") na parte anterior dos braços.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dói-me a tua ausência

Dói-me a tua ausência, avô.

Dói-me não te encontrar em lado nenhum: na cadeira gasta de praia, a alisar o jornal no café, a mastigar de olhos fechados à mesa da cozinha. Dói-me não te poder ver nunca mais, olhar para as fotografias e sentir que são como as plantas artificiais: por muito bonitas e realistas que possam parecer, não passam de um elemento morto, decorativo, falso. Quando olho para as tuas fotografias, à tua procura, sinto que não te representam com a vida que eu espero, falta a tua essência, faltas tu.
Dói-me o sorriso que não me espera, os ouvidos ávidos das minhas histórias que ensurdeceram. Dói-me as nossas longas conversas que cessaram, deixando apenas o vazio. Nós que éramos tagarelas natos. 

Oh, avô, e eu ainda tenho tantas coisas para te contar, tantos sonhos para partilhar contigo. Onde é que estás? Onde é que estás, avô? Queria tanto poder abraçar-te, para nunca mais te largar.