quinta-feira, 30 de maio de 2013

Da minha infância #3

Há aprendizagens e experiências que quase todas as crianças vivem no período da sua infância, sejam largar a chupeta, puxar um dentinho de leite com um fio, trepar uma árvore, perder o medo de dormir sozinhas no quarto, construir um cata-vento, deixar as rodinhas de trás da bicicleta. Eu fiz quase todas estas coisas que descrevi (só não me lembro de trepar uma árvore), entre muitas outras: umas mais divertidas, outras de lágrima no olho. E em quase todas, "houve dedo", como se costuma dizer, do meu avô. Vou contar-vos, assim por alto, algumas delas: largar a chupetinha foi uma experiência traumática, tal era o consolo que aquele pequeno objecto de borracha me trazia. Claro que o meu avô não lhe achava graça nenhuma, porque não me deixava falar correctamente e me entortava os dentes. Então, uma vez, lembrou-se de me dizer que a atirou para o monte de estrume que nós tínhamos lá no quintal. Ai e eu chorei, se chorei. Chorei e, com o meu pequeno coração despedaçado, andei tempos infinitos a inspeccionar o estrume de fio a pavio a tentar encontrá-la, para, mais tarde, vir a descobri-la atrás da torradeira na cozinha de cima. Não se faz, avô, não se faz. (Gosto de imaginar que, neste momento, ele se está a rir).

Depois, houve o perder o medo de dormir sozinha no quarto, porque, durante muito tempo, eu dormi com a minha mãe. Ora sem chupeta e sem mãe, a vida não ficou fácil. Os meus avós iam deitar-me e, todas as noites, o avô vinha falar comigo, para que eu me portasse bem. Mas não adiantava nada, eu não queria ficar ali sozinha e chorava. Então, houve uma vez (e isto eu não me lembrava, foram os meus avós que me contaram já eu era crescida) em que fomos ao Porto e eu vi uma boneca numa montra. E, segundo eles, fiquei encantada com a boneca, pelo que o meu avô me perguntou se, se ele ma oferecesse, eu à noite ficava sossegada, sem medo de dormir sozinha (nota que o meu avô nunca foi de nos dar brinquedos nem guloseimas). Mas, eu devia ser tal "peça", que ele fez este acordo comigo. E eu, menina esperta, disse que me ia portar lindamente, de maneira que ele me deu a tal boneca. E eu cumpri o acordo, pelo menos até ir para a cama. Quando lá cheguei é que não houve boneca que me salvasse. E o avô não ficou muito contente.

Mais tarde, quando eu andava na escola primária, o meu avô ajudou-me a construir um cata-vento e um trapézio (uma tábua com pregos que utilizávamos para representar figuras geométricas com elásticos). 

E, depois, ensinou-me a andar de bicicleta sem rodinhas de apoio. Ainda me lembro como se fosse hoje: foi na minha bicicleta amarela (a "Yellow", como eu lhe chamava), oferecida pela minha mãe. Só com uma roda, comecei, aos poucos, a tentar equilibrar-me, no terreiro de cimento lá de casa. O avô ia-me segurando no selim para eu não cair. Quando finalmente consegui pedalar sozinha, o avô deixou-me ir para a rua e ficou a ver-me, ao portão, a dar voltas à urbanização, aconselhando-me a ter cuidado com os carros, sempre que passava por ele. Noutros dias mais tarde, aventurámo-nos em passeios maiores. Eu, de bicicleta, e o meu avô, ao meu lado, a pé. Quando chegávamos a uma subida mais íngreme, eu descia da bicicleta e ele levava-a à mão. Ou então punha a sua mão atrás do selim e dava-me um empurrãozinho.
Costuma-se dizer que quem aprende a andar de bicicleta, nunca mais esquece. É verdade. Mas eu digo, ainda, outra coisa: nunca mais se esquece quem nos ensinou a andar de bicicleta. Quem nos ensinou a ser um bocadinho mais livres. Obrigada, querido avô.

domingo, 26 de maio de 2013

Da minha infância #2

Quando eu era criança, lembro-me de me ajoelhar no poço da casa dos meus avós a fazer chás de brincar, esmagando pétalas de flores coloridas com um bocadinho de água. Disso e de ir à caça de abelhões com o meu avô. Dito assim até faz rir, mas é verdade: pegávamos em garrafões de água vazios, nos quais o avô fazia alguns buraquinhos para que os abelhões pudessem respirar, e, cuidadosa e pacientemente, íamos tentar apanhá-los, enquanto eles retiravam o pólen dos agapantes azuis que tínhamos lá num canteiro. Quando já tínhamos alguns, daqueles mesmo gordinhos e de um amarelo vivo, colocávamos a tampa e ficávamos a admirá-los a esvoaçar dentro do garrafão. Não era lá grande coisa para os abelhões, mas eu gostava daquela brincadeira e, no fim, acabávamos sempre por devolvê-los à Natureza.

Para além dos abelhões, também nos entretínhamos a contar as sardaniscas, sobretudo quando íamos à feira ou à farmácia. Elas costumavam estar a apanhar sol nas reentrâncias do muro que delimita a rua de acesso à feira e, ao longo do caminho, eu e o meu avô íamos contando quantas é que víamos, indicando um ao outro onde é que elas estavam. Houve uma vez em que contámos 36 ou 37! Às vezes, ainda relembrávamos, animados, este nosso feito. 

Agora já não temos agapantes e, por isso, os abelhões já não param muito lá por casa. Mas, em contrapartida, temos muitas sardaniscas a passear pelo jardim. Tenho pena que não possas vir contá-las comigo, avô. Não sei se viste no outro dia o grito da avó quando uma sardanisca grande lhe passou pela mão enquanto ela estava a matar lesmas no canteiro. Eu ri-me muito. Se fosses tu, tinhas logo perguntado "O que é que foi, Mila?" e quando ela te dissesse o motivo do grito, tinhas respondido "Porra, porra", em desaprovação, por te ter assustado por causa de um bicho. Ohh, avô, as saudades que eu tenho tuas!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tarde com sabor a chocolate e nozes

Um par de dias após o Natal, numa sexta-feira, salvo erro, por volta das duas da tarde, entrei no portão de trás da casa dos meus avós com um bolo de chocolate e nozes, feito por mim, decorado com uma imitação de azevinho de plástico que encontrei cá em casa. A marquise estava vazia e só ouvi a voz da minha avó. Estava ao telefone com um discurso derrotista: queixava-se de estar cansada, com falta de energia e com o pó ainda por limpar e a cozinha por arrumar. Não deu por mim atrás dela e eu esperei que terminasse a chamada, o mais silenciosamente possível, para que ela tivesse uma dupla surpresa quando me visse: eu e o bolo (a minha avó é muito gulosa). E assim foi: ela virou-se, viu-me, deu-me dois beijos, eu perguntei o que é que se passava, que discurso feio era aquele e disse-lhe que se animasse que eu a ajudava a limpar o pó. De seguida, mostrei-lhe o bolo e perguntei pelo avô. Como estava um dia quente e à tarde o sol incide na garagem, era costume o meu avô passar lá a tarde, mais ou menos até à hora do lanche, por volta das cinco horas. E lá estava ele: sentado no sofá bordô desbotado, de óculos de sol de lentes esverdeadas e bengala ao seu lado. Quando me viu, sorriu logo. Mostrei-lhe o bolo (que, por acaso, tinha ficado bonito e alto, embora levemente tostado por cima), disse-lhe para cheirar. Ele ficou agradado, embora me tenha dito, como eu já esperava, que não se podia meter em coisas doces, porque tinha de ter muito cuidado com a saúde para não ficar com diabetes. Dantes, acontecia-me, muitas vezes, levar alguma coisa para ele, nem que fosse um chocolate pequenino e ele agradecer o meu gesto mas não comer, mesmo que lhe apetecesse. O meu avô era mesmo muito rigoroso no que tocava à saúde. Mas ultimamente, já ia cedendo mais. E eu gostava, oh como eu gostava! que ele aceitasse aquele pequeno mimo.

Ficámos a conversar enquanto a minha avó lavava a loiça. Entretanto, ela chegou para irmos limpar o pó, já mais airosa por contar com a minha ajuda, e eu vi na expressão do meu avô que ele preferia que tivéssemos ficado ao pé dele. Ele gostava de ter a nossa companhia, porque, no fundo, passava muitas horas sozinho, enquanto a minha avó andava nos seus afazeres diários, ou calado, porque, mesmo quando estavam ao pé um do outro, não falavam muito. A minha avó tem muita necessidade de, como ela diz, "descansar a cabeça" e para isso gosta do silêncio. Se bem que, quando eu ía para lá, isso era impossível, não parávamos de contar histórias, de rir e até ela acabava por participar. O meu avô diz que ela ficava logo outra quando eu chegava. E ele, ele também ficava outro, ficava com o rosto luminoso, com o espírito mais leve.

As limpezas tardaram até à hora do lanche. Fomos para a cozinha (já se estava a levantar um vento fresco) e depois da sua generosa malga de leite com cevada e pão integral (por vezes, comia sete bolachas Maria), lá provou uma fatia pequena do meu bolo. Saboreou, disse que eu tinha jeito. O meu avô sempre foi um apreciador de chocolate. Costumava contar-me que, quando era novo, os seus lanches eram um pão com dois golpes onde colocava duas barras de chocolate fininhas e um copo de vinho branco. E a meio da manhã, comia uma boa posta de bacalhau assado. E ao almoço, nem chegava a usar o prato, era mesmo da travessa: um belo bife de quarto de quilo com batatas fritas. Outros tempos e um avô muito diferente daquele que eu conhecia, agora, que pouco comia, deixando a minha avó, por vezes, à beira de um ataque de nervos.

O lanche chegou ao fim e ele cismou que tinha de me pagar o bolo. Claro que eu não deixei, porque não fazia sentido nenhum, mas este assunto ainda serviu para uns longos minutos de discussão. Quando se tratava de dinheiro, o meu avô era muito sério e irredutível (chegava mesmo a ser casmurro). Mas lá consegui convencê-lo de que preferia que me gratificassem num outro dia.

Esta tarde ficou-me gravada na memória assim. E o bolo de chocolate com nozes ficou gravado no meu coração como "o bolo do avô", se calhar, porque não cheguei a ter oportunidade de lhe dar outro a provar. Fica-me a imagem dele a saboreá-lo, lentamente, de olhos fechados, e eu a perguntar-lhe se sabia muito a nozes e ele a dizer-me que não.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Da minha infância #1

Durante a minha infância, o meu avô foi o meu companheiro de aventuras. Eu andava sempre atrás dele e no Verão, então, com as férias da escola, passava mesmo muito tempo com os meus avós maternos. Íamos muitas vezes à praia do Marreco, em Matosinhos, a praia favorita por ser bastante rochosa e amparar do vento. A minha avó gostava de se ir esticar nas rochas ao sol, de forma a levar, de vez em quando, com os salpicos das ondas. O calor da areia fazia-lhe mal. Já eu e o meu avô, todos os dias, sem excepção, íamos fazer a nossa caminhada, pela beira do mar, até ao Cabo do Mundo. O Cabo do Mundo era um rochedo muito grande que, salvo erro, separa a praia do Marreco de uma outra. Íamos devagarinho, sempre de mãos dadas, a conversar: eu, do lado do mar, o avô do lado da areia. Esta era a regra para o caso de vir uma onda com mais força, ele poder segurar-me e puxar-me. 

Para além da caminhada, fazíamos outra coisa: apanhávamos conchas e beijinhos-do-mar, uns búzios pequeninos e arredondados, de cor rosa, naquela orla de conchas e mexilhões que o mar deixa ao longo da praia. Eu gostava especialmente dos beijinhos, porque eram mais difíceis de encontrar e eu ía logo a correr, orgulhosa, quando encontrava um, mostrar ao avô.

Depois, chegava a hora do lanche, que a minha avó preparava amorosamente todos os dias e que levávamos nas lancheiras. Muitas vezes, até almoçávamos lá. A mim, saía-me quase sempre na rifa um pão com queijo. E eu como não gosto muito de queijo, quando a minha avó não estava a olhar, enterrava-o discretamente na areia ao meu lado. Eles nunca repararam, se não a esta hora, tinha outra história para contar: o famoso puxão de orelhas do avô, que eu também cheguei a experimentar.

Este é só um dos exemplos das experiências maravilhosas que vivi com os meus avós. Tenho saudades desse tempo de ser criança, do tempo em que o avô era um ser imortal, do tempo em que era inimaginável que ele não me pudesse vir acordar com cócegas (a que nós chamávamos "bichinhos") na parte anterior dos braços.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dói-me a tua ausência

Dói-me a tua ausência, avô.

Dói-me não te encontrar em lado nenhum: na cadeira gasta de praia, a alisar o jornal no café, a mastigar de olhos fechados à mesa da cozinha. Dói-me não te poder ver nunca mais, olhar para as fotografias e sentir que são como as plantas artificiais: por muito bonitas e realistas que possam parecer, não passam de um elemento morto, decorativo, falso. Quando olho para as tuas fotografias, à tua procura, sinto que não te representam com a vida que eu espero, falta a tua essência, faltas tu.
Dói-me o sorriso que não me espera, os ouvidos ávidos das minhas histórias que ensurdeceram. Dói-me as nossas longas conversas que cessaram, deixando apenas o vazio. Nós que éramos tagarelas natos. 

Oh, avô, e eu ainda tenho tantas coisas para te contar, tantos sonhos para partilhar contigo. Onde é que estás? Onde é que estás, avô? Queria tanto poder abraçar-te, para nunca mais te largar.