Há aprendizagens e experiências que quase todas as crianças vivem no período da sua infância, sejam largar a chupeta, puxar um dentinho de leite com um fio, trepar uma árvore, perder o medo de dormir sozinhas no quarto, construir um cata-vento, deixar as rodinhas de trás da bicicleta. Eu fiz quase todas estas coisas que descrevi (só não me lembro de trepar uma árvore), entre muitas outras: umas mais divertidas, outras de lágrima no olho. E em quase todas, "houve dedo", como se costuma dizer, do meu avô. Vou contar-vos, assim por alto, algumas delas: largar a chupetinha foi uma experiência traumática, tal era o consolo que aquele pequeno objecto de borracha me trazia. Claro que o meu avô não lhe achava graça nenhuma, porque não me deixava falar correctamente e me entortava os dentes. Então, uma vez, lembrou-se de me dizer que a atirou para o monte de estrume que nós tínhamos lá no quintal. Ai e eu chorei, se chorei. Chorei e, com o meu pequeno coração despedaçado, andei tempos infinitos a inspeccionar o estrume de fio a pavio a tentar encontrá-la, para, mais tarde, vir a descobri-la atrás da torradeira na cozinha de cima. Não se faz, avô, não se faz. (Gosto de imaginar que, neste momento, ele se está a rir).
Depois, houve o perder o medo de dormir sozinha no quarto, porque, durante muito tempo, eu dormi com a minha mãe. Ora sem chupeta e sem mãe, a vida não ficou fácil. Os meus avós iam deitar-me e, todas as noites, o avô vinha falar comigo, para que eu me portasse bem. Mas não adiantava nada, eu não queria ficar ali sozinha e chorava. Então, houve uma vez (e isto eu não me lembrava, foram os meus avós que me contaram já eu era crescida) em que fomos ao Porto e eu vi uma boneca numa montra. E, segundo eles, fiquei encantada com a boneca, pelo que o meu avô me perguntou se, se ele ma oferecesse, eu à noite ficava sossegada, sem medo de dormir sozinha (nota que o meu avô nunca foi de nos dar brinquedos nem guloseimas). Mas, eu devia ser tal "peça", que ele fez este acordo comigo. E eu, menina esperta, disse que me ia portar lindamente, de maneira que ele me deu a tal boneca. E eu cumpri o acordo, pelo menos até ir para a cama. Quando lá cheguei é que não houve boneca que me salvasse. E o avô não ficou muito contente.
Mais tarde, quando eu andava na escola primária, o meu avô ajudou-me a construir um cata-vento e um trapézio (uma tábua com pregos que utilizávamos para representar figuras geométricas com elásticos).
E, depois, ensinou-me a andar de bicicleta sem rodinhas de apoio. Ainda me lembro como se fosse hoje: foi na minha bicicleta amarela (a "Yellow", como eu lhe chamava), oferecida pela minha mãe. Só com uma roda, comecei, aos poucos, a tentar equilibrar-me, no terreiro de cimento lá de casa. O avô ia-me segurando no selim para eu não cair. Quando finalmente consegui pedalar sozinha, o avô deixou-me ir para a rua e ficou a ver-me, ao portão, a dar voltas à urbanização, aconselhando-me a ter cuidado com os carros, sempre que passava por ele. Noutros dias mais tarde, aventurámo-nos em passeios maiores. Eu, de bicicleta, e o meu avô, ao meu lado, a pé. Quando chegávamos a uma subida mais íngreme, eu descia da bicicleta e ele levava-a à mão. Ou então punha a sua mão atrás do selim e dava-me um empurrãozinho.
Costuma-se dizer que quem aprende a andar de bicicleta, nunca mais esquece. É verdade. Mas eu digo, ainda, outra coisa: nunca mais se esquece quem nos ensinou a andar de bicicleta. Quem nos ensinou a ser um bocadinho mais livres. Obrigada, querido avô.