Durante a minha infância, o meu avô foi o meu companheiro de aventuras. Eu andava sempre atrás dele e no Verão, então, com as férias da escola, passava mesmo muito tempo com os meus avós maternos. Íamos muitas vezes à praia do Marreco, em Matosinhos, a praia favorita por ser bastante rochosa e amparar do vento. A minha avó gostava de se ir esticar nas rochas ao sol, de forma a levar, de vez em quando, com os salpicos das ondas. O calor da areia fazia-lhe mal. Já eu e o meu avô, todos os dias, sem excepção, íamos fazer a nossa caminhada, pela beira do mar, até ao Cabo do Mundo. O Cabo do Mundo era um rochedo muito grande que, salvo erro, separa a praia do Marreco de uma outra. Íamos devagarinho, sempre de mãos dadas, a conversar: eu, do lado do mar, o avô do lado da areia. Esta era a regra para o caso de vir uma onda com mais força, ele poder segurar-me e puxar-me.
Para além da caminhada, fazíamos outra coisa: apanhávamos conchas e beijinhos-do-mar, uns búzios pequeninos e arredondados, de cor rosa, naquela orla de conchas e mexilhões que o mar deixa ao longo da praia. Eu gostava especialmente dos beijinhos, porque eram mais difíceis de encontrar e eu ía logo a correr, orgulhosa, quando encontrava um, mostrar ao avô.
Depois, chegava a hora do lanche, que a minha avó preparava amorosamente todos os dias e que levávamos nas lancheiras. Muitas vezes, até almoçávamos lá. A mim, saía-me quase sempre na rifa um pão com queijo. E eu como não gosto muito de queijo, quando a minha avó não estava a olhar, enterrava-o discretamente na areia ao meu lado. Eles nunca repararam, se não a esta hora, tinha outra história para contar: o famoso puxão de orelhas do avô, que eu também cheguei a experimentar.
Este é só um dos exemplos das experiências maravilhosas que vivi com os meus avós. Tenho saudades desse tempo de ser criança, do tempo em que o avô era um ser imortal, do tempo em que era inimaginável que ele não me pudesse vir acordar com cócegas (a que nós chamávamos "bichinhos") na parte anterior dos braços.
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