quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tarde com sabor a chocolate e nozes

Um par de dias após o Natal, numa sexta-feira, salvo erro, por volta das duas da tarde, entrei no portão de trás da casa dos meus avós com um bolo de chocolate e nozes, feito por mim, decorado com uma imitação de azevinho de plástico que encontrei cá em casa. A marquise estava vazia e só ouvi a voz da minha avó. Estava ao telefone com um discurso derrotista: queixava-se de estar cansada, com falta de energia e com o pó ainda por limpar e a cozinha por arrumar. Não deu por mim atrás dela e eu esperei que terminasse a chamada, o mais silenciosamente possível, para que ela tivesse uma dupla surpresa quando me visse: eu e o bolo (a minha avó é muito gulosa). E assim foi: ela virou-se, viu-me, deu-me dois beijos, eu perguntei o que é que se passava, que discurso feio era aquele e disse-lhe que se animasse que eu a ajudava a limpar o pó. De seguida, mostrei-lhe o bolo e perguntei pelo avô. Como estava um dia quente e à tarde o sol incide na garagem, era costume o meu avô passar lá a tarde, mais ou menos até à hora do lanche, por volta das cinco horas. E lá estava ele: sentado no sofá bordô desbotado, de óculos de sol de lentes esverdeadas e bengala ao seu lado. Quando me viu, sorriu logo. Mostrei-lhe o bolo (que, por acaso, tinha ficado bonito e alto, embora levemente tostado por cima), disse-lhe para cheirar. Ele ficou agradado, embora me tenha dito, como eu já esperava, que não se podia meter em coisas doces, porque tinha de ter muito cuidado com a saúde para não ficar com diabetes. Dantes, acontecia-me, muitas vezes, levar alguma coisa para ele, nem que fosse um chocolate pequenino e ele agradecer o meu gesto mas não comer, mesmo que lhe apetecesse. O meu avô era mesmo muito rigoroso no que tocava à saúde. Mas ultimamente, já ia cedendo mais. E eu gostava, oh como eu gostava! que ele aceitasse aquele pequeno mimo.

Ficámos a conversar enquanto a minha avó lavava a loiça. Entretanto, ela chegou para irmos limpar o pó, já mais airosa por contar com a minha ajuda, e eu vi na expressão do meu avô que ele preferia que tivéssemos ficado ao pé dele. Ele gostava de ter a nossa companhia, porque, no fundo, passava muitas horas sozinho, enquanto a minha avó andava nos seus afazeres diários, ou calado, porque, mesmo quando estavam ao pé um do outro, não falavam muito. A minha avó tem muita necessidade de, como ela diz, "descansar a cabeça" e para isso gosta do silêncio. Se bem que, quando eu ía para lá, isso era impossível, não parávamos de contar histórias, de rir e até ela acabava por participar. O meu avô diz que ela ficava logo outra quando eu chegava. E ele, ele também ficava outro, ficava com o rosto luminoso, com o espírito mais leve.

As limpezas tardaram até à hora do lanche. Fomos para a cozinha (já se estava a levantar um vento fresco) e depois da sua generosa malga de leite com cevada e pão integral (por vezes, comia sete bolachas Maria), lá provou uma fatia pequena do meu bolo. Saboreou, disse que eu tinha jeito. O meu avô sempre foi um apreciador de chocolate. Costumava contar-me que, quando era novo, os seus lanches eram um pão com dois golpes onde colocava duas barras de chocolate fininhas e um copo de vinho branco. E a meio da manhã, comia uma boa posta de bacalhau assado. E ao almoço, nem chegava a usar o prato, era mesmo da travessa: um belo bife de quarto de quilo com batatas fritas. Outros tempos e um avô muito diferente daquele que eu conhecia, agora, que pouco comia, deixando a minha avó, por vezes, à beira de um ataque de nervos.

O lanche chegou ao fim e ele cismou que tinha de me pagar o bolo. Claro que eu não deixei, porque não fazia sentido nenhum, mas este assunto ainda serviu para uns longos minutos de discussão. Quando se tratava de dinheiro, o meu avô era muito sério e irredutível (chegava mesmo a ser casmurro). Mas lá consegui convencê-lo de que preferia que me gratificassem num outro dia.

Esta tarde ficou-me gravada na memória assim. E o bolo de chocolate com nozes ficou gravado no meu coração como "o bolo do avô", se calhar, porque não cheguei a ter oportunidade de lhe dar outro a provar. Fica-me a imagem dele a saboreá-lo, lentamente, de olhos fechados, e eu a perguntar-lhe se sabia muito a nozes e ele a dizer-me que não.

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