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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Gostar é gostar

Uma coisa que me irrita é a mania dos termos de comparação, sobretudo comparações do grau de amor e afecto que temos por uns e por outros. Dizer que eu gosto mais do meu avô do que da minha avó é mentira, assim como é mentira dizer que gosto mais da minha avó do que do meu avô. Não gosto mais nem menos, mas também não gosto da mesma maneira. A questão é: gosto deles de forma diferente porque eles são pessoas diferentes. Claro que posso ter mais afinidade com um ou com outro, identificar-me mais com uma forma de pensar de um ou de outro, mas isso nada interfere com o amor que lhes tenho.

Por exemplo, a minha avó é aquilo a que chamamos "um coração mole": é sensível, impressionável, vulnerável, sofredora, tem uma capacidade extraordinária de perdoar. Acredita que não pode dar mais do que aquilo que dá, o que não é verdade e o que a torna uma pessoa um bocadinho resignada e derrotista. Se "ofendermos" a minha avó de manhã, à tarde ela já está bem connosco e espera que a abordemos sempre com um sorriso nos lábios. Não é de conversas longas e muito intelectualizadas, mas com ela falo de flores, dos vizinhos de quem gostamos, do avô, de assuntos de meninas e trivialidades. 

Já o meu avô tinha uma personalidade mais forte e mais vincada: era sério e levava a sério as conversas sérias, era exigente consigo e com os outros, prezava a boa-educação, a honestidade e a verdade acima de tudo. Era um excelente comunicador, culto e informado. Com ele, eu podia falar da actualidade, desde política a economia ou religião. Era de ideias fixas, mas não era arrogante. Sabia ouvir, sabia aconselhar e também sabia quando se devia calar (infelizmente, pouca gente o sabe). Por outro lado, era uma pessoa um bocadinho susceptível, no sentido em que bastava uma palavra fora do lugar ou do tom para ele se ofender e, ao contrário da minha avó, muito dificilmente perdoar.

Sortuda ou não, o meu feitio aproxima-se mais do do meu avô do que do da minha avó, por isso, naturalmente eu o compreendia melhor do que compreendo a minha avó. É curioso, porque, muito embora a minha avó tenha, aparentemente, um feitio mais simples e mais maleável, não consigo atingi-la da mesma forma que o fazia com o meu avô. E, acho que isso é, muitas vezes e mesmo por ela própria, interpretado como menos amor da minha parte. E é engraçado que penso que essa ideia também passou para o meu avô que, pouco tempo antes de nos deixar, numa das tardes que fui passar com eles, me disse, quando a minha avó se ausentou da nossa companhia para ir ver a telenovela, que ela gostava muito de mim.

Mais uma vez, a questão não passa por qual dos dois gosto mais. Não tem a ver com intensidade ou com o espaço que ocupam no meu coração. Pelo menos, eu não o vejo assim. Eu gosto de cada um exactamente por aquilo que de melhor eles têm e são, e, por isso, gosto-os de forma diferente. E é isso que as pessoas têm de entender: diferente não é mau. Diferente é o que torna especial.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Morreste-me #2

«E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta do quintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e esta tarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chaves e, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa, examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. (...) Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombras finas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias? Não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne e luz ou sombra.»

Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 12-16)

No Domingo, voltámos a Fafe. A viagem fez-se silenciosa, de lágrimas silenciosas a escorrerem pelas faces da minha mãe e da minha avó. Eu fui quase todo o caminho de olhos fechados, auscultadores nos ouvidos. Abri-os por duas vezes para me deparar com as placas de direcção: Fafe. A terra que viu o meu avô ser menino, perder a mãe aos oito anos, ser rapaz, quase padre, ter lições de violino, perder o pai aos dezoito, casar pela primeira vez. A terra que foi o meu avô e agora nada.

Chegámos ao destino: bairro da Granja. Mais lágrimas, muitas lágrimas. Eu sentia-me zangada demais por dentro, por tudo e coisa nenhuma, para ter lágrimas. Às vezes, acontece-me e não quer dizer, por isso, que esteja a sofrer menos do que os que choram. Se bem que, neste caso em particular, talvez até fosse verdade, porque eu não tenho tantas recordações daqueles sítios e daquelas pessoas, quanto a minha avó e a minha mãe. Fomos ver a tia Maria. Estava deitada na cama, achei-a bonita, com melhor fisionomia do que há um ano atrás. Aquele espaço que fica entre as sobrancelhas, meias franzidas, foi o que mais me fez lembrar o meu avô. Mas já o cabelo fino, as orelhas compridas e a pele muito lisa para uma senhora de 92 anos, também são características que o meu avô partilhava.

Fomos almoçar a casa daquela sobrinha do meu avô com quem ele se dava bem. Sentaram a minha avó à cabeceira da mesa. Ao seu lado direito, um espaço vazio, prato, talheres e copo dispostos para o meu avô. Não sei se o fizeram para honrá-lo ou simplesmente para não ficar uma conta de treze pessoas à mesa. Para mim, só serviu para acentuar mais a sua ausência. Havia cabrito e vitela. A minha avó comeu um bocadinho de cabrito, com pouca vontade, pareceu-me. Ela e o meu avô adoravam o cabrito da tia Maria. Já eu, fiquei-me pela vitela assada e, uma vez mais, a vitela era avó, avô. Havias de te ter rido com vontade, eu queria ter-me rido com vontade contigo.

A meio do almoço, ouvi dizerem que onde o meu avô estava, estava muito bem. Disseram-no para apaziguar a minha avó, eu queria não ter ouvido. Ninguém sabe se onde o meu avô está, está bem ou tão-pouco se ele está em algum lado. Bem, muito bem, estaria ele, ao nosso lado, a derriçar cabrito e vitela-avó. Às vezes, fico com ciúmes por outras pessoas (que não a minha família mais chegada) se referirem ao meu avô como se o conhecessem desde sempre, melhor do que eu, como se o amassem mais do que eu (como se isso fosse possível). É um sentimento feio e egoísta, eu sei, e tento controlá-lo, mas o facto é que me sinto um bocadinho possessiva no que toca ao meu avô.

A visita terminou da mesma forma que começou: com um sentimento de desencantamento a encher-me o peito. Não é que a família não nos tenha recebido bem, porque recebeu. É só porque, para mim, era o meu avô que fazia aquele lugar, era através dos seus olhos que eu o queria conhecer. Valeu o coração da minha avó ter ficado mais sossegado. Voltar a Fafe e olhar nos olhos da tia Maria eram uma espécie de provação para ela e agora que o fizemos, penso que ganhou alguma paz de espírito. E isso é o que importa.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma lupa, um buda e cartas de amor

Ontem, estive em casa dos meus avós. Nestes últimos dias, a minha avó tem andado atarefada com algumas remodelações e limpezas maiores lá por casa, nomeadamente no terraço e no quintal, pelo que aproveitou a minha presença para me pedir que fosse à garagem ver se algum artigo do meu avô me interessava ou se podia deitar ao lixo. Ela referia-se sobretudo a um monte de revistas (algumas que eu própria tinha levado para ele e que ele havia guardado, como eu já vos havia referido num post anterior que era seu hábito fazê-lo quando continham algum artigo que considerava interessante). Dei uma vista de olhos às páginas que ele havia assinalado com números trémulos nas capas e eram sobretudo artigos de carácter religioso e as rubricas de "O Sexo e a Cidália", que ele achava especialmente divertidas. Acabei por convencer a minha avó a guardar as revistas todas numa prateleira do móvel das moedas.

Entretanto, pousada num dos sofás empoeirados, jazia a velha lupa preta do meu avô que, durante a minha infância, ele tinha utilizado para me mostrar como, apontando-a para o sol, começava a queimar uma folha branca que ele colocava sob ela, que nem um truque de magia. E, em cima do gira-discos que já nem funciona e vai acabar na sucata, descobri um buda pequenino que me fez sorrir muito por dentro, porque quando o vi, despertou em mim, espontaneamente, uma memória de uma vez em que o meu avô esteve no hospital (não me lembro qual o motivo), era eu pequenina, e lhe levar aquele mesmo buda (que não faço ideia onde o fui buscar), colocando-o na sua mesinha-de-cabeceira, como uma espécie de presente para ele ficar bom depressa. Agarrei naquele pequeno objecto simbólico com carinho, mostrei-o à minha avó e perguntei-lhe se ela se lembrava disto. Ela disse-me que não. Quando cheguei a minha casa, mostrei-o, desta vez, à minha mãe e ela também me disse que não se lembrava. Mas eu lembro-me e o facto é que, ao fim de tantos anos, ele ainda andava por lá, pelo que decidi trazê-lo comigo. Pode ser que me "dê sorte", assim como "deu sorte" ao meu avô, já que ele, na altura, recuperou do seu problema de saúde.

O último momento especial da tarde foi quando a minha avó encontrou, dentro de uma mala de viagem que guardava o seu vestido de casamento (que eu nunca tinha visto), um saquinho transparente amarrado com uma fita vermelha, contendo as cartas de amor que os meus avós haviam trocado entre si, nos tempos de namoro. Fiquei encantada, mesmo só tendo lido uns bocadinhos de algumas delas, palavras tão sentidas de amor verdadeiro, palavras redondinhas escritas à mão pela minha avó para o meu avô e dactilografadas do meu avô para a minha avó, revelando o desejo de ambos de se poderem ver aos domingos e as saudades que apertavam até estes finalmente chegarem. Claro que a minha avó acabou por só conseguir ler algumas linhas, já que a dor se tornou demasiado grande para caber no peito e não rebentar nos olhos, e eu também não insisti nem lhe pedi para as continuar a ler sem ela, porque entendo que é uma coisa muito íntima e que só aos dois diz respeito (embora vontade não me faltasse, tenho de confessar).

Era isto que vos queria contar ontem e não consegui. Deixo-vos com uma fotografia que tirei ao meu mais recente "buda da sorte":



Boa noite.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Visita a Fafe (Julho de 2012)

O meu avô era natural de Fafe e daqui a quatro dias faz precisamente um ano em que lá fomos com o intuito de visitar uma das suas irmãs que estava doente. Logo de manhã, quando fomos buscar os meus avós a casa, se dúvidas tivéssemos quanto à importância daquela ida a Fafe para o meu avô, desapareceriam assim que lhe pusémos a vista em cima, quando apareceu ao portão, com o braço direito dado à minha avó e apoiado na bengala com o braço esquerdo, todo janota de fato e gravata, como eu já não o via há vários anos. Saí do carro para lhes dar um beijinho de bom-dia e até brinquei com ele, dizendo-lhe que até parecia mal eu ir vestida da forma que ía comparada à sua fatiota.

Estava um dia bonito e a viagem foi relativamente rápida, com o meu avô a inclinar-se progressivamente para o lado do condutor, tendência que ele havia desenvolvido de há uns anos para cá, fruto das mazelas que ficaram e se foram agravando de um AVC que o atingiu há sensivelmente 14 anos. Ele estava desejoso por chegar e eu também estava animada por conhecer o lugar onde ele havia vivido e crescido, palco das histórias que ele tantas vezes me contava.

Uma hora e meia depois, chegámos então à casa da tia Maria, na altura uma dos quatro irmãos, incluindo o meu avô, que ainda estavam vivos (no total, foram nove irmãos) e que era a irmã que tão bem cozinhava o cabrito assado aos domingos que o meu avô simplesmente adorava. Ela estava (e ainda está) muito debilitada e não conseguiu falar, mas penso que o reconheceu, já que uma lágrima lhe escorreu pelo rosto quando o viu e ele falou com ela. 

Estivémos lá durante algum tempo e depois fomos dar uma volta à vila, onde encontrámos uma outra irmã do meu avô, a tia Ana, a quem ele, na brincadeira chamou Rosa, levando-a a concluir que ele já não estava no seu perfeito juízo. A tia Ana ficou tão contente de nos ver, que tagarelou imenso, pelo que, quando nos disse que por dia dava 30 voltas a pé e que, só naquele dia, já tinha dado 25, o meu avô, maroto, lhe disse para ela ir dar as 5 que faltavam, porque já estávamos a ficar atrasados para o almoço. Só de me lembrar já me estou a rir, mas esta não foi a sua única graçola do dia, esperem que já vos conto.

Quando finalmente nos despedimos da tia Ana, fomos visitar uma das antigas paixões do meu avô, uma senhora por quem ele ainda nutria forte amizade. Estiveram a pôr a conversa em dia (ele, a minha avó e a tal senhora) e, já no final, maroto a dobrar, o meu avô não resistiu a perguntar-lhe se não merecia nada, deixando-nos a todos um bocadinho sem jeito, ao que esta lhe respondeu com dois beijinhos na cara.

Continuámos a nossa visita à vila que, segundo o meu avô, estava tão diferente que já nem a conhecia, e ainda encontrámos outros conhecidos (para mim, desconhecidos) que vieram cumprimentar o meu avô.

Chegada a hora de almoço, voltámos a casa da tia Maria. Sentámo-nos à mesa, o meu avô a uma das cabeceiras, comigo do seu lado direito, e começámos a degustar a vitela assada que a família havia encomendado. Tudo corria bem até uma das sobrinhas do meu avô, com quem, eu fiquei a saber, ele se dava particularmente bem, lhe perguntar "Tio, a vitela está boa?", ao que ele respondeu seriamente "Para ser avó, está muito boa". Em segundos, eu e o meu avô cruzámos o olhar e desatámo-nos a rir, a rir, a rir sem conseguirmos parar. Aquele momento foi de tal forma hilariante, com toda a família em silêncio à espera da resposta do meu avô, esperando tudo menos aquela inusitada que ele deu, que, ainda hoje, quando o relembrávamos nas nossas conversas, nos ríamos imenso. Depois disto, o almoço decorreu normalmente, pelo menos até à hora do café. 

O meu avô estava tão bem-disposto e revigorado, que se sentiu com força para ir tomar o café fora de casa, se eu também fosse. Claro que eu fui e, uma vez mais, a tal sobrinha que tinha perguntado se a vitela estava boa, desta vez, lembrou-se de perguntar se o café estava bom. E o meu avô não tem mais nada: "O melhor do café é o que está lá dentro... o açúcar." Pronto, desatámo-nos a rir outra vez, comigo a exclamar, num tom de censura pouco convincente, "Ohh, vô! Ohh, vô!".

A nossa visita deu-se por terminada, não antes de eu tirar uma fotografia com os meus avós, a última fotografia que tenho do meu avô e com ele, e que partilho agora convosco:


Quando olho para ela, só me lembro do quanto ele estava feliz naquele dia e juro que, às vezes, até me parece que ele está a sorrir para mim.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Eu tenho dois amores"

Durante a sua vida, o meu avô cultivou duas paixões: mulheres e moedas. Em relação às mulheres, durante a sua juventude, foi um quebra-corações. Elas ficavam rendidas à sua beleza, à sua forma de estar e de se apresentar, que o diferenciavam no meio rural onde ele vivia, e, segundo a minha avó, ao seu "parlapier" de vários metros de comprimento. Ele contava-me muitas vezes os seus atribulados romances e, a certa altura, até a minha avó que desaprovava, naturalmente, alguns detalhes das histórias, se começava a rir tal era a desfaçatez e ousadia que o caracterizavam naquela altura. Já eu, divertia-me sempre imenso a ouvi-lo.

A sua segunda paixão era, então, as moedas, que ele coleccionava desde rapaz novo. Achava-as belas, apreciando sobretudo a minúcia do traçado do relevo das faces. Conhecia-as de trás para a frente e sabia praticamente de cor o seu valor no mercado, cuja informação actualizava anualmente com o livro Centavo que eu comprava por ele, ultimamente, no Porto, numa loja de numismática. A mim, ensinou-me a distinguir entre duas moedas iguaizinhas, qual das duas era rara, através da leitura dos eixos. Gostava tanto delas que um dos móveis que as guardam, foi, inclusive, construído por ele, em madeira, com sucessivas gavetinhas. Nestes últimos tempos, ele já não costumava ir vê-las, por não conseguir estar muito tempo de pé, nem a segurar as gavetas ou as capas arquivadoras. Pelo que, não há muito tempo atrás, numa sexta-feira de sol, lhe perguntei se ele gostava de ir à garagem vê-las comigo, ao que ele se levantou quase de imediato, qual criança entusiasmada quando a convidam para ir jogar à bola. Apoiado em mim, lá fomos e eu arrastei o velho sofá até ao móvel das "meninas dos seus olhos". Ele sentou-se e eu sentei-me também num dos braços do sofá, de forma a poder chegar ao armário e colocar-lhe as gavetas no colo. Estivémos horas naquilo, a tirar e colocar moedas. De vez em quando, eu perguntava-lhe se ele estava cansado ou com frio e ele dizia-me sempre que não, pelo que só interrompemos o nosso serão quando a minha avó nos veio perguntar se naquele dia não lanchávamos. Ele estava tão contente que nem deu pelo tempo passar. Enquanto arrumava tudo nos respectivos lugares, disse-me que ainda havia muito para ver, como que um convite para uma próxima tarde. Ohh, avô, como eu gostava de voltar a ver as moedas contigo! Um dia destes, vou lá e pego emprestada aquela com o Fernando Pessoa. Gostei dela e tenho a certeza de que não te importas que o faça. Prometo estimá-la, avô. Gosto tanto de ti!

Morreste-me #1

«Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida.»


Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 9-10)

A morte muda o nosso olhar sobre o que nos rodeia e, inicialmente, é muito difícil aceitar que a vida continua quando nós sentimos que ela perdeu todo o direito de continuar. É quase insultuoso observarmos que o mundo lá fora segue indiferente à nossa dor que, por maior e mais profunda que seja, parece não conseguir abarcar as outras pessoas, pouco ou nada as afectar. E só nos apetece bater-lhes, gritar-lhes aos ouvidos que já nada é nem nunca mais será igual. É uma febre de revolta, indignação, mágoa, dor, tristeza e medo que nos assalta e, no fundo, o mínimo que esperamos é que os outros a partilhem connosco. Mas a verdade é que isso não acontece e as pessoas à nossa volta continuam a rir, a dançar, a celebrar, a viver. Quando muito, disfarçam ou diminuem o tom quando nos vêem, por respeito ou compaixão. E nós começamos a afastar-nos instintivamente delas e a juntarmo-nos mais aos nossos. É assim, pelo menos, numa primeira fase.

Continuar é inevitável e não precisamos de estar sempre a ouvir frases feitas e insensíveis como "a vida continua" ou "a morte faz parte da vida". Nós sabemos perfeitamente que temos de fazer um esforço para continuar, só que não é no dia seguinte, nem no outro, nem mesmo no outro a seguir. A dor leva tempo a mitigar e há dores que nunca chegam a curar.

Quanto a mim, sinto-me como se me faltasse um prato na balança. Quando o meu avô morreu, uma parte de mim morreu com ele. Agora, é reaprender a desfrutar do que a vida ainda tem para me oferecer, da mesma forma que um amputado tem de reaprender a realizar as tarefas diárias com menos um membro. A diferença entre mim e um amputado é que eu não perdi uma perna ou um braço, mas em compensação perdi metade do coração, ainda que metaforicamente falando. E dói e é uma dor tão ou mais real do que se fosse uma amputação verdadeira.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O gosto pela leitura

O gosto pela leitura herdei-o do meu avô. A leitura, a par da rádio, constituía para ele o meio de eleição para se manter informado sobre a actualidade e eram sobretudo as questões políticas e económicas do país que o preocupavam, fazendo-o perder horas e horas de sono a conjecturar o futuro da nossa família. A noite trazia-lhe a lucidez e concentração necessárias para avaliar factos e encontrar soluções. Quando estava mais descontraído, até poemas de mais de trinta quadras rimadas ele criava mentalmente e memorizava. 

Por isso, e tendo em conta que ele se recusava a ver televisão, sempre que eu podia, leváva-lhe jornais e revistas, mesmo que já tivessem alguns dias. Quando algum deles continha uma notícia que ele considerava particularmente interessante ou relevante, guardava-os na garagem, apontando nas capas as páginas referentes ao tal artigo oportuno. 

Mas, nem sempre a fome de leitura do meu avô se restringiu a jornais e revistas e, tão-pouco, a notícias da actualidade nacional e internacional. Quando era novo, o meu avô devorava romances, lendo, muitas vezes, pela noite dentro. O seu autor favorito era Camilo Castelo Branco, do qual leu "Amor de Perdição", "A Freira no Subterrâneo" e "A culpa dos Pais". Curiosamente, foi preso pela PIDE pelo seu nome constar de uma lista de uma biblioteca, à qual pertenciam o nome de vários comunistas. Isto porque, livros como "A Freira no Subterrâneo" eram proibidos no Estado Novo, pelo que ele os procurava para os ler à revelia. Ele gostava de histórias que facilmente se pudessem confundir com a realidade. Do "Amor de Perdição" (que já se encontra na fila para as minhas próximas leituras), ficou a recordação de quando ele levou a minha avó ao cinema para ver o filme baseado na obra, ainda eram namorados. Quando eu lhe perguntava se a minha avó tinha chorado muito, ele dizia "Ui, moça!", ao que ela acrescentava depois que, durante alguns dias, nem conseguia comer, já que "parecia que a comida nem passava para baixo".

Se dúvidas houvesse quanto "a quem eu saí", assim viciada na leitura, penso que acabaram de se dissipar. Foi mesmo ao meu avô. Mais um legado feliz que ele me deixou.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sem título #1

Hoje, enquanto aguardava com a minha avó uma consulta de oftalmologia na sala de espera do hospital, lembrei-me de uma das inúmeras histórias de deliciosa malícia que o meu avô tinha sempre prontas na ponta da língua e que não se cansava de mas contar, ao ponto de eu as saber quase todas de cor, embora, quando contadas por mim, não tenham metade da graça. Ainda assim, não resisti e resgatando a minha avó do seu estado de alheamento, murmurei-lhe "Vó, vê lá se não te põem um olho de um cão". Ela compreendeu de imediato e retribuiu-me o sorriso. Se, por acaso, o meu avô estivesse ali, tenho a certeza de que se teria rido com gosto. Ele tinha um riso contagiante que o traía sempre que queria contar uma das suas marotices. Ria-se, começava a contar, voltava a rir-se, recomeçava de novo, ria-se mais uma vez e nós começávamos a rir-nos também, ainda antes de ele ter conseguido contar o que quer que fosse. 

Em relação à história em questão, era mais ou menos assim: havia um homem que era cego e, como acontece com qualquer cego, o seu maior sonho era poder ver, nem que fosse de um só olho. Então, um dia foi ao médico e expôs o seu problema com tanto fervor, suplicando ao especialista por uma qualquer solução que lhe permitisse enxergar minimamente o mundo que o rodeava, que conseguiu comovê-lo ao ponto de este lhe prometer que havia de encontrar uma solução. E assim o fez: transplantou-lhe um olho. Só que, não tendo um olho humano disponível, fê-lo com um olho de um cão, não prevendo nenhum efeito colateral significativo que pudesse advir desta pequena e inofensiva troca. E a operação foi, de facto, um sucesso, sendo que a origem do olho nunca foi revelada ao paciente que, entretanto, já nem cabia em si de contente por poder finalmente ver.
Passaram-se umas semanas e, aparentemente, tudo corria bem, até ao dia em que o paciente apareceu no consultório do médico a queixar-se de que havia qualquer coisa de estranho consigo, qualquer coisa que mudara nele, no seu interior, desde a operação e que ele não sabia explicar o que era. O médico, não pouco constrangido, acabou por confessar o inevitável: que lhe tinha transplantado um olho de um cão. Ao que, o paciente, visivelmente aliviado, respondeu: "Ahh, agora compreendo, Senhor Doutor. Por isso é que, há já alguns dias, eu trago uma cadela debaixo de olho!".

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Da minha infância #4

Enquanto frequentei a Primária foi sempre o meu avô quem me acompanhou à escola. Íamos e vínhamos a pé, todos os dias - o meu avô a carregar a minha mochila. Só quando chovia é que ele me ia buscar no seu Seat Ibiza verde-escuro. Geralmente, íamos pela rua principal e voltávamos pela rua do aeroporto, sendo que o nosso percurso nunca demorava menos do que uma hora, porque eu gostava de saber tudo e perguntava-lhe sobre as flores, as árvores, as borboletas e ele, pacientemente, ía-me respondendo com carinho, levando-me sempre a sério. Às vezes, a minha avó também nos acompanhava, mas era pouco frequente.

Já durante a tarde, depois dos deveres da escola que eu fazia com o maior entusiasmo, sobretudo quando envolvia composições e pinturas de desenhos - sempre sobre a supervisão, ajuda e aprovação final do trabalho feito pelo avô -, íamos passear pela "bouça dos cãezinhos", uma bouça de eucaliptos, carvalhos e pinheiros que, ainda hoje, ladeia a urbanização onde fica a casa dos meus avós. Eu chamo-lhe "bouça dos cãezinhos" porque vivia lá no meio, num casebre, uma família que, embora fosse muito pobre, tinha sempre imensos cães. Pelo caminho, eu gostava de apanhar "cocas" (os frutos dos eucaliptos), verdes e vermelhinhas. As vermelhinhas eram as que eu gostava mais, porque eram mais difíceis de encontrar. Também apanhava bugalhos, mas a minha avó não queria que eu os levasse para casa, porque, dizia ela, enchia tudo de mosquitos. Ao longo do caminho, pelo qual o meu avô me guiava, atravessávamos uma ponte e às vezes ficávamos a ver o comboio a passar por baixo.

Outras vezes, íamos à bouça recolher troncos e cepos de árvores para arderem no fogareiro. Eu ía sempre procurar os cepos, porque sabia que o meu avô gostava especialmente deles, já que ardiam muito bem. Quando já tínhamos um molho grande, voltávamos para casa e, um a um, o meu avô ía serrando-os, em cima do poço, comigo a segurá-los para evitar que oscilassem enquanto ele o fazia. Eu gostava de ver o serrim a acumular-se no chão, fazía-me lembrar farinha Cerelac. E gostava ainda mais que o meu avô me deixasse ajudar e ele deixava sempre.

Para além de irmos à bouça, também costumávamos ir comprar leite a uma casa de lavradores que ficava na rua que dava para a escola. Lembro-me de perguntar ao meu avô, uma vez, se o Sr. Almeida (que era o nome do lavrador que, infelizmente, também já faleceu, há muitos anos atrás) não dava banho às vacas. O meu avô disse-me que não e eu fiquei muito indignada, por elas estarem sempre todas sujas. Enquanto esperávamos pelo nosso leite, ficávamos a observar o lavrador a ordenhá-las com aquelas máquinas estranhas em forma de tetas. Isso e a canseira delas a lamberem o ranho com a língua.

Entretanto, em frente à casa desse lavrador havia castanheiros. E, por altura do magusto, eu e os meus avós íamos lá apanhar umas castanhas. Eu gostava de ir descobri-las nos ouriços meios abertos camuflados entre as folhas de outono no chão. Depois, em casa, cozinhávamo-las. Assadas no forno era a forma preferida do meu avô. Já eu e a minha avó também apreciávamos comê-las cruas.

Hoje em dia, infelizmente, os castanheiros já não existem, a casa de lavradores está desabitada e a "bouça dos cãezinhos", agora sem cãezinhos, já se encontra meia despida. E, ainda assim, nada disto me interessava verdadeiramente se o meu avô aqui estivesse para o recordar comigo. Se o tempo pudesse voltar atrás, nem que fosse por um bocadinho. Só o bocadinho de eu conseguir olhar nos seus olhos e abraçá-lo. Nem precisava de dizer nada.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tarde com sabor a chocolate e nozes

Um par de dias após o Natal, numa sexta-feira, salvo erro, por volta das duas da tarde, entrei no portão de trás da casa dos meus avós com um bolo de chocolate e nozes, feito por mim, decorado com uma imitação de azevinho de plástico que encontrei cá em casa. A marquise estava vazia e só ouvi a voz da minha avó. Estava ao telefone com um discurso derrotista: queixava-se de estar cansada, com falta de energia e com o pó ainda por limpar e a cozinha por arrumar. Não deu por mim atrás dela e eu esperei que terminasse a chamada, o mais silenciosamente possível, para que ela tivesse uma dupla surpresa quando me visse: eu e o bolo (a minha avó é muito gulosa). E assim foi: ela virou-se, viu-me, deu-me dois beijos, eu perguntei o que é que se passava, que discurso feio era aquele e disse-lhe que se animasse que eu a ajudava a limpar o pó. De seguida, mostrei-lhe o bolo e perguntei pelo avô. Como estava um dia quente e à tarde o sol incide na garagem, era costume o meu avô passar lá a tarde, mais ou menos até à hora do lanche, por volta das cinco horas. E lá estava ele: sentado no sofá bordô desbotado, de óculos de sol de lentes esverdeadas e bengala ao seu lado. Quando me viu, sorriu logo. Mostrei-lhe o bolo (que, por acaso, tinha ficado bonito e alto, embora levemente tostado por cima), disse-lhe para cheirar. Ele ficou agradado, embora me tenha dito, como eu já esperava, que não se podia meter em coisas doces, porque tinha de ter muito cuidado com a saúde para não ficar com diabetes. Dantes, acontecia-me, muitas vezes, levar alguma coisa para ele, nem que fosse um chocolate pequenino e ele agradecer o meu gesto mas não comer, mesmo que lhe apetecesse. O meu avô era mesmo muito rigoroso no que tocava à saúde. Mas ultimamente, já ia cedendo mais. E eu gostava, oh como eu gostava! que ele aceitasse aquele pequeno mimo.

Ficámos a conversar enquanto a minha avó lavava a loiça. Entretanto, ela chegou para irmos limpar o pó, já mais airosa por contar com a minha ajuda, e eu vi na expressão do meu avô que ele preferia que tivéssemos ficado ao pé dele. Ele gostava de ter a nossa companhia, porque, no fundo, passava muitas horas sozinho, enquanto a minha avó andava nos seus afazeres diários, ou calado, porque, mesmo quando estavam ao pé um do outro, não falavam muito. A minha avó tem muita necessidade de, como ela diz, "descansar a cabeça" e para isso gosta do silêncio. Se bem que, quando eu ía para lá, isso era impossível, não parávamos de contar histórias, de rir e até ela acabava por participar. O meu avô diz que ela ficava logo outra quando eu chegava. E ele, ele também ficava outro, ficava com o rosto luminoso, com o espírito mais leve.

As limpezas tardaram até à hora do lanche. Fomos para a cozinha (já se estava a levantar um vento fresco) e depois da sua generosa malga de leite com cevada e pão integral (por vezes, comia sete bolachas Maria), lá provou uma fatia pequena do meu bolo. Saboreou, disse que eu tinha jeito. O meu avô sempre foi um apreciador de chocolate. Costumava contar-me que, quando era novo, os seus lanches eram um pão com dois golpes onde colocava duas barras de chocolate fininhas e um copo de vinho branco. E a meio da manhã, comia uma boa posta de bacalhau assado. E ao almoço, nem chegava a usar o prato, era mesmo da travessa: um belo bife de quarto de quilo com batatas fritas. Outros tempos e um avô muito diferente daquele que eu conhecia, agora, que pouco comia, deixando a minha avó, por vezes, à beira de um ataque de nervos.

O lanche chegou ao fim e ele cismou que tinha de me pagar o bolo. Claro que eu não deixei, porque não fazia sentido nenhum, mas este assunto ainda serviu para uns longos minutos de discussão. Quando se tratava de dinheiro, o meu avô era muito sério e irredutível (chegava mesmo a ser casmurro). Mas lá consegui convencê-lo de que preferia que me gratificassem num outro dia.

Esta tarde ficou-me gravada na memória assim. E o bolo de chocolate com nozes ficou gravado no meu coração como "o bolo do avô", se calhar, porque não cheguei a ter oportunidade de lhe dar outro a provar. Fica-me a imagem dele a saboreá-lo, lentamente, de olhos fechados, e eu a perguntar-lhe se sabia muito a nozes e ele a dizer-me que não.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Da minha infância #1

Durante a minha infância, o meu avô foi o meu companheiro de aventuras. Eu andava sempre atrás dele e no Verão, então, com as férias da escola, passava mesmo muito tempo com os meus avós maternos. Íamos muitas vezes à praia do Marreco, em Matosinhos, a praia favorita por ser bastante rochosa e amparar do vento. A minha avó gostava de se ir esticar nas rochas ao sol, de forma a levar, de vez em quando, com os salpicos das ondas. O calor da areia fazia-lhe mal. Já eu e o meu avô, todos os dias, sem excepção, íamos fazer a nossa caminhada, pela beira do mar, até ao Cabo do Mundo. O Cabo do Mundo era um rochedo muito grande que, salvo erro, separa a praia do Marreco de uma outra. Íamos devagarinho, sempre de mãos dadas, a conversar: eu, do lado do mar, o avô do lado da areia. Esta era a regra para o caso de vir uma onda com mais força, ele poder segurar-me e puxar-me. 

Para além da caminhada, fazíamos outra coisa: apanhávamos conchas e beijinhos-do-mar, uns búzios pequeninos e arredondados, de cor rosa, naquela orla de conchas e mexilhões que o mar deixa ao longo da praia. Eu gostava especialmente dos beijinhos, porque eram mais difíceis de encontrar e eu ía logo a correr, orgulhosa, quando encontrava um, mostrar ao avô.

Depois, chegava a hora do lanche, que a minha avó preparava amorosamente todos os dias e que levávamos nas lancheiras. Muitas vezes, até almoçávamos lá. A mim, saía-me quase sempre na rifa um pão com queijo. E eu como não gosto muito de queijo, quando a minha avó não estava a olhar, enterrava-o discretamente na areia ao meu lado. Eles nunca repararam, se não a esta hora, tinha outra história para contar: o famoso puxão de orelhas do avô, que eu também cheguei a experimentar.

Este é só um dos exemplos das experiências maravilhosas que vivi com os meus avós. Tenho saudades desse tempo de ser criança, do tempo em que o avô era um ser imortal, do tempo em que era inimaginável que ele não me pudesse vir acordar com cócegas (a que nós chamávamos "bichinhos") na parte anterior dos braços.