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sábado, 27 de julho de 2013

Dia dos Avós

Ontem foi Dia dos Avós. Tirando o Dia de Natal, o Dia da Mãe e o Dia de Mim (o dia dos meus anos), nunca dei grande importância às datas socialmente pré-definidas para assinalar algo, considerando-as até um pouco hipócritas, como o caso do Dia dos Namorados. Mas ontem, com todas as palavras e mensagens que fui lendo aqui e ali sobre este dia, foi-me crescendo um aperto no peito de tristeza e saudades do meu avô. Gostava de lhe ter desejado um "feliz dia", presenteando-o com um beijinho especial e um abraço apertado. Gostava de lhe ter dito que ele era o melhor avô que alguma neta poderia desejar. Gostava de lhe ter dito para nunca, nunca nem nos seus piores sonhos, se lembrasse de se transformar em nuvem ou estrela ou pássaro e voar para longe de mim. Gostava de lhe ter dito que ele me faz falta todos os dias, que tenho saudades da sua voz, do seu riso, da sua presença. Gostava de lhe ter dito que se eu fosse rainha do mundo, abolia este Dia dos Avós ou, melhor ainda, proibia que os avós morressem. Gostava de lhe ter dito que nunca me senti tão pequenina como agora, sem ele. Gostava de lhe ter dito que, se alguma vez tive um amigo, foi ele. E que vou gostar sempre dele e lembrá-lo com o amor, admiração e respeito que ele me merecia. 

És o melhor avô do mundo, avô.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Se ele pudesse, se eu pudesse

No olhar do meu avô eu reconhecia o orgulho que ele sentia em mim. Ele nunca mo disse expressamente e também nunca foi preciso. Eu via e sentia-o e isso incentivava-me a tentar ser cada vez melhor, porque sabia que estaria alguém à minha espera para compartilhar o meu triunfo, para me ouvir e para me aconselhar. Era a única pessoa que me fazia sentir desta maneira e eu perdi-o. E agora não tenho ninguém para quem correr a contar uma novidade boa, alguém que eu sinta que o queira verdadeiramente saber, como acontecia com ele e isso deixa-me tão triste, tão profundamente triste. E não adianta ir ao cemitério ajoelhar-me na sua lápide fria cinzenta-escura ou pegar num dos seus retratos e pôr-me a falar para o ar, porque ele não me responde, não agarra nos meus braços para me encorajar, não me devolve o olhar com aqueles olhos brilhantes emocionados. Eu preciso do meu avô. Dele, inteiro, vivo. Eu preciso dele, eu quero-o tanto de volta! Eu não consigo dizer a falta que ele me faz. E eu tenho a certeza que ele quer tanto voltar como eu quero que ele volte. Se ele pudesse, se eu pudesse. Se eu pudesse fazer qualquer coisa, qualquer coisa!

P.S.: Não era nada disto que eu tinha em mente para escrever. Mas não podia ser mais verdadeiro. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Eu tenho dois amores"

Durante a sua vida, o meu avô cultivou duas paixões: mulheres e moedas. Em relação às mulheres, durante a sua juventude, foi um quebra-corações. Elas ficavam rendidas à sua beleza, à sua forma de estar e de se apresentar, que o diferenciavam no meio rural onde ele vivia, e, segundo a minha avó, ao seu "parlapier" de vários metros de comprimento. Ele contava-me muitas vezes os seus atribulados romances e, a certa altura, até a minha avó que desaprovava, naturalmente, alguns detalhes das histórias, se começava a rir tal era a desfaçatez e ousadia que o caracterizavam naquela altura. Já eu, divertia-me sempre imenso a ouvi-lo.

A sua segunda paixão era, então, as moedas, que ele coleccionava desde rapaz novo. Achava-as belas, apreciando sobretudo a minúcia do traçado do relevo das faces. Conhecia-as de trás para a frente e sabia praticamente de cor o seu valor no mercado, cuja informação actualizava anualmente com o livro Centavo que eu comprava por ele, ultimamente, no Porto, numa loja de numismática. A mim, ensinou-me a distinguir entre duas moedas iguaizinhas, qual das duas era rara, através da leitura dos eixos. Gostava tanto delas que um dos móveis que as guardam, foi, inclusive, construído por ele, em madeira, com sucessivas gavetinhas. Nestes últimos tempos, ele já não costumava ir vê-las, por não conseguir estar muito tempo de pé, nem a segurar as gavetas ou as capas arquivadoras. Pelo que, não há muito tempo atrás, numa sexta-feira de sol, lhe perguntei se ele gostava de ir à garagem vê-las comigo, ao que ele se levantou quase de imediato, qual criança entusiasmada quando a convidam para ir jogar à bola. Apoiado em mim, lá fomos e eu arrastei o velho sofá até ao móvel das "meninas dos seus olhos". Ele sentou-se e eu sentei-me também num dos braços do sofá, de forma a poder chegar ao armário e colocar-lhe as gavetas no colo. Estivémos horas naquilo, a tirar e colocar moedas. De vez em quando, eu perguntava-lhe se ele estava cansado ou com frio e ele dizia-me sempre que não, pelo que só interrompemos o nosso serão quando a minha avó nos veio perguntar se naquele dia não lanchávamos. Ele estava tão contente que nem deu pelo tempo passar. Enquanto arrumava tudo nos respectivos lugares, disse-me que ainda havia muito para ver, como que um convite para uma próxima tarde. Ohh, avô, como eu gostava de voltar a ver as moedas contigo! Um dia destes, vou lá e pego emprestada aquela com o Fernando Pessoa. Gostei dela e tenho a certeza de que não te importas que o faça. Prometo estimá-la, avô. Gosto tanto de ti!

quarta-feira, 20 de março de 2013

Primavera

Hoje começa a Primavera e esta era a estação do ano preferida do meu avô. Daqui a uns dias, quando as manhãs se tornassem mais luminosas e solarengas, o meu avô descia mais cedo para o pequeno-almoço e, depois do seu habitual pão molhado numa almoçadeira cheia de leite com cevada, ia sentar-se na sua cadeira de praia gasta na marquise a admirar o quintal. E o que ele mais gostava era de observar a conversa dos pássaros. Ele dizia-me, muitas vezes, como achava curioso a forma como um casal de pássaros comunicava um com o outro quando se queriam revezar de tomar conta do ninho. Às vezes, ficava a admirar, através dos seus óculos de sol de reflexos esverdeados (a claridade feria-lhe os olhos), durante tempos infinitos, o saltitar de um melro à procura de qualquer coisa para petiscar ou a minúcia de uma aranha a tecer a sua teia. Dizia-me que me havia de fazer perder o medo delas. 

Daqui a mais alguns dias, começaria a usar calças claras e camisas "à sport". E, se as suas pernas o ajudassem, a dar uma voltinha - ou, provavelmente, apenas meia - à volta da urbanização, apoiado na minha avó. E chegariam os dias de assar o bacalhau na brasa, com maior frequência, que ambos adorávamos. Ele ensinou-me que o bacalhau devia ser demolhado com a pele para cima, que é onde se concentra mais o sal. E que as postas para assar não deviam ser muito grossas, se não ficavam queimadas por fora e cruas (somente aquecidas) por dentro. E que o bacalhau era de boa qualidade se a pele não derretesse na grelha. Depois, acompanhávamos o bacalhau com batatas cozidas, embebidos em bastante azeite com alhos, e um pedaço de broa. Dantes, em vez das batatas, o meu avô assava pimentos para acompanhar o bacalhau ou as sardinhas assadas. Não os esquentava, assava-os, devagarinho, virando uma e outra vez, até ficarem com uma cor acastanhada. Ninguém assava pimentos como o meu avô, embora, ultimamente, ele já não assasse, porque dizia que o carvão estava caro e assar os pimentos queimava muito carvão.

Amanhã, combinei com a minha avó que ia arranjar o quintal, que está cheio de ervas daninhas. Vou arranjá-lo para os dois. Porque, mesmo do céu, fica difícil ver os pássaros por entre ervas grandes.

Tenho tantas saudades tuas, avô. Tantas.