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sábado, 27 de julho de 2013

Dia dos Avós

Ontem foi Dia dos Avós. Tirando o Dia de Natal, o Dia da Mãe e o Dia de Mim (o dia dos meus anos), nunca dei grande importância às datas socialmente pré-definidas para assinalar algo, considerando-as até um pouco hipócritas, como o caso do Dia dos Namorados. Mas ontem, com todas as palavras e mensagens que fui lendo aqui e ali sobre este dia, foi-me crescendo um aperto no peito de tristeza e saudades do meu avô. Gostava de lhe ter desejado um "feliz dia", presenteando-o com um beijinho especial e um abraço apertado. Gostava de lhe ter dito que ele era o melhor avô que alguma neta poderia desejar. Gostava de lhe ter dito para nunca, nunca nem nos seus piores sonhos, se lembrasse de se transformar em nuvem ou estrela ou pássaro e voar para longe de mim. Gostava de lhe ter dito que ele me faz falta todos os dias, que tenho saudades da sua voz, do seu riso, da sua presença. Gostava de lhe ter dito que se eu fosse rainha do mundo, abolia este Dia dos Avós ou, melhor ainda, proibia que os avós morressem. Gostava de lhe ter dito que nunca me senti tão pequenina como agora, sem ele. Gostava de lhe ter dito que, se alguma vez tive um amigo, foi ele. E que vou gostar sempre dele e lembrá-lo com o amor, admiração e respeito que ele me merecia. 

És o melhor avô do mundo, avô.

sábado, 13 de julho de 2013

O meu avô foi um lutador

O meu avô foi a pessoa mais determinada e com maior força de vontade que eu conheci. Só para terem uma ideia, quando teve o seu AVC, que lhe paralisou todo o lado direito e que havia de condicionar a sua vida para sempre, ficou totalmente dependente dos outros, quer para se alimentar, quer para cuidar da sua higiene pessoal. Quando voltou do hospital e durante muito tempo, esteve deitado numa maca que foi colocada no quarto de casal que, naquela altura, era o dos meus avós. Eu andava na Primária e quando voltava da escola, ao contrário das outras crianças, não ia brincar lá para fora, ia sentar-me ao pé dele, fazer-lhe companhia. Como recompensa, quando recuperou (e como recuperou!) ofereceu-me um conjunto de colar e pulseira de ouro. A sua determinação e teimosia, características intrínsecas ao seu carácter, permitiram-lhe atingir um patamar que ninguém esperava. Dedicou-se à fisioterapia com afinco, continuando-a quando chegava a casa. Lembro-me de ter ido algumas vezes com ele (e com a minha avó, claro) à Santa Casa da Misericórdia e, com a máxima atenção, aprender os exercícios que os fisioterapeutas lhe faziam para também o poder ajudar em casa. O meu avô não só voltou a ser totalmente autónomo, como chegou a dar grandes caminhadas nas tardes de Verão que se seguiram e, inclusive, a ter autorização médica para voltar a conduzir. Quanto a este último ponto, apesar da autorização médica, não o voltou a fazer por prudência, já que perdeu a confiança na rapidez de resposta da perna direita que, na condução, é peremptória e, que, numa situação de maior perigo, poderia falhar, pondo em risco a sua vida e a dos outros. Como consequência, teve de vender o carro de que tanto gostava, embora não gostasse de conduzir. Lembro-me de ele me dizer que, se eu fosse um bocadinho mais crescida, ficava para mim. 

Este foi o pico máximo de recuperação que obteve após o AVC. Com o tempo e com o avançar da idade, o processo começou, naturalmente, a regredir, mas nem por isso o meu avô se desleixou. Continuou a fisioterapia, continuou os exercícios em casa (sendo que, quando já não os conseguia fazer de pé, os fazia sentado), continuou a pedalar diariamente na bicicleta e a dar voltas ao quarteirão, apoiado na minha avó e na bengala, continuou a dieta rígida, evitando doces e gorduras, que, dado a sua tendência para colesterol alto e sangue grosso, na sua condição vulnerável, poderiam ser fatais.

E foi assim que me habituei a ver o meu avô: um homem que não desistia, que não se conformava, que não se queixava, que dava sempre, sempre, o seu melhor, mesmo quando as circunstâncias eram tão adversas. Se calhar também é por isso que a morte dele me revoltou tanto, porque eu acreditei sempre que ele ia dar a volta por cima, como sempre havia feito até então. Ele tinha tanta força que, aos meus olhos, era praticamente imortal, por muito que os seus órgãos o estivessem a trair. Eu não quis ver e não o quis ouvir quando ele me dizia que a morte estava mais perto do que eu julgava. Eu achei que, quando ele não tivesse mais forças, eu teria forças por ele e que isso havia de ser suficiente. Eu pensei sempre com o coração, com o amor que lhe tinha e nunca o imaginei a morrer, não considerei verdadeiramente que ele podia deixar-me. Mas eu compreendo, não o censuro, nem estou triste com ele, porque sei que até um lutador, eventualmente, se cansa de lutar (e ele lutou muito!). Eu estou triste, porque ele era o melhor avô e eu o queria ter sempre comigo. Eu tenho muito, muito orgulho de ter tido o privilégio de o ter tido na minha vida.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Se ele pudesse, se eu pudesse

No olhar do meu avô eu reconhecia o orgulho que ele sentia em mim. Ele nunca mo disse expressamente e também nunca foi preciso. Eu via e sentia-o e isso incentivava-me a tentar ser cada vez melhor, porque sabia que estaria alguém à minha espera para compartilhar o meu triunfo, para me ouvir e para me aconselhar. Era a única pessoa que me fazia sentir desta maneira e eu perdi-o. E agora não tenho ninguém para quem correr a contar uma novidade boa, alguém que eu sinta que o queira verdadeiramente saber, como acontecia com ele e isso deixa-me tão triste, tão profundamente triste. E não adianta ir ao cemitério ajoelhar-me na sua lápide fria cinzenta-escura ou pegar num dos seus retratos e pôr-me a falar para o ar, porque ele não me responde, não agarra nos meus braços para me encorajar, não me devolve o olhar com aqueles olhos brilhantes emocionados. Eu preciso do meu avô. Dele, inteiro, vivo. Eu preciso dele, eu quero-o tanto de volta! Eu não consigo dizer a falta que ele me faz. E eu tenho a certeza que ele quer tanto voltar como eu quero que ele volte. Se ele pudesse, se eu pudesse. Se eu pudesse fazer qualquer coisa, qualquer coisa!

P.S.: Não era nada disto que eu tinha em mente para escrever. Mas não podia ser mais verdadeiro. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sem título #2

Não há muito tempo atrás, levei uns bombons daqueles pequeninos com licor por dentro que vêm embrulhados em prata de várias cores, para os meus avós. Com cuidado, o meu avô desembrulhou o seu e deixou-o derreter suavemente na língua. Quando acabou, disse-me que para a próxima não tirava o papel, ao que eu perguntei porquê. E ele respondeu-me, sorridente, que era para durar mais tempo na boca.

Hoje, ao almoço, durante uma conversa animada sobre a dependência de chocolate que tão bem caracteriza o meu irmão, lembrei-me deste episódio com o meu avô. 

Por que será que as coisas boas acabam tão depressa? Um chocolate que derreta na língua, durante algum tempo ainda perfuma o nosso palato. Mas a vida, a vida, ao contrário do chocolate, quando "derrete" é tudo menos uma despedida doce. Amarga a boca e amarga o coração.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do medo de esquecer

Um dos meus maiores medos, neste momento, é o esborratar da minha memória. Começar a tornar-se impreciso e dúbio na minha cabeça o som do riso do meu avô; a ferida de cor amarelada, por causa do Betadine, que marcava o lado esquerdo do seu rosto sempre que se barbeava; os dedos das mãos inclinados por causa das artrozes e a forma como ele, às vezes, os observava, esticando-os devagarinho; os olhos aguados e o tremido dos lábios sempre que se comovia. Pormenores que eram o meu avô, pormenores que me dilaceram de cada vez que os evoco. E medo, sobretudo muito medo de perdê-los, agora que nunca mais os vou voltar a ver. Nunca mais é a pior sentença de todas.

E, como recordá-lo, na sua alegria, é a única forma que temos de o resgatarmos, por um bocadinho que seja, para perto de nós, a memória torna-se um factor tão crucial neste processo. Tão crucial e tão ingrata. Diz-se que o tempo cura tudo, mas neste contexto, o tempo só estraga. Será que as pessoas dizem que com o tempo fica mais fácil porque vão perdendo gradualmente a imagem dos seus entes queridos? Espero que não, é uma ideia assustadora. Prefiro pensar que, se calhar, dizem isso, porque a vida, ao impor-se na sua obrigação de ser vivida, as foca nos outros mil e um problemas que vão surgindo no dia-a-dia, ao ponto de a pessoa que se perdeu só se atravessar nos seus pensamentos pouco antes de adormecerem. Sinceramente, não gosto de nenhuma das duas opções, embora, a acontecer, que seja a segunda.

A melhor forma de recordar acaba por ser conversar com os familiares sobre essa pessoa. Mas, enquanto umas vezes, ao relembrar, nos sentimos quase felizes de novo, nem que seja por uma fracção de segundo, outras vezes torna-se demasiado doloroso, demasiado triste, já que a sombra da morte e da perda nunca desaparece. Acho que, em parte, é por isso que escrevo. Porque às vezes, ao falar tanto sobre o meu avô, deixo a minha família triste. Por exemplo, nos primeiros dias eu sonhava com ele e, de manhã, contava à minha avó. Eram sonhos tristes, mas eu contava à mesma, precisava de contar. Até que ela me pediu para não o fazer mais. 

Mas, para além de conversarmos com a nossa família e de recorrermos às fotografias, há outra coisa que, parecendo menor, torna-se importante: os objectos. As pessoas mais antigas e geralmente com menor grau de educação, são muito supersticiosas, pelo que fiquei a saber que, quando alguém morre, acreditam que não é bom ficar com as coisas dos entes queridos e, então, em poucos dias, logo depois do funeral, começam a arrumar os pertences da pessoa e a oferecer muitos deles. Isto foi uma coisa que me fez imensa confusão: eu não queria dar, nem lavar nem trocar de lugar nada que tivesse pertencido ao meu avô. Porque os objectos também dão personalidade às pessoas, os objectos remetem-nos para situações vividas. Por que é que havemos de nos desfazer deles? Se calhar, os mais antigos acreditam que os objectos nos prendem ao passado e, de certa forma, não nos permitem superar, continuar. É uma suposição, eu não sei mesmo de onde vem esta superstição. Mas se for este o motivo, eu não concordo de todo. Eu não vejo mal nenhum em guardar o que tão bem e por tanto tempo caracterizou uma pessoa e, sobretudo, que nos faz lembrar dela.

Por exemplo: os óculos de mocho do avô que ele usava para ler o jornal no café ou artigos de revistas em casa, que lhe ocupavam quase metade da cara e lhe davam um ar tão amoroso; o relógio de pulso de corda que já contava com mais de 60 anos e que o avô tinha conseguido numa loja de penhores (ele adorava aquele relógio); a bengala que já havia sido da minha bisavó e que o acompanhou nestes últimos anos; o pullover bege, a gravata vermelha, os sapatos de lona e a manta castanha que ele usava por cima dos ombros...

Tudo isto faz parte do que o meu avô foi e de como ele continua a ser dentro do meu coração. Quando penso nele, é assim que o vejo. E eu vejo-o, cá dentro, repetidamente, todos os dias, com os olhos do amor. Do amor grande que sinto por ti, avô.

terça-feira, 19 de março de 2013

A tristeza é uma coisa muito especial

A tristeza é uma coisa muito especial, de tão indefesos que ficamos diante dela. É como uma janela que se abre apenas quando lhe apetece. A sala fica fria, e não podemos fazer mais nada do que tremer. Mas abre-se um bocadinho menos de cada vez; e um dia perguntamo-nos o que é que lhe aconteceu.
Em Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden (p. 288)

As pessoas à minha volta, as que me querem bem e mesmo as que não querem, mas simplesmente não conseguem ficar caladas, estão sempre a dizer coisas do género "tens de ter paciência", "tens de ser forte", "a morte faz parte da vida", "já eram 88 anos", "com o tempo fica mais fácil". Às vezes, só me apetece mandar-lhes dois berros. Eu não quero ter paciência, não quero ser forte e não quero que fique mais fácil. Pronto. Eu gosto da tristeza -  chamem-me masoquista, se quiserem - , mas com a tristeza vem a dor, aquele aperto na boca do estômago que parece que me faz sufocar, mas que torna tudo mais real. Lembra-me o quanto sinto a falta dele, o quanto o amo. Por isso, se eu preciso de ser triste, deixem-me ser triste. Porque eu não me quero sentir melhor, quero sentir-me mais perto. Perto de ti, avô.