Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sem título #1

Hoje, enquanto aguardava com a minha avó uma consulta de oftalmologia na sala de espera do hospital, lembrei-me de uma das inúmeras histórias de deliciosa malícia que o meu avô tinha sempre prontas na ponta da língua e que não se cansava de mas contar, ao ponto de eu as saber quase todas de cor, embora, quando contadas por mim, não tenham metade da graça. Ainda assim, não resisti e resgatando a minha avó do seu estado de alheamento, murmurei-lhe "Vó, vê lá se não te põem um olho de um cão". Ela compreendeu de imediato e retribuiu-me o sorriso. Se, por acaso, o meu avô estivesse ali, tenho a certeza de que se teria rido com gosto. Ele tinha um riso contagiante que o traía sempre que queria contar uma das suas marotices. Ria-se, começava a contar, voltava a rir-se, recomeçava de novo, ria-se mais uma vez e nós começávamos a rir-nos também, ainda antes de ele ter conseguido contar o que quer que fosse. 

Em relação à história em questão, era mais ou menos assim: havia um homem que era cego e, como acontece com qualquer cego, o seu maior sonho era poder ver, nem que fosse de um só olho. Então, um dia foi ao médico e expôs o seu problema com tanto fervor, suplicando ao especialista por uma qualquer solução que lhe permitisse enxergar minimamente o mundo que o rodeava, que conseguiu comovê-lo ao ponto de este lhe prometer que havia de encontrar uma solução. E assim o fez: transplantou-lhe um olho. Só que, não tendo um olho humano disponível, fê-lo com um olho de um cão, não prevendo nenhum efeito colateral significativo que pudesse advir desta pequena e inofensiva troca. E a operação foi, de facto, um sucesso, sendo que a origem do olho nunca foi revelada ao paciente que, entretanto, já nem cabia em si de contente por poder finalmente ver.
Passaram-se umas semanas e, aparentemente, tudo corria bem, até ao dia em que o paciente apareceu no consultório do médico a queixar-se de que havia qualquer coisa de estranho consigo, qualquer coisa que mudara nele, no seu interior, desde a operação e que ele não sabia explicar o que era. O médico, não pouco constrangido, acabou por confessar o inevitável: que lhe tinha transplantado um olho de um cão. Ao que, o paciente, visivelmente aliviado, respondeu: "Ahh, agora compreendo, Senhor Doutor. Por isso é que, há já alguns dias, eu trago uma cadela debaixo de olho!".

quinta-feira, 21 de março de 2013

Boa noite, meu pai

- Boa noite, meu pai.
- Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho.

Eu e o meu avô repetimos este diálogo inúmeras vezes, com um sorriso cúmplice de compreensão a formar-se nos nossos lábios, mesmo ainda sem nos termos visto apropriadamente. Acontecia de eu chegar a casa dos meus avós, muitas vezes ao final da tarde, e o meu avô estar sentado na cozinha de luzes apagadas. E era automático. Eu dizia "Boa noite, meu pai" enquanto pousava a mala e tirava o casaco e ele respondia, com voz grave "Boa noite. Eu não teu pai, mas tu és meu filho". E, de seguida, dizia para eu acender as luzes que queria poder olhar para mim, ver a minha cara. Eu acendia a luz, ia dar-lhe um beijo (às vezes, dava logo quando chegava, quando ele ainda era uma sombra meio inclinada na cadeira), e os olhos dele sorriam, felizes, quando encontravam os meus, mesmo que ele tivesse passado um dia com dores terríveis nas pernas ou nos pés. Mas ele nunca se queixava, queria era conversar, saber se eu já tinha lanchado, de onde vinha. 

Às vezes, eu vinha mal-disposta, sem vontade para grandes diálogos. E ele comentava "tu hoje não estás nos teus dias" ou "acho que a tua cara hoje não está como o costume" e aguardava pela minha resposta. Geralmente, ao fim de alguns minutos, quase sem dar por isso, eu começava a desabafar com ele, a contar os infortúnios que me trouxera o dia e, a verdade é que, quando me ia embora, já quase nem me lembrava de que, algum tempo antes, estivera tão aborrecida. Outras vezes, eu não falava mesmo e ele não pressionava.

Mas mesmo mal-disposta, eu não conseguia ser rude com o meu avô, nem sequer ousava levantar-lhe a voz. Eu tinha muito medo que ele se zangasse. Claro que isso não foi suficiente para que uma ou outra vez ele não se tenha, de facto, desiludido e magoado comigo. E, acreditem, ele era muito severo, radical mesmo, quanto às suas decisões e quando entendia que alguém, de alguma forma, o havia ofendido, ele cortava imediatamente relações com essa pessoa e era como se ela tivesse morrido para ele. Raramente voltava atrás com a sua palavra e acho que perdoar, ele nunca chegava a perdoar verdadeiramente.

A mim, ele acabou, eventualmente, por me desculpar (muito graças aos esforços da minha avó e mesmo da minha mãe) mas, eu sei que, no fundo, também foi porque me amava muito. Eu era a menina dele. E ele era a minha pessoa favorita no mundo.

Eu não posso prometer que não o voltaria a decepcionar, sobretudo agora que me sinto tão desamparada sem ele. Eu esforço-me, mas não consigo ser boa e compreensiva o tempo todo. O meu coração está partido, avô. Mas eu vou tentar. Tu sabes que vou tentar. Não desistas de mim.


P.S.: a forma como comecei este post remete para uma das muitas histórias que o meu avô me contava. Esta era mais ou menos assim: «Numa noite escura, de nevoeiro e em que chovia bastante, dois vultos encontraram-se na estrada e o primeiro cumprimentou: "Boa noite, meu pai". Ao que o segundo respondeu (o avô fazia nesta parte uma voz grave para despistar): "Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho."» E a pergunta ficava no ar: quem era o segundo vulto?