terça-feira, 16 de julho de 2013

Morreste-me #2

«E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta do quintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e esta tarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chaves e, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa, examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. (...) Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombras finas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias? Não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne e luz ou sombra.»

Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 12-16)

No Domingo, voltámos a Fafe. A viagem fez-se silenciosa, de lágrimas silenciosas a escorrerem pelas faces da minha mãe e da minha avó. Eu fui quase todo o caminho de olhos fechados, auscultadores nos ouvidos. Abri-os por duas vezes para me deparar com as placas de direcção: Fafe. A terra que viu o meu avô ser menino, perder a mãe aos oito anos, ser rapaz, quase padre, ter lições de violino, perder o pai aos dezoito, casar pela primeira vez. A terra que foi o meu avô e agora nada.

Chegámos ao destino: bairro da Granja. Mais lágrimas, muitas lágrimas. Eu sentia-me zangada demais por dentro, por tudo e coisa nenhuma, para ter lágrimas. Às vezes, acontece-me e não quer dizer, por isso, que esteja a sofrer menos do que os que choram. Se bem que, neste caso em particular, talvez até fosse verdade, porque eu não tenho tantas recordações daqueles sítios e daquelas pessoas, quanto a minha avó e a minha mãe. Fomos ver a tia Maria. Estava deitada na cama, achei-a bonita, com melhor fisionomia do que há um ano atrás. Aquele espaço que fica entre as sobrancelhas, meias franzidas, foi o que mais me fez lembrar o meu avô. Mas já o cabelo fino, as orelhas compridas e a pele muito lisa para uma senhora de 92 anos, também são características que o meu avô partilhava.

Fomos almoçar a casa daquela sobrinha do meu avô com quem ele se dava bem. Sentaram a minha avó à cabeceira da mesa. Ao seu lado direito, um espaço vazio, prato, talheres e copo dispostos para o meu avô. Não sei se o fizeram para honrá-lo ou simplesmente para não ficar uma conta de treze pessoas à mesa. Para mim, só serviu para acentuar mais a sua ausência. Havia cabrito e vitela. A minha avó comeu um bocadinho de cabrito, com pouca vontade, pareceu-me. Ela e o meu avô adoravam o cabrito da tia Maria. Já eu, fiquei-me pela vitela assada e, uma vez mais, a vitela era avó, avô. Havias de te ter rido com vontade, eu queria ter-me rido com vontade contigo.

A meio do almoço, ouvi dizerem que onde o meu avô estava, estava muito bem. Disseram-no para apaziguar a minha avó, eu queria não ter ouvido. Ninguém sabe se onde o meu avô está, está bem ou tão-pouco se ele está em algum lado. Bem, muito bem, estaria ele, ao nosso lado, a derriçar cabrito e vitela-avó. Às vezes, fico com ciúmes por outras pessoas (que não a minha família mais chegada) se referirem ao meu avô como se o conhecessem desde sempre, melhor do que eu, como se o amassem mais do que eu (como se isso fosse possível). É um sentimento feio e egoísta, eu sei, e tento controlá-lo, mas o facto é que me sinto um bocadinho possessiva no que toca ao meu avô.

A visita terminou da mesma forma que começou: com um sentimento de desencantamento a encher-me o peito. Não é que a família não nos tenha recebido bem, porque recebeu. É só porque, para mim, era o meu avô que fazia aquele lugar, era através dos seus olhos que eu o queria conhecer. Valeu o coração da minha avó ter ficado mais sossegado. Voltar a Fafe e olhar nos olhos da tia Maria eram uma espécie de provação para ela e agora que o fizemos, penso que ganhou alguma paz de espírito. E isso é o que importa.

sábado, 13 de julho de 2013

O meu avô foi um lutador

O meu avô foi a pessoa mais determinada e com maior força de vontade que eu conheci. Só para terem uma ideia, quando teve o seu AVC, que lhe paralisou todo o lado direito e que havia de condicionar a sua vida para sempre, ficou totalmente dependente dos outros, quer para se alimentar, quer para cuidar da sua higiene pessoal. Quando voltou do hospital e durante muito tempo, esteve deitado numa maca que foi colocada no quarto de casal que, naquela altura, era o dos meus avós. Eu andava na Primária e quando voltava da escola, ao contrário das outras crianças, não ia brincar lá para fora, ia sentar-me ao pé dele, fazer-lhe companhia. Como recompensa, quando recuperou (e como recuperou!) ofereceu-me um conjunto de colar e pulseira de ouro. A sua determinação e teimosia, características intrínsecas ao seu carácter, permitiram-lhe atingir um patamar que ninguém esperava. Dedicou-se à fisioterapia com afinco, continuando-a quando chegava a casa. Lembro-me de ter ido algumas vezes com ele (e com a minha avó, claro) à Santa Casa da Misericórdia e, com a máxima atenção, aprender os exercícios que os fisioterapeutas lhe faziam para também o poder ajudar em casa. O meu avô não só voltou a ser totalmente autónomo, como chegou a dar grandes caminhadas nas tardes de Verão que se seguiram e, inclusive, a ter autorização médica para voltar a conduzir. Quanto a este último ponto, apesar da autorização médica, não o voltou a fazer por prudência, já que perdeu a confiança na rapidez de resposta da perna direita que, na condução, é peremptória e, que, numa situação de maior perigo, poderia falhar, pondo em risco a sua vida e a dos outros. Como consequência, teve de vender o carro de que tanto gostava, embora não gostasse de conduzir. Lembro-me de ele me dizer que, se eu fosse um bocadinho mais crescida, ficava para mim. 

Este foi o pico máximo de recuperação que obteve após o AVC. Com o tempo e com o avançar da idade, o processo começou, naturalmente, a regredir, mas nem por isso o meu avô se desleixou. Continuou a fisioterapia, continuou os exercícios em casa (sendo que, quando já não os conseguia fazer de pé, os fazia sentado), continuou a pedalar diariamente na bicicleta e a dar voltas ao quarteirão, apoiado na minha avó e na bengala, continuou a dieta rígida, evitando doces e gorduras, que, dado a sua tendência para colesterol alto e sangue grosso, na sua condição vulnerável, poderiam ser fatais.

E foi assim que me habituei a ver o meu avô: um homem que não desistia, que não se conformava, que não se queixava, que dava sempre, sempre, o seu melhor, mesmo quando as circunstâncias eram tão adversas. Se calhar também é por isso que a morte dele me revoltou tanto, porque eu acreditei sempre que ele ia dar a volta por cima, como sempre havia feito até então. Ele tinha tanta força que, aos meus olhos, era praticamente imortal, por muito que os seus órgãos o estivessem a trair. Eu não quis ver e não o quis ouvir quando ele me dizia que a morte estava mais perto do que eu julgava. Eu achei que, quando ele não tivesse mais forças, eu teria forças por ele e que isso havia de ser suficiente. Eu pensei sempre com o coração, com o amor que lhe tinha e nunca o imaginei a morrer, não considerei verdadeiramente que ele podia deixar-me. Mas eu compreendo, não o censuro, nem estou triste com ele, porque sei que até um lutador, eventualmente, se cansa de lutar (e ele lutou muito!). Eu estou triste, porque ele era o melhor avô e eu o queria ter sempre comigo. Eu tenho muito, muito orgulho de ter tido o privilégio de o ter tido na minha vida.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma lupa, um buda e cartas de amor

Ontem, estive em casa dos meus avós. Nestes últimos dias, a minha avó tem andado atarefada com algumas remodelações e limpezas maiores lá por casa, nomeadamente no terraço e no quintal, pelo que aproveitou a minha presença para me pedir que fosse à garagem ver se algum artigo do meu avô me interessava ou se podia deitar ao lixo. Ela referia-se sobretudo a um monte de revistas (algumas que eu própria tinha levado para ele e que ele havia guardado, como eu já vos havia referido num post anterior que era seu hábito fazê-lo quando continham algum artigo que considerava interessante). Dei uma vista de olhos às páginas que ele havia assinalado com números trémulos nas capas e eram sobretudo artigos de carácter religioso e as rubricas de "O Sexo e a Cidália", que ele achava especialmente divertidas. Acabei por convencer a minha avó a guardar as revistas todas numa prateleira do móvel das moedas.

Entretanto, pousada num dos sofás empoeirados, jazia a velha lupa preta do meu avô que, durante a minha infância, ele tinha utilizado para me mostrar como, apontando-a para o sol, começava a queimar uma folha branca que ele colocava sob ela, que nem um truque de magia. E, em cima do gira-discos que já nem funciona e vai acabar na sucata, descobri um buda pequenino que me fez sorrir muito por dentro, porque quando o vi, despertou em mim, espontaneamente, uma memória de uma vez em que o meu avô esteve no hospital (não me lembro qual o motivo), era eu pequenina, e lhe levar aquele mesmo buda (que não faço ideia onde o fui buscar), colocando-o na sua mesinha-de-cabeceira, como uma espécie de presente para ele ficar bom depressa. Agarrei naquele pequeno objecto simbólico com carinho, mostrei-o à minha avó e perguntei-lhe se ela se lembrava disto. Ela disse-me que não. Quando cheguei a minha casa, mostrei-o, desta vez, à minha mãe e ela também me disse que não se lembrava. Mas eu lembro-me e o facto é que, ao fim de tantos anos, ele ainda andava por lá, pelo que decidi trazê-lo comigo. Pode ser que me "dê sorte", assim como "deu sorte" ao meu avô, já que ele, na altura, recuperou do seu problema de saúde.

O último momento especial da tarde foi quando a minha avó encontrou, dentro de uma mala de viagem que guardava o seu vestido de casamento (que eu nunca tinha visto), um saquinho transparente amarrado com uma fita vermelha, contendo as cartas de amor que os meus avós haviam trocado entre si, nos tempos de namoro. Fiquei encantada, mesmo só tendo lido uns bocadinhos de algumas delas, palavras tão sentidas de amor verdadeiro, palavras redondinhas escritas à mão pela minha avó para o meu avô e dactilografadas do meu avô para a minha avó, revelando o desejo de ambos de se poderem ver aos domingos e as saudades que apertavam até estes finalmente chegarem. Claro que a minha avó acabou por só conseguir ler algumas linhas, já que a dor se tornou demasiado grande para caber no peito e não rebentar nos olhos, e eu também não insisti nem lhe pedi para as continuar a ler sem ela, porque entendo que é uma coisa muito íntima e que só aos dois diz respeito (embora vontade não me faltasse, tenho de confessar).

Era isto que vos queria contar ontem e não consegui. Deixo-vos com uma fotografia que tirei ao meu mais recente "buda da sorte":



Boa noite.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Se ele pudesse, se eu pudesse

No olhar do meu avô eu reconhecia o orgulho que ele sentia em mim. Ele nunca mo disse expressamente e também nunca foi preciso. Eu via e sentia-o e isso incentivava-me a tentar ser cada vez melhor, porque sabia que estaria alguém à minha espera para compartilhar o meu triunfo, para me ouvir e para me aconselhar. Era a única pessoa que me fazia sentir desta maneira e eu perdi-o. E agora não tenho ninguém para quem correr a contar uma novidade boa, alguém que eu sinta que o queira verdadeiramente saber, como acontecia com ele e isso deixa-me tão triste, tão profundamente triste. E não adianta ir ao cemitério ajoelhar-me na sua lápide fria cinzenta-escura ou pegar num dos seus retratos e pôr-me a falar para o ar, porque ele não me responde, não agarra nos meus braços para me encorajar, não me devolve o olhar com aqueles olhos brilhantes emocionados. Eu preciso do meu avô. Dele, inteiro, vivo. Eu preciso dele, eu quero-o tanto de volta! Eu não consigo dizer a falta que ele me faz. E eu tenho a certeza que ele quer tanto voltar como eu quero que ele volte. Se ele pudesse, se eu pudesse. Se eu pudesse fazer qualquer coisa, qualquer coisa!

P.S.: Não era nada disto que eu tinha em mente para escrever. Mas não podia ser mais verdadeiro. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Visita a Fafe (Julho de 2012)

O meu avô era natural de Fafe e daqui a quatro dias faz precisamente um ano em que lá fomos com o intuito de visitar uma das suas irmãs que estava doente. Logo de manhã, quando fomos buscar os meus avós a casa, se dúvidas tivéssemos quanto à importância daquela ida a Fafe para o meu avô, desapareceriam assim que lhe pusémos a vista em cima, quando apareceu ao portão, com o braço direito dado à minha avó e apoiado na bengala com o braço esquerdo, todo janota de fato e gravata, como eu já não o via há vários anos. Saí do carro para lhes dar um beijinho de bom-dia e até brinquei com ele, dizendo-lhe que até parecia mal eu ir vestida da forma que ía comparada à sua fatiota.

Estava um dia bonito e a viagem foi relativamente rápida, com o meu avô a inclinar-se progressivamente para o lado do condutor, tendência que ele havia desenvolvido de há uns anos para cá, fruto das mazelas que ficaram e se foram agravando de um AVC que o atingiu há sensivelmente 14 anos. Ele estava desejoso por chegar e eu também estava animada por conhecer o lugar onde ele havia vivido e crescido, palco das histórias que ele tantas vezes me contava.

Uma hora e meia depois, chegámos então à casa da tia Maria, na altura uma dos quatro irmãos, incluindo o meu avô, que ainda estavam vivos (no total, foram nove irmãos) e que era a irmã que tão bem cozinhava o cabrito assado aos domingos que o meu avô simplesmente adorava. Ela estava (e ainda está) muito debilitada e não conseguiu falar, mas penso que o reconheceu, já que uma lágrima lhe escorreu pelo rosto quando o viu e ele falou com ela. 

Estivémos lá durante algum tempo e depois fomos dar uma volta à vila, onde encontrámos uma outra irmã do meu avô, a tia Ana, a quem ele, na brincadeira chamou Rosa, levando-a a concluir que ele já não estava no seu perfeito juízo. A tia Ana ficou tão contente de nos ver, que tagarelou imenso, pelo que, quando nos disse que por dia dava 30 voltas a pé e que, só naquele dia, já tinha dado 25, o meu avô, maroto, lhe disse para ela ir dar as 5 que faltavam, porque já estávamos a ficar atrasados para o almoço. Só de me lembrar já me estou a rir, mas esta não foi a sua única graçola do dia, esperem que já vos conto.

Quando finalmente nos despedimos da tia Ana, fomos visitar uma das antigas paixões do meu avô, uma senhora por quem ele ainda nutria forte amizade. Estiveram a pôr a conversa em dia (ele, a minha avó e a tal senhora) e, já no final, maroto a dobrar, o meu avô não resistiu a perguntar-lhe se não merecia nada, deixando-nos a todos um bocadinho sem jeito, ao que esta lhe respondeu com dois beijinhos na cara.

Continuámos a nossa visita à vila que, segundo o meu avô, estava tão diferente que já nem a conhecia, e ainda encontrámos outros conhecidos (para mim, desconhecidos) que vieram cumprimentar o meu avô.

Chegada a hora de almoço, voltámos a casa da tia Maria. Sentámo-nos à mesa, o meu avô a uma das cabeceiras, comigo do seu lado direito, e começámos a degustar a vitela assada que a família havia encomendado. Tudo corria bem até uma das sobrinhas do meu avô, com quem, eu fiquei a saber, ele se dava particularmente bem, lhe perguntar "Tio, a vitela está boa?", ao que ele respondeu seriamente "Para ser avó, está muito boa". Em segundos, eu e o meu avô cruzámos o olhar e desatámo-nos a rir, a rir, a rir sem conseguirmos parar. Aquele momento foi de tal forma hilariante, com toda a família em silêncio à espera da resposta do meu avô, esperando tudo menos aquela inusitada que ele deu, que, ainda hoje, quando o relembrávamos nas nossas conversas, nos ríamos imenso. Depois disto, o almoço decorreu normalmente, pelo menos até à hora do café. 

O meu avô estava tão bem-disposto e revigorado, que se sentiu com força para ir tomar o café fora de casa, se eu também fosse. Claro que eu fui e, uma vez mais, a tal sobrinha que tinha perguntado se a vitela estava boa, desta vez, lembrou-se de perguntar se o café estava bom. E o meu avô não tem mais nada: "O melhor do café é o que está lá dentro... o açúcar." Pronto, desatámo-nos a rir outra vez, comigo a exclamar, num tom de censura pouco convincente, "Ohh, vô! Ohh, vô!".

A nossa visita deu-se por terminada, não antes de eu tirar uma fotografia com os meus avós, a última fotografia que tenho do meu avô e com ele, e que partilho agora convosco:


Quando olho para ela, só me lembro do quanto ele estava feliz naquele dia e juro que, às vezes, até me parece que ele está a sorrir para mim.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Eu tenho dois amores"

Durante a sua vida, o meu avô cultivou duas paixões: mulheres e moedas. Em relação às mulheres, durante a sua juventude, foi um quebra-corações. Elas ficavam rendidas à sua beleza, à sua forma de estar e de se apresentar, que o diferenciavam no meio rural onde ele vivia, e, segundo a minha avó, ao seu "parlapier" de vários metros de comprimento. Ele contava-me muitas vezes os seus atribulados romances e, a certa altura, até a minha avó que desaprovava, naturalmente, alguns detalhes das histórias, se começava a rir tal era a desfaçatez e ousadia que o caracterizavam naquela altura. Já eu, divertia-me sempre imenso a ouvi-lo.

A sua segunda paixão era, então, as moedas, que ele coleccionava desde rapaz novo. Achava-as belas, apreciando sobretudo a minúcia do traçado do relevo das faces. Conhecia-as de trás para a frente e sabia praticamente de cor o seu valor no mercado, cuja informação actualizava anualmente com o livro Centavo que eu comprava por ele, ultimamente, no Porto, numa loja de numismática. A mim, ensinou-me a distinguir entre duas moedas iguaizinhas, qual das duas era rara, através da leitura dos eixos. Gostava tanto delas que um dos móveis que as guardam, foi, inclusive, construído por ele, em madeira, com sucessivas gavetinhas. Nestes últimos tempos, ele já não costumava ir vê-las, por não conseguir estar muito tempo de pé, nem a segurar as gavetas ou as capas arquivadoras. Pelo que, não há muito tempo atrás, numa sexta-feira de sol, lhe perguntei se ele gostava de ir à garagem vê-las comigo, ao que ele se levantou quase de imediato, qual criança entusiasmada quando a convidam para ir jogar à bola. Apoiado em mim, lá fomos e eu arrastei o velho sofá até ao móvel das "meninas dos seus olhos". Ele sentou-se e eu sentei-me também num dos braços do sofá, de forma a poder chegar ao armário e colocar-lhe as gavetas no colo. Estivémos horas naquilo, a tirar e colocar moedas. De vez em quando, eu perguntava-lhe se ele estava cansado ou com frio e ele dizia-me sempre que não, pelo que só interrompemos o nosso serão quando a minha avó nos veio perguntar se naquele dia não lanchávamos. Ele estava tão contente que nem deu pelo tempo passar. Enquanto arrumava tudo nos respectivos lugares, disse-me que ainda havia muito para ver, como que um convite para uma próxima tarde. Ohh, avô, como eu gostava de voltar a ver as moedas contigo! Um dia destes, vou lá e pego emprestada aquela com o Fernando Pessoa. Gostei dela e tenho a certeza de que não te importas que o faça. Prometo estimá-la, avô. Gosto tanto de ti!

Morreste-me #1

«Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida.»


Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 9-10)

A morte muda o nosso olhar sobre o que nos rodeia e, inicialmente, é muito difícil aceitar que a vida continua quando nós sentimos que ela perdeu todo o direito de continuar. É quase insultuoso observarmos que o mundo lá fora segue indiferente à nossa dor que, por maior e mais profunda que seja, parece não conseguir abarcar as outras pessoas, pouco ou nada as afectar. E só nos apetece bater-lhes, gritar-lhes aos ouvidos que já nada é nem nunca mais será igual. É uma febre de revolta, indignação, mágoa, dor, tristeza e medo que nos assalta e, no fundo, o mínimo que esperamos é que os outros a partilhem connosco. Mas a verdade é que isso não acontece e as pessoas à nossa volta continuam a rir, a dançar, a celebrar, a viver. Quando muito, disfarçam ou diminuem o tom quando nos vêem, por respeito ou compaixão. E nós começamos a afastar-nos instintivamente delas e a juntarmo-nos mais aos nossos. É assim, pelo menos, numa primeira fase.

Continuar é inevitável e não precisamos de estar sempre a ouvir frases feitas e insensíveis como "a vida continua" ou "a morte faz parte da vida". Nós sabemos perfeitamente que temos de fazer um esforço para continuar, só que não é no dia seguinte, nem no outro, nem mesmo no outro a seguir. A dor leva tempo a mitigar e há dores que nunca chegam a curar.

Quanto a mim, sinto-me como se me faltasse um prato na balança. Quando o meu avô morreu, uma parte de mim morreu com ele. Agora, é reaprender a desfrutar do que a vida ainda tem para me oferecer, da mesma forma que um amputado tem de reaprender a realizar as tarefas diárias com menos um membro. A diferença entre mim e um amputado é que eu não perdi uma perna ou um braço, mas em compensação perdi metade do coração, ainda que metaforicamente falando. E dói e é uma dor tão ou mais real do que se fosse uma amputação verdadeira.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Morreste-me, de José Luís Peixoto

Pouco tempo depois de o meu avô falecer, descobri o livro Morreste-me, de José Luís Peixoto. Conhecia o autor por ter recebido o Prémio Literário José Saramago em 2001, mas nunca tinha lido nenhum dos seus livros. Em relação ao Morreste-me comecei por ler um excerto disponível na Internet e o impacto foi de tal forma extraordinário que, de repente, pude sentir a dor da perda de José Luís Peixoto e a minha própria dor pela perda do meu avô como se fossem uma única dor gigante e pungente que explodiu no meu peito. Chorei muito, tal foi o grau de identificação com aquelas palavras e senti que, naquele momento, nenhuma pessoa me compreendia melhor do que aquele escritor com quem eu nunca me havia "cruzado" antes. 

Alguns dias mais tarde, a minha família ofereceu-me o livro e experienciei uma sensação idêntica à que tive quando o armador finalmente chegou à igreja, transportando o meu avô do hospital, e abriu o caixão na capela: durante muito tempo não consegui ler uma linha, embora o desejasse, assim como não consegui olhar para o meu avô ali prostrado, inerte, acinzentado, gelado: tão anti-natural e já tão longe de mim.

Cinco meses depois, consegui ler o livro (que só tem 60 páginas), mas fi-lo de forma galopante, passando pelos pontos finais como se eles nem lá estivessem. Ao lê-lo desta forma fugidia, sem dar a mim mesma muito tempo para reflectir, tentei que a dor não se infligisse, uma vez mais, sem piedade, no meu coração já magoado. E, devo dizer, que esta estratégia acabou por resultar mais ou menos.

Mas, agora, quero lá voltar e demorar-me em cada palavra e em cada frase o tempo que for necessário até conseguir suportar, no meu íntimo, o peso das emoções e dos sentimentos que aquelas páginas me obrigam a reviver. É que os momentos mais difíceis ou os momentos impossíveis, chamemos-lhes assim, visto que é como eu os entendo, eu ainda não consigo escrever sobre eles e nem sequer relembrá-los. É estranho, mas é como se o meu subconsciente erguesse barreiras à medida que tento chegar até eles, como se encontrasse uma força repulsiva qualquer que me faz desistir e desviar o pensamento para uma outra situação. Acontece-me muito quando fecho os olhos à noite, logo antes de adormecer.

Por isso, vou fazer do Morreste-me um ponto de partida. Uma nova rubrica para o blog: em cada dia uma pequena transcrição de um excerto do livro, seguida de uma reflexão minha. Sempre intercalada com outras memórias e histórias, claro. 

Porque este blog vive de memórias mas é também o meu luto. Desenganem-se os que pensaram o contrário.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Desabafo

Disseram-me que o coração do meu avô já estava muito fraquinho, o que não deixa de ser uma ironia, quase uma piada de mau gosto. Como é que o coração do meu avô podia estar fraquinho se eu o amava, se eu o amo tanto?!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sem título #2

Não há muito tempo atrás, levei uns bombons daqueles pequeninos com licor por dentro que vêm embrulhados em prata de várias cores, para os meus avós. Com cuidado, o meu avô desembrulhou o seu e deixou-o derreter suavemente na língua. Quando acabou, disse-me que para a próxima não tirava o papel, ao que eu perguntei porquê. E ele respondeu-me, sorridente, que era para durar mais tempo na boca.

Hoje, ao almoço, durante uma conversa animada sobre a dependência de chocolate que tão bem caracteriza o meu irmão, lembrei-me deste episódio com o meu avô. 

Por que será que as coisas boas acabam tão depressa? Um chocolate que derreta na língua, durante algum tempo ainda perfuma o nosso palato. Mas a vida, a vida, ao contrário do chocolate, quando "derrete" é tudo menos uma despedida doce. Amarga a boca e amarga o coração.