quinta-feira, 21 de março de 2013

Boa noite, meu pai

- Boa noite, meu pai.
- Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho.

Eu e o meu avô repetimos este diálogo inúmeras vezes, com um sorriso cúmplice de compreensão a formar-se nos nossos lábios, mesmo ainda sem nos termos visto apropriadamente. Acontecia de eu chegar a casa dos meus avós, muitas vezes ao final da tarde, e o meu avô estar sentado na cozinha de luzes apagadas. E era automático. Eu dizia "Boa noite, meu pai" enquanto pousava a mala e tirava o casaco e ele respondia, com voz grave "Boa noite. Eu não teu pai, mas tu és meu filho". E, de seguida, dizia para eu acender as luzes que queria poder olhar para mim, ver a minha cara. Eu acendia a luz, ia dar-lhe um beijo (às vezes, dava logo quando chegava, quando ele ainda era uma sombra meio inclinada na cadeira), e os olhos dele sorriam, felizes, quando encontravam os meus, mesmo que ele tivesse passado um dia com dores terríveis nas pernas ou nos pés. Mas ele nunca se queixava, queria era conversar, saber se eu já tinha lanchado, de onde vinha. 

Às vezes, eu vinha mal-disposta, sem vontade para grandes diálogos. E ele comentava "tu hoje não estás nos teus dias" ou "acho que a tua cara hoje não está como o costume" e aguardava pela minha resposta. Geralmente, ao fim de alguns minutos, quase sem dar por isso, eu começava a desabafar com ele, a contar os infortúnios que me trouxera o dia e, a verdade é que, quando me ia embora, já quase nem me lembrava de que, algum tempo antes, estivera tão aborrecida. Outras vezes, eu não falava mesmo e ele não pressionava.

Mas mesmo mal-disposta, eu não conseguia ser rude com o meu avô, nem sequer ousava levantar-lhe a voz. Eu tinha muito medo que ele se zangasse. Claro que isso não foi suficiente para que uma ou outra vez ele não se tenha, de facto, desiludido e magoado comigo. E, acreditem, ele era muito severo, radical mesmo, quanto às suas decisões e quando entendia que alguém, de alguma forma, o havia ofendido, ele cortava imediatamente relações com essa pessoa e era como se ela tivesse morrido para ele. Raramente voltava atrás com a sua palavra e acho que perdoar, ele nunca chegava a perdoar verdadeiramente.

A mim, ele acabou, eventualmente, por me desculpar (muito graças aos esforços da minha avó e mesmo da minha mãe) mas, eu sei que, no fundo, também foi porque me amava muito. Eu era a menina dele. E ele era a minha pessoa favorita no mundo.

Eu não posso prometer que não o voltaria a decepcionar, sobretudo agora que me sinto tão desamparada sem ele. Eu esforço-me, mas não consigo ser boa e compreensiva o tempo todo. O meu coração está partido, avô. Mas eu vou tentar. Tu sabes que vou tentar. Não desistas de mim.


P.S.: a forma como comecei este post remete para uma das muitas histórias que o meu avô me contava. Esta era mais ou menos assim: «Numa noite escura, de nevoeiro e em que chovia bastante, dois vultos encontraram-se na estrada e o primeiro cumprimentou: "Boa noite, meu pai". Ao que o segundo respondeu (o avô fazia nesta parte uma voz grave para despistar): "Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho."» E a pergunta ficava no ar: quem era o segundo vulto?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Primavera

Hoje começa a Primavera e esta era a estação do ano preferida do meu avô. Daqui a uns dias, quando as manhãs se tornassem mais luminosas e solarengas, o meu avô descia mais cedo para o pequeno-almoço e, depois do seu habitual pão molhado numa almoçadeira cheia de leite com cevada, ia sentar-se na sua cadeira de praia gasta na marquise a admirar o quintal. E o que ele mais gostava era de observar a conversa dos pássaros. Ele dizia-me, muitas vezes, como achava curioso a forma como um casal de pássaros comunicava um com o outro quando se queriam revezar de tomar conta do ninho. Às vezes, ficava a admirar, através dos seus óculos de sol de reflexos esverdeados (a claridade feria-lhe os olhos), durante tempos infinitos, o saltitar de um melro à procura de qualquer coisa para petiscar ou a minúcia de uma aranha a tecer a sua teia. Dizia-me que me havia de fazer perder o medo delas. 

Daqui a mais alguns dias, começaria a usar calças claras e camisas "à sport". E, se as suas pernas o ajudassem, a dar uma voltinha - ou, provavelmente, apenas meia - à volta da urbanização, apoiado na minha avó. E chegariam os dias de assar o bacalhau na brasa, com maior frequência, que ambos adorávamos. Ele ensinou-me que o bacalhau devia ser demolhado com a pele para cima, que é onde se concentra mais o sal. E que as postas para assar não deviam ser muito grossas, se não ficavam queimadas por fora e cruas (somente aquecidas) por dentro. E que o bacalhau era de boa qualidade se a pele não derretesse na grelha. Depois, acompanhávamos o bacalhau com batatas cozidas, embebidos em bastante azeite com alhos, e um pedaço de broa. Dantes, em vez das batatas, o meu avô assava pimentos para acompanhar o bacalhau ou as sardinhas assadas. Não os esquentava, assava-os, devagarinho, virando uma e outra vez, até ficarem com uma cor acastanhada. Ninguém assava pimentos como o meu avô, embora, ultimamente, ele já não assasse, porque dizia que o carvão estava caro e assar os pimentos queimava muito carvão.

Amanhã, combinei com a minha avó que ia arranjar o quintal, que está cheio de ervas daninhas. Vou arranjá-lo para os dois. Porque, mesmo do céu, fica difícil ver os pássaros por entre ervas grandes.

Tenho tantas saudades tuas, avô. Tantas.

terça-feira, 19 de março de 2013

A tristeza é uma coisa muito especial

A tristeza é uma coisa muito especial, de tão indefesos que ficamos diante dela. É como uma janela que se abre apenas quando lhe apetece. A sala fica fria, e não podemos fazer mais nada do que tremer. Mas abre-se um bocadinho menos de cada vez; e um dia perguntamo-nos o que é que lhe aconteceu.
Em Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden (p. 288)

As pessoas à minha volta, as que me querem bem e mesmo as que não querem, mas simplesmente não conseguem ficar caladas, estão sempre a dizer coisas do género "tens de ter paciência", "tens de ser forte", "a morte faz parte da vida", "já eram 88 anos", "com o tempo fica mais fácil". Às vezes, só me apetece mandar-lhes dois berros. Eu não quero ter paciência, não quero ser forte e não quero que fique mais fácil. Pronto. Eu gosto da tristeza -  chamem-me masoquista, se quiserem - , mas com a tristeza vem a dor, aquele aperto na boca do estômago que parece que me faz sufocar, mas que torna tudo mais real. Lembra-me o quanto sinto a falta dele, o quanto o amo. Por isso, se eu preciso de ser triste, deixem-me ser triste. Porque eu não me quero sentir melhor, quero sentir-me mais perto. Perto de ti, avô.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Avô

Sabem aquela expressão que, de vez em quando, surge na boca de um vizinho ou de um amigo, na forma de um desabafo magoado ou até irado sobre algum membro da sua família biológica - "nós não escolhemos a nossa família"? Bom, se me tivessem dado a escolher quem seria o meu avô materno, eu teria escolhido, de todos os potenciais e maravilhosos avôs do mundo, sem qualquer hesitação, o meu avô, ele próprio, sem tirar nem pôr - José de Carvalho, de sua graça.

Cliché ou não, o meu avô era o melhor avô do mundo, era-o para mim. Estão a ver aquele tipo de avô que "estraga" os netos com brinquedos, mimo e indulgência? Pois, o meu avô não era nada assim. Era antes um avô de sorriso franco que se predispunha a escutar-nos e a ensinar-nos valores, pequenas lições de vida para nos tornarmos melhores pessoas. O meu avô era aquele tipo de avô que me perguntava, assim que eu chegava a casa e depois de lhe dar um beijo, "como é que te correu o dia?", não de uma forma banal, como quem comenta o tempo, mas olhos nos olhos, com verdadeiro interesse em saber se eu estava bem. Era um avô preocupado, atento e presente. 

E é dele que vos falo, de hoje em diante, porque se há pessoa que merece ser recordada, essa pessoa é o meu avô. E eu vou recordá-lo sempre.