- Boa noite, meu pai.
- Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho.
Eu e o meu avô repetimos este diálogo inúmeras vezes, com um sorriso cúmplice de compreensão a formar-se nos nossos lábios, mesmo ainda sem nos termos visto apropriadamente. Acontecia de eu chegar a casa dos meus avós, muitas vezes ao final da tarde, e o meu avô estar sentado na cozinha de luzes apagadas. E era automático. Eu dizia "Boa noite, meu pai" enquanto pousava a mala e tirava o casaco e ele respondia, com voz grave "Boa noite. Eu não teu pai, mas tu és meu filho". E, de seguida, dizia para eu acender as luzes que queria poder olhar para mim, ver a minha cara. Eu acendia a luz, ia dar-lhe um beijo (às vezes, dava logo quando chegava, quando ele ainda era uma sombra meio inclinada na cadeira), e os olhos dele sorriam, felizes, quando encontravam os meus, mesmo que ele tivesse passado um dia com dores terríveis nas pernas ou nos pés. Mas ele nunca se queixava, queria era conversar, saber se eu já tinha lanchado, de onde vinha.
Às vezes, eu vinha mal-disposta, sem vontade para grandes diálogos. E ele comentava "tu hoje não estás nos teus dias" ou "acho que a tua cara hoje não está como o costume" e aguardava pela minha resposta. Geralmente, ao fim de alguns minutos, quase sem dar por isso, eu começava a desabafar com ele, a contar os infortúnios que me trouxera o dia e, a verdade é que, quando me ia embora, já quase nem me lembrava de que, algum tempo antes, estivera tão aborrecida. Outras vezes, eu não falava mesmo e ele não pressionava.
Mas mesmo mal-disposta, eu não conseguia ser rude com o meu avô, nem sequer ousava levantar-lhe a voz. Eu tinha muito medo que ele se zangasse. Claro que isso não foi suficiente para que uma ou outra vez ele não se tenha, de facto, desiludido e magoado comigo. E, acreditem, ele era muito severo, radical mesmo, quanto às suas decisões e quando entendia que alguém, de alguma forma, o havia ofendido, ele cortava imediatamente relações com essa pessoa e era como se ela tivesse morrido para ele. Raramente voltava atrás com a sua palavra e acho que perdoar, ele nunca chegava a perdoar verdadeiramente.
A mim, ele acabou, eventualmente, por me desculpar (muito graças aos esforços da minha avó e mesmo da minha mãe) mas, eu sei que, no fundo, também foi porque me amava muito. Eu era a menina dele. E ele era a minha pessoa favorita no mundo.
Eu não posso prometer que não o voltaria a decepcionar, sobretudo agora que me sinto tão desamparada sem ele. Eu esforço-me, mas não consigo ser boa e compreensiva o tempo todo. O meu coração está partido, avô. Mas eu vou tentar. Tu sabes que vou tentar. Não desistas de mim.
P.S.: a forma como comecei este post remete para uma das muitas histórias que o meu avô me contava. Esta era mais ou menos assim: «Numa noite escura, de nevoeiro e em que chovia bastante, dois vultos encontraram-se na estrada e o primeiro cumprimentou: "Boa noite, meu pai". Ao que o segundo respondeu (o avô fazia nesta parte uma voz grave para despistar): "Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho."» E a pergunta ficava no ar: quem era o segundo vulto?
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