Hoje começa a Primavera e esta era a estação do ano preferida do meu avô. Daqui a uns dias, quando as manhãs se tornassem mais luminosas e solarengas, o meu avô descia mais cedo para o pequeno-almoço e, depois do seu habitual pão molhado numa almoçadeira cheia de leite com cevada, ia sentar-se na sua cadeira de praia gasta na marquise a admirar o quintal. E o que ele mais gostava era de observar a conversa dos pássaros. Ele dizia-me, muitas vezes, como achava curioso a forma como um casal de pássaros comunicava um com o outro quando se queriam revezar de tomar conta do ninho. Às vezes, ficava a admirar, através dos seus óculos de sol de reflexos esverdeados (a claridade feria-lhe os olhos), durante tempos infinitos, o saltitar de um melro à procura de qualquer coisa para petiscar ou a minúcia de uma aranha a tecer a sua teia. Dizia-me que me havia de fazer perder o medo delas.
Daqui a mais alguns dias, começaria a usar calças claras e camisas "à sport". E, se as suas pernas o ajudassem, a dar uma voltinha - ou, provavelmente, apenas meia - à volta da urbanização, apoiado na minha avó. E chegariam os dias de assar o bacalhau na brasa, com maior frequência, que ambos adorávamos. Ele ensinou-me que o bacalhau devia ser demolhado com a pele para cima, que é onde se concentra mais o sal. E que as postas para assar não deviam ser muito grossas, se não ficavam queimadas por fora e cruas (somente aquecidas) por dentro. E que o bacalhau era de boa qualidade se a pele não derretesse na grelha. Depois, acompanhávamos o bacalhau com batatas cozidas, embebidos em bastante azeite com alhos, e um pedaço de broa. Dantes, em vez das batatas, o meu avô assava pimentos para acompanhar o bacalhau ou as sardinhas assadas. Não os esquentava, assava-os, devagarinho, virando uma e outra vez, até ficarem com uma cor acastanhada. Ninguém assava pimentos como o meu avô, embora, ultimamente, ele já não assasse, porque dizia que o carvão estava caro e assar os pimentos queimava muito carvão.
Amanhã, combinei com a minha avó que ia arranjar o quintal, que está cheio de ervas daninhas. Vou arranjá-lo para os dois. Porque, mesmo do céu, fica difícil ver os pássaros por entre ervas grandes.
Tenho tantas saudades tuas, avô. Tantas.
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