quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Eu tenho dois amores"

Durante a sua vida, o meu avô cultivou duas paixões: mulheres e moedas. Em relação às mulheres, durante a sua juventude, foi um quebra-corações. Elas ficavam rendidas à sua beleza, à sua forma de estar e de se apresentar, que o diferenciavam no meio rural onde ele vivia, e, segundo a minha avó, ao seu "parlapier" de vários metros de comprimento. Ele contava-me muitas vezes os seus atribulados romances e, a certa altura, até a minha avó que desaprovava, naturalmente, alguns detalhes das histórias, se começava a rir tal era a desfaçatez e ousadia que o caracterizavam naquela altura. Já eu, divertia-me sempre imenso a ouvi-lo.

A sua segunda paixão era, então, as moedas, que ele coleccionava desde rapaz novo. Achava-as belas, apreciando sobretudo a minúcia do traçado do relevo das faces. Conhecia-as de trás para a frente e sabia praticamente de cor o seu valor no mercado, cuja informação actualizava anualmente com o livro Centavo que eu comprava por ele, ultimamente, no Porto, numa loja de numismática. A mim, ensinou-me a distinguir entre duas moedas iguaizinhas, qual das duas era rara, através da leitura dos eixos. Gostava tanto delas que um dos móveis que as guardam, foi, inclusive, construído por ele, em madeira, com sucessivas gavetinhas. Nestes últimos tempos, ele já não costumava ir vê-las, por não conseguir estar muito tempo de pé, nem a segurar as gavetas ou as capas arquivadoras. Pelo que, não há muito tempo atrás, numa sexta-feira de sol, lhe perguntei se ele gostava de ir à garagem vê-las comigo, ao que ele se levantou quase de imediato, qual criança entusiasmada quando a convidam para ir jogar à bola. Apoiado em mim, lá fomos e eu arrastei o velho sofá até ao móvel das "meninas dos seus olhos". Ele sentou-se e eu sentei-me também num dos braços do sofá, de forma a poder chegar ao armário e colocar-lhe as gavetas no colo. Estivémos horas naquilo, a tirar e colocar moedas. De vez em quando, eu perguntava-lhe se ele estava cansado ou com frio e ele dizia-me sempre que não, pelo que só interrompemos o nosso serão quando a minha avó nos veio perguntar se naquele dia não lanchávamos. Ele estava tão contente que nem deu pelo tempo passar. Enquanto arrumava tudo nos respectivos lugares, disse-me que ainda havia muito para ver, como que um convite para uma próxima tarde. Ohh, avô, como eu gostava de voltar a ver as moedas contigo! Um dia destes, vou lá e pego emprestada aquela com o Fernando Pessoa. Gostei dela e tenho a certeza de que não te importas que o faça. Prometo estimá-la, avô. Gosto tanto de ti!

Morreste-me #1

«Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida.»


Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 9-10)

A morte muda o nosso olhar sobre o que nos rodeia e, inicialmente, é muito difícil aceitar que a vida continua quando nós sentimos que ela perdeu todo o direito de continuar. É quase insultuoso observarmos que o mundo lá fora segue indiferente à nossa dor que, por maior e mais profunda que seja, parece não conseguir abarcar as outras pessoas, pouco ou nada as afectar. E só nos apetece bater-lhes, gritar-lhes aos ouvidos que já nada é nem nunca mais será igual. É uma febre de revolta, indignação, mágoa, dor, tristeza e medo que nos assalta e, no fundo, o mínimo que esperamos é que os outros a partilhem connosco. Mas a verdade é que isso não acontece e as pessoas à nossa volta continuam a rir, a dançar, a celebrar, a viver. Quando muito, disfarçam ou diminuem o tom quando nos vêem, por respeito ou compaixão. E nós começamos a afastar-nos instintivamente delas e a juntarmo-nos mais aos nossos. É assim, pelo menos, numa primeira fase.

Continuar é inevitável e não precisamos de estar sempre a ouvir frases feitas e insensíveis como "a vida continua" ou "a morte faz parte da vida". Nós sabemos perfeitamente que temos de fazer um esforço para continuar, só que não é no dia seguinte, nem no outro, nem mesmo no outro a seguir. A dor leva tempo a mitigar e há dores que nunca chegam a curar.

Quanto a mim, sinto-me como se me faltasse um prato na balança. Quando o meu avô morreu, uma parte de mim morreu com ele. Agora, é reaprender a desfrutar do que a vida ainda tem para me oferecer, da mesma forma que um amputado tem de reaprender a realizar as tarefas diárias com menos um membro. A diferença entre mim e um amputado é que eu não perdi uma perna ou um braço, mas em compensação perdi metade do coração, ainda que metaforicamente falando. E dói e é uma dor tão ou mais real do que se fosse uma amputação verdadeira.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Morreste-me, de José Luís Peixoto

Pouco tempo depois de o meu avô falecer, descobri o livro Morreste-me, de José Luís Peixoto. Conhecia o autor por ter recebido o Prémio Literário José Saramago em 2001, mas nunca tinha lido nenhum dos seus livros. Em relação ao Morreste-me comecei por ler um excerto disponível na Internet e o impacto foi de tal forma extraordinário que, de repente, pude sentir a dor da perda de José Luís Peixoto e a minha própria dor pela perda do meu avô como se fossem uma única dor gigante e pungente que explodiu no meu peito. Chorei muito, tal foi o grau de identificação com aquelas palavras e senti que, naquele momento, nenhuma pessoa me compreendia melhor do que aquele escritor com quem eu nunca me havia "cruzado" antes. 

Alguns dias mais tarde, a minha família ofereceu-me o livro e experienciei uma sensação idêntica à que tive quando o armador finalmente chegou à igreja, transportando o meu avô do hospital, e abriu o caixão na capela: durante muito tempo não consegui ler uma linha, embora o desejasse, assim como não consegui olhar para o meu avô ali prostrado, inerte, acinzentado, gelado: tão anti-natural e já tão longe de mim.

Cinco meses depois, consegui ler o livro (que só tem 60 páginas), mas fi-lo de forma galopante, passando pelos pontos finais como se eles nem lá estivessem. Ao lê-lo desta forma fugidia, sem dar a mim mesma muito tempo para reflectir, tentei que a dor não se infligisse, uma vez mais, sem piedade, no meu coração já magoado. E, devo dizer, que esta estratégia acabou por resultar mais ou menos.

Mas, agora, quero lá voltar e demorar-me em cada palavra e em cada frase o tempo que for necessário até conseguir suportar, no meu íntimo, o peso das emoções e dos sentimentos que aquelas páginas me obrigam a reviver. É que os momentos mais difíceis ou os momentos impossíveis, chamemos-lhes assim, visto que é como eu os entendo, eu ainda não consigo escrever sobre eles e nem sequer relembrá-los. É estranho, mas é como se o meu subconsciente erguesse barreiras à medida que tento chegar até eles, como se encontrasse uma força repulsiva qualquer que me faz desistir e desviar o pensamento para uma outra situação. Acontece-me muito quando fecho os olhos à noite, logo antes de adormecer.

Por isso, vou fazer do Morreste-me um ponto de partida. Uma nova rubrica para o blog: em cada dia uma pequena transcrição de um excerto do livro, seguida de uma reflexão minha. Sempre intercalada com outras memórias e histórias, claro. 

Porque este blog vive de memórias mas é também o meu luto. Desenganem-se os que pensaram o contrário.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Desabafo

Disseram-me que o coração do meu avô já estava muito fraquinho, o que não deixa de ser uma ironia, quase uma piada de mau gosto. Como é que o coração do meu avô podia estar fraquinho se eu o amava, se eu o amo tanto?!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sem título #2

Não há muito tempo atrás, levei uns bombons daqueles pequeninos com licor por dentro que vêm embrulhados em prata de várias cores, para os meus avós. Com cuidado, o meu avô desembrulhou o seu e deixou-o derreter suavemente na língua. Quando acabou, disse-me que para a próxima não tirava o papel, ao que eu perguntei porquê. E ele respondeu-me, sorridente, que era para durar mais tempo na boca.

Hoje, ao almoço, durante uma conversa animada sobre a dependência de chocolate que tão bem caracteriza o meu irmão, lembrei-me deste episódio com o meu avô. 

Por que será que as coisas boas acabam tão depressa? Um chocolate que derreta na língua, durante algum tempo ainda perfuma o nosso palato. Mas a vida, a vida, ao contrário do chocolate, quando "derrete" é tudo menos uma despedida doce. Amarga a boca e amarga o coração.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aos leitores

Criei uma conta de e-mail (memoriasdomeuavo@gmail.com), referida no final do blog, para o caso de desejarem perguntar ou sugerir-me alguma coisa, ou até partilhar comigo as vossas próprias histórias/memórias com os vossos avós, fora da esfera pública dos comentários. Sintam-se à vontade.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O gosto pela leitura

O gosto pela leitura herdei-o do meu avô. A leitura, a par da rádio, constituía para ele o meio de eleição para se manter informado sobre a actualidade e eram sobretudo as questões políticas e económicas do país que o preocupavam, fazendo-o perder horas e horas de sono a conjecturar o futuro da nossa família. A noite trazia-lhe a lucidez e concentração necessárias para avaliar factos e encontrar soluções. Quando estava mais descontraído, até poemas de mais de trinta quadras rimadas ele criava mentalmente e memorizava. 

Por isso, e tendo em conta que ele se recusava a ver televisão, sempre que eu podia, leváva-lhe jornais e revistas, mesmo que já tivessem alguns dias. Quando algum deles continha uma notícia que ele considerava particularmente interessante ou relevante, guardava-os na garagem, apontando nas capas as páginas referentes ao tal artigo oportuno. 

Mas, nem sempre a fome de leitura do meu avô se restringiu a jornais e revistas e, tão-pouco, a notícias da actualidade nacional e internacional. Quando era novo, o meu avô devorava romances, lendo, muitas vezes, pela noite dentro. O seu autor favorito era Camilo Castelo Branco, do qual leu "Amor de Perdição", "A Freira no Subterrâneo" e "A culpa dos Pais". Curiosamente, foi preso pela PIDE pelo seu nome constar de uma lista de uma biblioteca, à qual pertenciam o nome de vários comunistas. Isto porque, livros como "A Freira no Subterrâneo" eram proibidos no Estado Novo, pelo que ele os procurava para os ler à revelia. Ele gostava de histórias que facilmente se pudessem confundir com a realidade. Do "Amor de Perdição" (que já se encontra na fila para as minhas próximas leituras), ficou a recordação de quando ele levou a minha avó ao cinema para ver o filme baseado na obra, ainda eram namorados. Quando eu lhe perguntava se a minha avó tinha chorado muito, ele dizia "Ui, moça!", ao que ela acrescentava depois que, durante alguns dias, nem conseguia comer, já que "parecia que a comida nem passava para baixo".

Se dúvidas houvesse quanto "a quem eu saí", assim viciada na leitura, penso que acabaram de se dissipar. Foi mesmo ao meu avô. Mais um legado feliz que ele me deixou.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sem título #1

Hoje, enquanto aguardava com a minha avó uma consulta de oftalmologia na sala de espera do hospital, lembrei-me de uma das inúmeras histórias de deliciosa malícia que o meu avô tinha sempre prontas na ponta da língua e que não se cansava de mas contar, ao ponto de eu as saber quase todas de cor, embora, quando contadas por mim, não tenham metade da graça. Ainda assim, não resisti e resgatando a minha avó do seu estado de alheamento, murmurei-lhe "Vó, vê lá se não te põem um olho de um cão". Ela compreendeu de imediato e retribuiu-me o sorriso. Se, por acaso, o meu avô estivesse ali, tenho a certeza de que se teria rido com gosto. Ele tinha um riso contagiante que o traía sempre que queria contar uma das suas marotices. Ria-se, começava a contar, voltava a rir-se, recomeçava de novo, ria-se mais uma vez e nós começávamos a rir-nos também, ainda antes de ele ter conseguido contar o que quer que fosse. 

Em relação à história em questão, era mais ou menos assim: havia um homem que era cego e, como acontece com qualquer cego, o seu maior sonho era poder ver, nem que fosse de um só olho. Então, um dia foi ao médico e expôs o seu problema com tanto fervor, suplicando ao especialista por uma qualquer solução que lhe permitisse enxergar minimamente o mundo que o rodeava, que conseguiu comovê-lo ao ponto de este lhe prometer que havia de encontrar uma solução. E assim o fez: transplantou-lhe um olho. Só que, não tendo um olho humano disponível, fê-lo com um olho de um cão, não prevendo nenhum efeito colateral significativo que pudesse advir desta pequena e inofensiva troca. E a operação foi, de facto, um sucesso, sendo que a origem do olho nunca foi revelada ao paciente que, entretanto, já nem cabia em si de contente por poder finalmente ver.
Passaram-se umas semanas e, aparentemente, tudo corria bem, até ao dia em que o paciente apareceu no consultório do médico a queixar-se de que havia qualquer coisa de estranho consigo, qualquer coisa que mudara nele, no seu interior, desde a operação e que ele não sabia explicar o que era. O médico, não pouco constrangido, acabou por confessar o inevitável: que lhe tinha transplantado um olho de um cão. Ao que, o paciente, visivelmente aliviado, respondeu: "Ahh, agora compreendo, Senhor Doutor. Por isso é que, há já alguns dias, eu trago uma cadela debaixo de olho!".

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Da minha infância #4

Enquanto frequentei a Primária foi sempre o meu avô quem me acompanhou à escola. Íamos e vínhamos a pé, todos os dias - o meu avô a carregar a minha mochila. Só quando chovia é que ele me ia buscar no seu Seat Ibiza verde-escuro. Geralmente, íamos pela rua principal e voltávamos pela rua do aeroporto, sendo que o nosso percurso nunca demorava menos do que uma hora, porque eu gostava de saber tudo e perguntava-lhe sobre as flores, as árvores, as borboletas e ele, pacientemente, ía-me respondendo com carinho, levando-me sempre a sério. Às vezes, a minha avó também nos acompanhava, mas era pouco frequente.

Já durante a tarde, depois dos deveres da escola que eu fazia com o maior entusiasmo, sobretudo quando envolvia composições e pinturas de desenhos - sempre sobre a supervisão, ajuda e aprovação final do trabalho feito pelo avô -, íamos passear pela "bouça dos cãezinhos", uma bouça de eucaliptos, carvalhos e pinheiros que, ainda hoje, ladeia a urbanização onde fica a casa dos meus avós. Eu chamo-lhe "bouça dos cãezinhos" porque vivia lá no meio, num casebre, uma família que, embora fosse muito pobre, tinha sempre imensos cães. Pelo caminho, eu gostava de apanhar "cocas" (os frutos dos eucaliptos), verdes e vermelhinhas. As vermelhinhas eram as que eu gostava mais, porque eram mais difíceis de encontrar. Também apanhava bugalhos, mas a minha avó não queria que eu os levasse para casa, porque, dizia ela, enchia tudo de mosquitos. Ao longo do caminho, pelo qual o meu avô me guiava, atravessávamos uma ponte e às vezes ficávamos a ver o comboio a passar por baixo.

Outras vezes, íamos à bouça recolher troncos e cepos de árvores para arderem no fogareiro. Eu ía sempre procurar os cepos, porque sabia que o meu avô gostava especialmente deles, já que ardiam muito bem. Quando já tínhamos um molho grande, voltávamos para casa e, um a um, o meu avô ía serrando-os, em cima do poço, comigo a segurá-los para evitar que oscilassem enquanto ele o fazia. Eu gostava de ver o serrim a acumular-se no chão, fazía-me lembrar farinha Cerelac. E gostava ainda mais que o meu avô me deixasse ajudar e ele deixava sempre.

Para além de irmos à bouça, também costumávamos ir comprar leite a uma casa de lavradores que ficava na rua que dava para a escola. Lembro-me de perguntar ao meu avô, uma vez, se o Sr. Almeida (que era o nome do lavrador que, infelizmente, também já faleceu, há muitos anos atrás) não dava banho às vacas. O meu avô disse-me que não e eu fiquei muito indignada, por elas estarem sempre todas sujas. Enquanto esperávamos pelo nosso leite, ficávamos a observar o lavrador a ordenhá-las com aquelas máquinas estranhas em forma de tetas. Isso e a canseira delas a lamberem o ranho com a língua.

Entretanto, em frente à casa desse lavrador havia castanheiros. E, por altura do magusto, eu e os meus avós íamos lá apanhar umas castanhas. Eu gostava de ir descobri-las nos ouriços meios abertos camuflados entre as folhas de outono no chão. Depois, em casa, cozinhávamo-las. Assadas no forno era a forma preferida do meu avô. Já eu e a minha avó também apreciávamos comê-las cruas.

Hoje em dia, infelizmente, os castanheiros já não existem, a casa de lavradores está desabitada e a "bouça dos cãezinhos", agora sem cãezinhos, já se encontra meia despida. E, ainda assim, nada disto me interessava verdadeiramente se o meu avô aqui estivesse para o recordar comigo. Se o tempo pudesse voltar atrás, nem que fosse por um bocadinho. Só o bocadinho de eu conseguir olhar nos seus olhos e abraçá-lo. Nem precisava de dizer nada.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do medo de esquecer

Um dos meus maiores medos, neste momento, é o esborratar da minha memória. Começar a tornar-se impreciso e dúbio na minha cabeça o som do riso do meu avô; a ferida de cor amarelada, por causa do Betadine, que marcava o lado esquerdo do seu rosto sempre que se barbeava; os dedos das mãos inclinados por causa das artrozes e a forma como ele, às vezes, os observava, esticando-os devagarinho; os olhos aguados e o tremido dos lábios sempre que se comovia. Pormenores que eram o meu avô, pormenores que me dilaceram de cada vez que os evoco. E medo, sobretudo muito medo de perdê-los, agora que nunca mais os vou voltar a ver. Nunca mais é a pior sentença de todas.

E, como recordá-lo, na sua alegria, é a única forma que temos de o resgatarmos, por um bocadinho que seja, para perto de nós, a memória torna-se um factor tão crucial neste processo. Tão crucial e tão ingrata. Diz-se que o tempo cura tudo, mas neste contexto, o tempo só estraga. Será que as pessoas dizem que com o tempo fica mais fácil porque vão perdendo gradualmente a imagem dos seus entes queridos? Espero que não, é uma ideia assustadora. Prefiro pensar que, se calhar, dizem isso, porque a vida, ao impor-se na sua obrigação de ser vivida, as foca nos outros mil e um problemas que vão surgindo no dia-a-dia, ao ponto de a pessoa que se perdeu só se atravessar nos seus pensamentos pouco antes de adormecerem. Sinceramente, não gosto de nenhuma das duas opções, embora, a acontecer, que seja a segunda.

A melhor forma de recordar acaba por ser conversar com os familiares sobre essa pessoa. Mas, enquanto umas vezes, ao relembrar, nos sentimos quase felizes de novo, nem que seja por uma fracção de segundo, outras vezes torna-se demasiado doloroso, demasiado triste, já que a sombra da morte e da perda nunca desaparece. Acho que, em parte, é por isso que escrevo. Porque às vezes, ao falar tanto sobre o meu avô, deixo a minha família triste. Por exemplo, nos primeiros dias eu sonhava com ele e, de manhã, contava à minha avó. Eram sonhos tristes, mas eu contava à mesma, precisava de contar. Até que ela me pediu para não o fazer mais. 

Mas, para além de conversarmos com a nossa família e de recorrermos às fotografias, há outra coisa que, parecendo menor, torna-se importante: os objectos. As pessoas mais antigas e geralmente com menor grau de educação, são muito supersticiosas, pelo que fiquei a saber que, quando alguém morre, acreditam que não é bom ficar com as coisas dos entes queridos e, então, em poucos dias, logo depois do funeral, começam a arrumar os pertences da pessoa e a oferecer muitos deles. Isto foi uma coisa que me fez imensa confusão: eu não queria dar, nem lavar nem trocar de lugar nada que tivesse pertencido ao meu avô. Porque os objectos também dão personalidade às pessoas, os objectos remetem-nos para situações vividas. Por que é que havemos de nos desfazer deles? Se calhar, os mais antigos acreditam que os objectos nos prendem ao passado e, de certa forma, não nos permitem superar, continuar. É uma suposição, eu não sei mesmo de onde vem esta superstição. Mas se for este o motivo, eu não concordo de todo. Eu não vejo mal nenhum em guardar o que tão bem e por tanto tempo caracterizou uma pessoa e, sobretudo, que nos faz lembrar dela.

Por exemplo: os óculos de mocho do avô que ele usava para ler o jornal no café ou artigos de revistas em casa, que lhe ocupavam quase metade da cara e lhe davam um ar tão amoroso; o relógio de pulso de corda que já contava com mais de 60 anos e que o avô tinha conseguido numa loja de penhores (ele adorava aquele relógio); a bengala que já havia sido da minha bisavó e que o acompanhou nestes últimos anos; o pullover bege, a gravata vermelha, os sapatos de lona e a manta castanha que ele usava por cima dos ombros...

Tudo isto faz parte do que o meu avô foi e de como ele continua a ser dentro do meu coração. Quando penso nele, é assim que o vejo. E eu vejo-o, cá dentro, repetidamente, todos os dias, com os olhos do amor. Do amor grande que sinto por ti, avô.