Hoje, enquanto aguardava com a minha avó uma consulta de oftalmologia na sala de espera do hospital, lembrei-me de uma das inúmeras histórias de deliciosa malícia que o meu avô tinha sempre prontas na ponta da língua e que não se cansava de mas contar, ao ponto de eu as saber quase todas de cor, embora, quando contadas por mim, não tenham metade da graça. Ainda assim, não resisti e resgatando a minha avó do seu estado de alheamento, murmurei-lhe "Vó, vê lá se não te põem um olho de um cão". Ela compreendeu de imediato e retribuiu-me o sorriso. Se, por acaso, o meu avô estivesse ali, tenho a certeza de que se teria rido com gosto. Ele tinha um riso contagiante que o traía sempre que queria contar uma das suas marotices. Ria-se, começava a contar, voltava a rir-se, recomeçava de novo, ria-se mais uma vez e nós começávamos a rir-nos também, ainda antes de ele ter conseguido contar o que quer que fosse.
Em relação à história em questão, era mais ou menos assim: havia um homem que era cego e, como acontece com qualquer cego, o seu maior sonho era poder ver, nem que fosse de um só olho. Então, um dia foi ao médico e expôs o seu problema com tanto fervor, suplicando ao especialista por uma qualquer solução que lhe permitisse enxergar minimamente o mundo que o rodeava, que conseguiu comovê-lo ao ponto de este lhe prometer que havia de encontrar uma solução. E assim o fez: transplantou-lhe um olho. Só que, não tendo um olho humano disponível, fê-lo com um olho de um cão, não prevendo nenhum efeito colateral significativo que pudesse advir desta pequena e inofensiva troca. E a operação foi, de facto, um sucesso, sendo que a origem do olho nunca foi revelada ao paciente que, entretanto, já nem cabia em si de contente por poder finalmente ver.
Passaram-se umas semanas e, aparentemente, tudo corria bem, até ao dia em que o paciente apareceu no consultório do médico a queixar-se de que havia qualquer coisa de estranho consigo, qualquer coisa que mudara nele, no seu interior, desde a operação e que ele não sabia explicar o que era. O médico, não pouco constrangido, acabou por confessar o inevitável: que lhe tinha transplantado um olho de um cão. Ao que, o paciente, visivelmente aliviado, respondeu: "Ahh, agora compreendo, Senhor Doutor. Por isso é que, há já alguns dias, eu trago uma cadela debaixo de olho!".
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