Durante a sua vida, o meu avô cultivou duas paixões: mulheres e moedas. Em relação às mulheres, durante a sua juventude, foi um quebra-corações. Elas ficavam rendidas à sua beleza, à sua forma de estar e de se apresentar, que o diferenciavam no meio rural onde ele vivia, e, segundo a minha avó, ao seu "parlapier" de vários metros de comprimento. Ele contava-me muitas vezes os seus atribulados romances e, a certa altura, até a minha avó que desaprovava, naturalmente, alguns detalhes das histórias, se começava a rir tal era a desfaçatez e ousadia que o caracterizavam naquela altura. Já eu, divertia-me sempre imenso a ouvi-lo.
A sua segunda paixão era, então, as moedas, que ele coleccionava desde rapaz novo. Achava-as belas, apreciando sobretudo a minúcia do traçado do relevo das faces. Conhecia-as de trás para a frente e sabia praticamente de cor o seu valor no mercado, cuja informação actualizava anualmente com o livro Centavo que eu comprava por ele, ultimamente, no Porto, numa loja de numismática. A mim, ensinou-me a distinguir entre duas moedas iguaizinhas, qual das duas era rara, através da leitura dos eixos. Gostava tanto delas que um dos móveis que as guardam, foi, inclusive, construído por ele, em madeira, com sucessivas gavetinhas. Nestes últimos tempos, ele já não costumava ir vê-las, por não conseguir estar muito tempo de pé, nem a segurar as gavetas ou as capas arquivadoras. Pelo que, não há muito tempo atrás, numa sexta-feira de sol, lhe perguntei se ele gostava de ir à garagem vê-las comigo, ao que ele se levantou quase de imediato, qual criança entusiasmada quando a convidam para ir jogar à bola. Apoiado em mim, lá fomos e eu arrastei o velho sofá até ao móvel das "meninas dos seus olhos". Ele sentou-se e eu sentei-me também num dos braços do sofá, de forma a poder chegar ao armário e colocar-lhe as gavetas no colo. Estivémos horas naquilo, a tirar e colocar moedas. De vez em quando, eu perguntava-lhe se ele estava cansado ou com frio e ele dizia-me sempre que não, pelo que só interrompemos o nosso serão quando a minha avó nos veio perguntar se naquele dia não lanchávamos. Ele estava tão contente que nem deu pelo tempo passar. Enquanto arrumava tudo nos respectivos lugares, disse-me que ainda havia muito para ver, como que um convite para uma próxima tarde. Ohh, avô, como eu gostava de voltar a ver as moedas contigo! Um dia destes, vou lá e pego emprestada aquela com o Fernando Pessoa. Gostei dela e tenho a certeza de que não te importas que o faça. Prometo estimá-la, avô. Gosto tanto de ti!
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