quarta-feira, 3 de julho de 2013

Visita a Fafe (Julho de 2012)

O meu avô era natural de Fafe e daqui a quatro dias faz precisamente um ano em que lá fomos com o intuito de visitar uma das suas irmãs que estava doente. Logo de manhã, quando fomos buscar os meus avós a casa, se dúvidas tivéssemos quanto à importância daquela ida a Fafe para o meu avô, desapareceriam assim que lhe pusémos a vista em cima, quando apareceu ao portão, com o braço direito dado à minha avó e apoiado na bengala com o braço esquerdo, todo janota de fato e gravata, como eu já não o via há vários anos. Saí do carro para lhes dar um beijinho de bom-dia e até brinquei com ele, dizendo-lhe que até parecia mal eu ir vestida da forma que ía comparada à sua fatiota.

Estava um dia bonito e a viagem foi relativamente rápida, com o meu avô a inclinar-se progressivamente para o lado do condutor, tendência que ele havia desenvolvido de há uns anos para cá, fruto das mazelas que ficaram e se foram agravando de um AVC que o atingiu há sensivelmente 14 anos. Ele estava desejoso por chegar e eu também estava animada por conhecer o lugar onde ele havia vivido e crescido, palco das histórias que ele tantas vezes me contava.

Uma hora e meia depois, chegámos então à casa da tia Maria, na altura uma dos quatro irmãos, incluindo o meu avô, que ainda estavam vivos (no total, foram nove irmãos) e que era a irmã que tão bem cozinhava o cabrito assado aos domingos que o meu avô simplesmente adorava. Ela estava (e ainda está) muito debilitada e não conseguiu falar, mas penso que o reconheceu, já que uma lágrima lhe escorreu pelo rosto quando o viu e ele falou com ela. 

Estivémos lá durante algum tempo e depois fomos dar uma volta à vila, onde encontrámos uma outra irmã do meu avô, a tia Ana, a quem ele, na brincadeira chamou Rosa, levando-a a concluir que ele já não estava no seu perfeito juízo. A tia Ana ficou tão contente de nos ver, que tagarelou imenso, pelo que, quando nos disse que por dia dava 30 voltas a pé e que, só naquele dia, já tinha dado 25, o meu avô, maroto, lhe disse para ela ir dar as 5 que faltavam, porque já estávamos a ficar atrasados para o almoço. Só de me lembrar já me estou a rir, mas esta não foi a sua única graçola do dia, esperem que já vos conto.

Quando finalmente nos despedimos da tia Ana, fomos visitar uma das antigas paixões do meu avô, uma senhora por quem ele ainda nutria forte amizade. Estiveram a pôr a conversa em dia (ele, a minha avó e a tal senhora) e, já no final, maroto a dobrar, o meu avô não resistiu a perguntar-lhe se não merecia nada, deixando-nos a todos um bocadinho sem jeito, ao que esta lhe respondeu com dois beijinhos na cara.

Continuámos a nossa visita à vila que, segundo o meu avô, estava tão diferente que já nem a conhecia, e ainda encontrámos outros conhecidos (para mim, desconhecidos) que vieram cumprimentar o meu avô.

Chegada a hora de almoço, voltámos a casa da tia Maria. Sentámo-nos à mesa, o meu avô a uma das cabeceiras, comigo do seu lado direito, e começámos a degustar a vitela assada que a família havia encomendado. Tudo corria bem até uma das sobrinhas do meu avô, com quem, eu fiquei a saber, ele se dava particularmente bem, lhe perguntar "Tio, a vitela está boa?", ao que ele respondeu seriamente "Para ser avó, está muito boa". Em segundos, eu e o meu avô cruzámos o olhar e desatámo-nos a rir, a rir, a rir sem conseguirmos parar. Aquele momento foi de tal forma hilariante, com toda a família em silêncio à espera da resposta do meu avô, esperando tudo menos aquela inusitada que ele deu, que, ainda hoje, quando o relembrávamos nas nossas conversas, nos ríamos imenso. Depois disto, o almoço decorreu normalmente, pelo menos até à hora do café. 

O meu avô estava tão bem-disposto e revigorado, que se sentiu com força para ir tomar o café fora de casa, se eu também fosse. Claro que eu fui e, uma vez mais, a tal sobrinha que tinha perguntado se a vitela estava boa, desta vez, lembrou-se de perguntar se o café estava bom. E o meu avô não tem mais nada: "O melhor do café é o que está lá dentro... o açúcar." Pronto, desatámo-nos a rir outra vez, comigo a exclamar, num tom de censura pouco convincente, "Ohh, vô! Ohh, vô!".

A nossa visita deu-se por terminada, não antes de eu tirar uma fotografia com os meus avós, a última fotografia que tenho do meu avô e com ele, e que partilho agora convosco:


Quando olho para ela, só me lembro do quanto ele estava feliz naquele dia e juro que, às vezes, até me parece que ele está a sorrir para mim.

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