quinta-feira, 18 de julho de 2013

Gostar é gostar

Uma coisa que me irrita é a mania dos termos de comparação, sobretudo comparações do grau de amor e afecto que temos por uns e por outros. Dizer que eu gosto mais do meu avô do que da minha avó é mentira, assim como é mentira dizer que gosto mais da minha avó do que do meu avô. Não gosto mais nem menos, mas também não gosto da mesma maneira. A questão é: gosto deles de forma diferente porque eles são pessoas diferentes. Claro que posso ter mais afinidade com um ou com outro, identificar-me mais com uma forma de pensar de um ou de outro, mas isso nada interfere com o amor que lhes tenho.

Por exemplo, a minha avó é aquilo a que chamamos "um coração mole": é sensível, impressionável, vulnerável, sofredora, tem uma capacidade extraordinária de perdoar. Acredita que não pode dar mais do que aquilo que dá, o que não é verdade e o que a torna uma pessoa um bocadinho resignada e derrotista. Se "ofendermos" a minha avó de manhã, à tarde ela já está bem connosco e espera que a abordemos sempre com um sorriso nos lábios. Não é de conversas longas e muito intelectualizadas, mas com ela falo de flores, dos vizinhos de quem gostamos, do avô, de assuntos de meninas e trivialidades. 

Já o meu avô tinha uma personalidade mais forte e mais vincada: era sério e levava a sério as conversas sérias, era exigente consigo e com os outros, prezava a boa-educação, a honestidade e a verdade acima de tudo. Era um excelente comunicador, culto e informado. Com ele, eu podia falar da actualidade, desde política a economia ou religião. Era de ideias fixas, mas não era arrogante. Sabia ouvir, sabia aconselhar e também sabia quando se devia calar (infelizmente, pouca gente o sabe). Por outro lado, era uma pessoa um bocadinho susceptível, no sentido em que bastava uma palavra fora do lugar ou do tom para ele se ofender e, ao contrário da minha avó, muito dificilmente perdoar.

Sortuda ou não, o meu feitio aproxima-se mais do do meu avô do que do da minha avó, por isso, naturalmente eu o compreendia melhor do que compreendo a minha avó. É curioso, porque, muito embora a minha avó tenha, aparentemente, um feitio mais simples e mais maleável, não consigo atingi-la da mesma forma que o fazia com o meu avô. E, acho que isso é, muitas vezes e mesmo por ela própria, interpretado como menos amor da minha parte. E é engraçado que penso que essa ideia também passou para o meu avô que, pouco tempo antes de nos deixar, numa das tardes que fui passar com eles, me disse, quando a minha avó se ausentou da nossa companhia para ir ver a telenovela, que ela gostava muito de mim.

Mais uma vez, a questão não passa por qual dos dois gosto mais. Não tem a ver com intensidade ou com o espaço que ocupam no meu coração. Pelo menos, eu não o vejo assim. Eu gosto de cada um exactamente por aquilo que de melhor eles têm e são, e, por isso, gosto-os de forma diferente. E é isso que as pessoas têm de entender: diferente não é mau. Diferente é o que torna especial.

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