terça-feira, 16 de julho de 2013

Morreste-me #2

«E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta do quintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e esta tarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chaves e, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa, examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. (...) Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombras finas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias? Não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne e luz ou sombra.»

Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 12-16)

No Domingo, voltámos a Fafe. A viagem fez-se silenciosa, de lágrimas silenciosas a escorrerem pelas faces da minha mãe e da minha avó. Eu fui quase todo o caminho de olhos fechados, auscultadores nos ouvidos. Abri-os por duas vezes para me deparar com as placas de direcção: Fafe. A terra que viu o meu avô ser menino, perder a mãe aos oito anos, ser rapaz, quase padre, ter lições de violino, perder o pai aos dezoito, casar pela primeira vez. A terra que foi o meu avô e agora nada.

Chegámos ao destino: bairro da Granja. Mais lágrimas, muitas lágrimas. Eu sentia-me zangada demais por dentro, por tudo e coisa nenhuma, para ter lágrimas. Às vezes, acontece-me e não quer dizer, por isso, que esteja a sofrer menos do que os que choram. Se bem que, neste caso em particular, talvez até fosse verdade, porque eu não tenho tantas recordações daqueles sítios e daquelas pessoas, quanto a minha avó e a minha mãe. Fomos ver a tia Maria. Estava deitada na cama, achei-a bonita, com melhor fisionomia do que há um ano atrás. Aquele espaço que fica entre as sobrancelhas, meias franzidas, foi o que mais me fez lembrar o meu avô. Mas já o cabelo fino, as orelhas compridas e a pele muito lisa para uma senhora de 92 anos, também são características que o meu avô partilhava.

Fomos almoçar a casa daquela sobrinha do meu avô com quem ele se dava bem. Sentaram a minha avó à cabeceira da mesa. Ao seu lado direito, um espaço vazio, prato, talheres e copo dispostos para o meu avô. Não sei se o fizeram para honrá-lo ou simplesmente para não ficar uma conta de treze pessoas à mesa. Para mim, só serviu para acentuar mais a sua ausência. Havia cabrito e vitela. A minha avó comeu um bocadinho de cabrito, com pouca vontade, pareceu-me. Ela e o meu avô adoravam o cabrito da tia Maria. Já eu, fiquei-me pela vitela assada e, uma vez mais, a vitela era avó, avô. Havias de te ter rido com vontade, eu queria ter-me rido com vontade contigo.

A meio do almoço, ouvi dizerem que onde o meu avô estava, estava muito bem. Disseram-no para apaziguar a minha avó, eu queria não ter ouvido. Ninguém sabe se onde o meu avô está, está bem ou tão-pouco se ele está em algum lado. Bem, muito bem, estaria ele, ao nosso lado, a derriçar cabrito e vitela-avó. Às vezes, fico com ciúmes por outras pessoas (que não a minha família mais chegada) se referirem ao meu avô como se o conhecessem desde sempre, melhor do que eu, como se o amassem mais do que eu (como se isso fosse possível). É um sentimento feio e egoísta, eu sei, e tento controlá-lo, mas o facto é que me sinto um bocadinho possessiva no que toca ao meu avô.

A visita terminou da mesma forma que começou: com um sentimento de desencantamento a encher-me o peito. Não é que a família não nos tenha recebido bem, porque recebeu. É só porque, para mim, era o meu avô que fazia aquele lugar, era através dos seus olhos que eu o queria conhecer. Valeu o coração da minha avó ter ficado mais sossegado. Voltar a Fafe e olhar nos olhos da tia Maria eram uma espécie de provação para ela e agora que o fizemos, penso que ganhou alguma paz de espírito. E isso é o que importa.

Sem comentários:

Enviar um comentário