sábado, 13 de julho de 2013

O meu avô foi um lutador

O meu avô foi a pessoa mais determinada e com maior força de vontade que eu conheci. Só para terem uma ideia, quando teve o seu AVC, que lhe paralisou todo o lado direito e que havia de condicionar a sua vida para sempre, ficou totalmente dependente dos outros, quer para se alimentar, quer para cuidar da sua higiene pessoal. Quando voltou do hospital e durante muito tempo, esteve deitado numa maca que foi colocada no quarto de casal que, naquela altura, era o dos meus avós. Eu andava na Primária e quando voltava da escola, ao contrário das outras crianças, não ia brincar lá para fora, ia sentar-me ao pé dele, fazer-lhe companhia. Como recompensa, quando recuperou (e como recuperou!) ofereceu-me um conjunto de colar e pulseira de ouro. A sua determinação e teimosia, características intrínsecas ao seu carácter, permitiram-lhe atingir um patamar que ninguém esperava. Dedicou-se à fisioterapia com afinco, continuando-a quando chegava a casa. Lembro-me de ter ido algumas vezes com ele (e com a minha avó, claro) à Santa Casa da Misericórdia e, com a máxima atenção, aprender os exercícios que os fisioterapeutas lhe faziam para também o poder ajudar em casa. O meu avô não só voltou a ser totalmente autónomo, como chegou a dar grandes caminhadas nas tardes de Verão que se seguiram e, inclusive, a ter autorização médica para voltar a conduzir. Quanto a este último ponto, apesar da autorização médica, não o voltou a fazer por prudência, já que perdeu a confiança na rapidez de resposta da perna direita que, na condução, é peremptória e, que, numa situação de maior perigo, poderia falhar, pondo em risco a sua vida e a dos outros. Como consequência, teve de vender o carro de que tanto gostava, embora não gostasse de conduzir. Lembro-me de ele me dizer que, se eu fosse um bocadinho mais crescida, ficava para mim. 

Este foi o pico máximo de recuperação que obteve após o AVC. Com o tempo e com o avançar da idade, o processo começou, naturalmente, a regredir, mas nem por isso o meu avô se desleixou. Continuou a fisioterapia, continuou os exercícios em casa (sendo que, quando já não os conseguia fazer de pé, os fazia sentado), continuou a pedalar diariamente na bicicleta e a dar voltas ao quarteirão, apoiado na minha avó e na bengala, continuou a dieta rígida, evitando doces e gorduras, que, dado a sua tendência para colesterol alto e sangue grosso, na sua condição vulnerável, poderiam ser fatais.

E foi assim que me habituei a ver o meu avô: um homem que não desistia, que não se conformava, que não se queixava, que dava sempre, sempre, o seu melhor, mesmo quando as circunstâncias eram tão adversas. Se calhar também é por isso que a morte dele me revoltou tanto, porque eu acreditei sempre que ele ia dar a volta por cima, como sempre havia feito até então. Ele tinha tanta força que, aos meus olhos, era praticamente imortal, por muito que os seus órgãos o estivessem a trair. Eu não quis ver e não o quis ouvir quando ele me dizia que a morte estava mais perto do que eu julgava. Eu achei que, quando ele não tivesse mais forças, eu teria forças por ele e que isso havia de ser suficiente. Eu pensei sempre com o coração, com o amor que lhe tinha e nunca o imaginei a morrer, não considerei verdadeiramente que ele podia deixar-me. Mas eu compreendo, não o censuro, nem estou triste com ele, porque sei que até um lutador, eventualmente, se cansa de lutar (e ele lutou muito!). Eu estou triste, porque ele era o melhor avô e eu o queria ter sempre comigo. Eu tenho muito, muito orgulho de ter tido o privilégio de o ter tido na minha vida.

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