Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.
Eugénio de Andrade
O meu avô era esquerdino. Quando foi para a escola, como era comum naquele tempo, obrigaram-no a aprender a escrever com a mão direita e, a partir de então, a direita impôs-se sobre a esquerda em todo o modo de viver. O meu avô tinha uma caligrafia bonita e cuidada e costumava dizer que os destros escreviam melhor, porque conseguiam ver as palavras à medida que as escreviam. Tinha os dedos longos e um bocadinho tortos, as unhas arroxeadas e veias que sobressaíam na pele. Quando ele faleceu, as mãos foram a parte do seu corpo que se manteve mais fiel à sua aparência anterior, ainda que colocadas anti-naturalmente uma sobre a outra, segurando um terço sem significado. Quando ele faleceu, foram as suas mãos que segurei e as suas mãos que receberam o meu último beijo.
Mas as mãos e, sobretudo a mão direita, como ilustra muito bem Eugénio de Andrade neste poema que adoro, são também o reflexo de uma vida de trabalho e o trabalho foi muito caro ao meu avô. Ele gostava de trabalhar e dedicava-se, porque sabia que dele dependiam os seus sonhos e os seus objectivos. O meu avô teve dois grandes objectivos na sua vida: a construção da casa dos meus avós e juntar um pé-de-meia que permitisse que a minha avó não passasse dificuldades após a sua morte (já que ele supunha que morreria primeiro dado os vinte anos de diferença entre os dois). Ambos os objectivos concretizou, com esforço, com trabalho e com algumas abdicações pelo meio, claro. O que é certo é que o meu avô pensou sempre além, sempre mais do que os seus olhos podiam alcançar no momento e essa visionação, aliada à sua inabalável determinação e ambição, permitiu-lhe alcançar tudo o que desejou e, ainda, ajudar a suprimir algumas das nossas próprias necessidades.
Quando falávamos destas suas conquistas, o orgulho era audível na sua voz e visível nos seus olhos. Faziam-se momentos de silêncio, para ele controlar a comoção que sentia, e nesses segundos o meu peito inchava também de orgulho e de admiração. Neste aspecto, o meu avô foi um exemplo incontornável para mim. Ensinou-me que é fundamental trabalhar com afinco, se queremos alguma coisa na vida, com honestidade e seriedade, mas sem deixar que nos pisem e maltratem. E deixou-me um aviso: que é mais difícil guardar o dinheiro, do que ganhá-lo. Neste momento e dada a conjuntura grave que o país atravessa, ganhá-lo também é difícil, mais difícil do que seria de esperar. Mas eu gosto de trabalhar, como boa neta do meu avô que sou, e aos poucos as oportunidades vão aparecendo. Comecei agora com um part-time e espero passar para estágio profissional. Daí que, se calhar, terei menos tempo para o blog, mas não menos tempo para pensar no meu avô. Ele está sempre presente em mim. Eu quero tornar-me uma profissional com um percurso de ascensão gradual, sustentada no mérito e no empenho, não só para concretizar os meus próprios sonhos e objectivos, mas também porque sinto que é uma forma de honrar os ensinamentos, os valores e a fé que o meu avô tinha em mim. Porque dentro do meu coração e da minha cabeça não estou sozinha a lutar: estou eu e ao meu lado está o meu avô, a orientar-me, a dar-me força. É a essa imagem que me agarro quando fico mais insegura. Ele vai estar sempre comigo e, como eu já disse uma vez, enquanto eu viver, ele viverá através de mim.
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