Pouco tempo depois de o meu avô falecer, descobri o livro Morreste-me, de José Luís Peixoto. Conhecia o autor por ter recebido o Prémio Literário José Saramago em 2001, mas nunca tinha lido nenhum dos seus livros. Em relação ao Morreste-me comecei por ler um excerto disponível na Internet e o impacto foi de tal forma extraordinário que, de repente, pude sentir a dor da perda de José Luís Peixoto e a minha própria dor pela perda do meu avô como se fossem uma única dor gigante e pungente que explodiu no meu peito. Chorei muito, tal foi o grau de identificação com aquelas palavras e senti que, naquele momento, nenhuma pessoa me compreendia melhor do que aquele escritor com quem eu nunca me havia "cruzado" antes.
Alguns dias mais tarde, a minha família ofereceu-me o livro e experienciei uma sensação idêntica à que tive quando o armador finalmente chegou à igreja, transportando o meu avô do hospital, e abriu o caixão na capela: durante muito tempo não consegui ler uma linha, embora o desejasse, assim como não consegui olhar para o meu avô ali prostrado, inerte, acinzentado, gelado: tão anti-natural e já tão longe de mim.
Cinco meses depois, consegui ler o livro (que só tem 60 páginas), mas fi-lo de forma galopante, passando pelos pontos finais como se eles nem lá estivessem. Ao lê-lo desta forma fugidia, sem dar a mim mesma muito tempo para reflectir, tentei que a dor não se infligisse, uma vez mais, sem piedade, no meu coração já magoado. E, devo dizer, que esta estratégia acabou por resultar mais ou menos.
Mas, agora, quero lá voltar e demorar-me em cada palavra e em cada frase o tempo que for necessário até conseguir suportar, no meu íntimo, o peso das emoções e dos sentimentos que aquelas páginas me obrigam a reviver. É que os momentos mais difíceis ou os momentos impossíveis, chamemos-lhes assim, visto que é como eu os entendo, eu ainda não consigo escrever sobre eles e nem sequer relembrá-los. É estranho, mas é como se o meu subconsciente erguesse barreiras à medida que tento chegar até eles, como se encontrasse uma força repulsiva qualquer que me faz desistir e desviar o pensamento para uma outra situação. Acontece-me muito quando fecho os olhos à noite, logo antes de adormecer.
Por isso, vou fazer do Morreste-me um ponto de partida. Uma nova rubrica para o blog: em cada dia uma pequena transcrição de um excerto do livro, seguida de uma reflexão minha. Sempre intercalada com outras memórias e histórias, claro.
Porque este blog vive de memórias mas é também o meu luto. Desenganem-se os que pensaram o contrário.
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