Um dos meus maiores medos, neste momento, é o esborratar da minha memória. Começar a tornar-se impreciso e dúbio na minha cabeça o som do riso do meu avô; a ferida de cor amarelada, por causa do Betadine, que marcava o lado esquerdo do seu rosto sempre que se barbeava; os dedos das mãos inclinados por causa das artrozes e a forma como ele, às vezes, os observava, esticando-os devagarinho; os olhos aguados e o tremido dos lábios sempre que se comovia. Pormenores que eram o meu avô, pormenores que me dilaceram de cada vez que os evoco. E medo, sobretudo muito medo de perdê-los, agora que nunca mais os vou voltar a ver. Nunca mais é a pior sentença de todas.
E, como recordá-lo, na sua alegria, é a única forma que temos de o resgatarmos, por um bocadinho que seja, para perto de nós, a memória torna-se um factor tão crucial neste processo. Tão crucial e tão ingrata. Diz-se que o tempo cura tudo, mas neste contexto, o tempo só estraga. Será que as pessoas dizem que com o tempo fica mais fácil porque vão perdendo gradualmente a imagem dos seus entes queridos? Espero que não, é uma ideia assustadora. Prefiro pensar que, se calhar, dizem isso, porque a vida, ao impor-se na sua obrigação de ser vivida, as foca nos outros mil e um problemas que vão surgindo no dia-a-dia, ao ponto de a pessoa que se perdeu só se atravessar nos seus pensamentos pouco antes de adormecerem. Sinceramente, não gosto de nenhuma das duas opções, embora, a acontecer, que seja a segunda.
A melhor forma de recordar acaba por ser conversar com os familiares sobre essa pessoa. Mas, enquanto umas vezes, ao relembrar, nos sentimos quase felizes de novo, nem que seja por uma fracção de segundo, outras vezes torna-se demasiado doloroso, demasiado triste, já que a sombra da morte e da perda nunca desaparece. Acho que, em parte, é por isso que escrevo. Porque às vezes, ao falar tanto sobre o meu avô, deixo a minha família triste. Por exemplo, nos primeiros dias eu sonhava com ele e, de manhã, contava à minha avó. Eram sonhos tristes, mas eu contava à mesma, precisava de contar. Até que ela me pediu para não o fazer mais.
Mas, para além de conversarmos com a nossa família e de recorrermos às fotografias, há outra coisa que, parecendo menor, torna-se importante: os objectos. As pessoas mais antigas e geralmente com menor grau de educação, são muito supersticiosas, pelo que fiquei a saber que, quando alguém morre, acreditam que não é bom ficar com as coisas dos entes queridos e, então, em poucos dias, logo depois do funeral, começam a arrumar os pertences da pessoa e a oferecer muitos deles. Isto foi uma coisa que me fez imensa confusão: eu não queria dar, nem lavar nem trocar de lugar nada que tivesse pertencido ao meu avô. Porque os objectos também dão personalidade às pessoas, os objectos remetem-nos para situações vividas. Por que é que havemos de nos desfazer deles? Se calhar, os mais antigos acreditam que os objectos nos prendem ao passado e, de certa forma, não nos permitem superar, continuar. É uma suposição, eu não sei mesmo de onde vem esta superstição. Mas se for este o motivo, eu não concordo de todo. Eu não vejo mal nenhum em guardar o que tão bem e por tanto tempo caracterizou uma pessoa e, sobretudo, que nos faz lembrar dela.
Por exemplo: os óculos de mocho do avô que ele usava para ler o jornal no café ou artigos de revistas em casa, que lhe ocupavam quase metade da cara e lhe davam um ar tão amoroso; o relógio de pulso de corda que já contava com mais de 60 anos e que o avô tinha conseguido numa loja de penhores (ele adorava aquele relógio); a bengala que já havia sido da minha bisavó e que o acompanhou nestes últimos anos; o pullover bege, a gravata vermelha, os sapatos de lona e a manta castanha que ele usava por cima dos ombros...
Tudo isto faz parte do que o meu avô foi e de como ele continua a ser dentro do meu coração. Quando penso nele, é assim que o vejo. E eu vejo-o, cá dentro, repetidamente, todos os dias, com os olhos do amor. Do amor grande que sinto por ti, avô.
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