quinta-feira, 20 de junho de 2013

Morreste-me #1

«Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida.»


Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 9-10)

A morte muda o nosso olhar sobre o que nos rodeia e, inicialmente, é muito difícil aceitar que a vida continua quando nós sentimos que ela perdeu todo o direito de continuar. É quase insultuoso observarmos que o mundo lá fora segue indiferente à nossa dor que, por maior e mais profunda que seja, parece não conseguir abarcar as outras pessoas, pouco ou nada as afectar. E só nos apetece bater-lhes, gritar-lhes aos ouvidos que já nada é nem nunca mais será igual. É uma febre de revolta, indignação, mágoa, dor, tristeza e medo que nos assalta e, no fundo, o mínimo que esperamos é que os outros a partilhem connosco. Mas a verdade é que isso não acontece e as pessoas à nossa volta continuam a rir, a dançar, a celebrar, a viver. Quando muito, disfarçam ou diminuem o tom quando nos vêem, por respeito ou compaixão. E nós começamos a afastar-nos instintivamente delas e a juntarmo-nos mais aos nossos. É assim, pelo menos, numa primeira fase.

Continuar é inevitável e não precisamos de estar sempre a ouvir frases feitas e insensíveis como "a vida continua" ou "a morte faz parte da vida". Nós sabemos perfeitamente que temos de fazer um esforço para continuar, só que não é no dia seguinte, nem no outro, nem mesmo no outro a seguir. A dor leva tempo a mitigar e há dores que nunca chegam a curar.

Quanto a mim, sinto-me como se me faltasse um prato na balança. Quando o meu avô morreu, uma parte de mim morreu com ele. Agora, é reaprender a desfrutar do que a vida ainda tem para me oferecer, da mesma forma que um amputado tem de reaprender a realizar as tarefas diárias com menos um membro. A diferença entre mim e um amputado é que eu não perdi uma perna ou um braço, mas em compensação perdi metade do coração, ainda que metaforicamente falando. E dói e é uma dor tão ou mais real do que se fosse uma amputação verdadeira.

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