sábado, 27 de julho de 2013

Dia dos Avós

Ontem foi Dia dos Avós. Tirando o Dia de Natal, o Dia da Mãe e o Dia de Mim (o dia dos meus anos), nunca dei grande importância às datas socialmente pré-definidas para assinalar algo, considerando-as até um pouco hipócritas, como o caso do Dia dos Namorados. Mas ontem, com todas as palavras e mensagens que fui lendo aqui e ali sobre este dia, foi-me crescendo um aperto no peito de tristeza e saudades do meu avô. Gostava de lhe ter desejado um "feliz dia", presenteando-o com um beijinho especial e um abraço apertado. Gostava de lhe ter dito que ele era o melhor avô que alguma neta poderia desejar. Gostava de lhe ter dito para nunca, nunca nem nos seus piores sonhos, se lembrasse de se transformar em nuvem ou estrela ou pássaro e voar para longe de mim. Gostava de lhe ter dito que ele me faz falta todos os dias, que tenho saudades da sua voz, do seu riso, da sua presença. Gostava de lhe ter dito que se eu fosse rainha do mundo, abolia este Dia dos Avós ou, melhor ainda, proibia que os avós morressem. Gostava de lhe ter dito que nunca me senti tão pequenina como agora, sem ele. Gostava de lhe ter dito que, se alguma vez tive um amigo, foi ele. E que vou gostar sempre dele e lembrá-lo com o amor, admiração e respeito que ele me merecia. 

És o melhor avô do mundo, avô.

terça-feira, 23 de julho de 2013

As mãos

Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.

Eugénio de Andrade

O meu avô era esquerdino. Quando foi para a escola, como era comum naquele tempo, obrigaram-no a aprender a escrever com a mão direita e, a partir de então, a direita impôs-se sobre a esquerda em todo o modo de viver. O meu avô tinha uma caligrafia bonita e cuidada e costumava dizer que os destros escreviam melhor, porque conseguiam ver as palavras à medida que as escreviam. Tinha os dedos longos e um bocadinho tortos, as unhas arroxeadas e veias que sobressaíam na pele. Quando ele faleceu, as mãos foram a parte do seu corpo que se manteve mais fiel à sua aparência anterior, ainda que colocadas anti-naturalmente uma sobre a outra, segurando um terço sem significado. Quando ele faleceu, foram as suas mãos que segurei e as suas mãos que receberam o meu último beijo.

Mas as mãos e, sobretudo a mão direita, como ilustra muito bem Eugénio de Andrade neste poema que adoro, são também o reflexo de uma vida de trabalho e o trabalho foi muito caro ao meu avô. Ele gostava de trabalhar e dedicava-se, porque sabia que dele dependiam os seus sonhos e os seus objectivos. O meu avô teve dois grandes objectivos na sua vida: a construção da casa dos meus avós e juntar um pé-de-meia que permitisse que a minha avó não passasse dificuldades após a sua morte (já que ele supunha que morreria primeiro dado os vinte anos de diferença entre os dois). Ambos os objectivos concretizou, com esforço, com trabalho e com algumas abdicações pelo meio, claro. O que é certo é que o meu avô pensou sempre além, sempre mais do que os seus olhos podiam alcançar no momento e essa visionação, aliada à sua inabalável determinação e ambição, permitiu-lhe alcançar tudo o que desejou e, ainda, ajudar a suprimir algumas das nossas próprias necessidades.

Quando falávamos destas suas conquistas, o orgulho era audível na sua voz e visível nos seus olhos. Faziam-se momentos de silêncio, para ele controlar a comoção que sentia, e nesses segundos o meu peito inchava também de orgulho e de admiração. Neste aspecto, o meu avô foi um exemplo incontornável para mim. Ensinou-me que é fundamental trabalhar com afinco, se queremos alguma coisa na vida, com honestidade e seriedade, mas sem deixar que nos pisem e maltratem. E deixou-me um aviso: que é mais difícil guardar o dinheiro, do que ganhá-lo. Neste momento e dada a conjuntura grave que o país atravessa, ganhá-lo também é difícil, mais difícil do que seria de esperar. Mas eu gosto de trabalhar, como boa neta do meu avô que sou, e aos poucos as oportunidades vão aparecendo. Comecei agora com um part-time e espero passar para estágio profissional. Daí que, se calhar, terei menos tempo para o blog, mas não menos tempo para pensar no meu avô. Ele está sempre presente em mim. Eu quero tornar-me uma profissional com um percurso de ascensão gradual, sustentada no mérito e no empenho, não só para concretizar os meus próprios sonhos e objectivos, mas também porque sinto que é uma forma de honrar os ensinamentos, os valores e a fé que o meu avô tinha em mim. Porque dentro do meu coração e da minha cabeça não estou sozinha a lutar: estou eu e ao meu lado está o meu avô, a orientar-me, a dar-me força. É a essa imagem que me agarro quando fico mais insegura. Ele vai estar sempre comigo e, como eu já disse uma vez, enquanto eu viver, ele viverá através de mim.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Gostar é gostar

Uma coisa que me irrita é a mania dos termos de comparação, sobretudo comparações do grau de amor e afecto que temos por uns e por outros. Dizer que eu gosto mais do meu avô do que da minha avó é mentira, assim como é mentira dizer que gosto mais da minha avó do que do meu avô. Não gosto mais nem menos, mas também não gosto da mesma maneira. A questão é: gosto deles de forma diferente porque eles são pessoas diferentes. Claro que posso ter mais afinidade com um ou com outro, identificar-me mais com uma forma de pensar de um ou de outro, mas isso nada interfere com o amor que lhes tenho.

Por exemplo, a minha avó é aquilo a que chamamos "um coração mole": é sensível, impressionável, vulnerável, sofredora, tem uma capacidade extraordinária de perdoar. Acredita que não pode dar mais do que aquilo que dá, o que não é verdade e o que a torna uma pessoa um bocadinho resignada e derrotista. Se "ofendermos" a minha avó de manhã, à tarde ela já está bem connosco e espera que a abordemos sempre com um sorriso nos lábios. Não é de conversas longas e muito intelectualizadas, mas com ela falo de flores, dos vizinhos de quem gostamos, do avô, de assuntos de meninas e trivialidades. 

Já o meu avô tinha uma personalidade mais forte e mais vincada: era sério e levava a sério as conversas sérias, era exigente consigo e com os outros, prezava a boa-educação, a honestidade e a verdade acima de tudo. Era um excelente comunicador, culto e informado. Com ele, eu podia falar da actualidade, desde política a economia ou religião. Era de ideias fixas, mas não era arrogante. Sabia ouvir, sabia aconselhar e também sabia quando se devia calar (infelizmente, pouca gente o sabe). Por outro lado, era uma pessoa um bocadinho susceptível, no sentido em que bastava uma palavra fora do lugar ou do tom para ele se ofender e, ao contrário da minha avó, muito dificilmente perdoar.

Sortuda ou não, o meu feitio aproxima-se mais do do meu avô do que do da minha avó, por isso, naturalmente eu o compreendia melhor do que compreendo a minha avó. É curioso, porque, muito embora a minha avó tenha, aparentemente, um feitio mais simples e mais maleável, não consigo atingi-la da mesma forma que o fazia com o meu avô. E, acho que isso é, muitas vezes e mesmo por ela própria, interpretado como menos amor da minha parte. E é engraçado que penso que essa ideia também passou para o meu avô que, pouco tempo antes de nos deixar, numa das tardes que fui passar com eles, me disse, quando a minha avó se ausentou da nossa companhia para ir ver a telenovela, que ela gostava muito de mim.

Mais uma vez, a questão não passa por qual dos dois gosto mais. Não tem a ver com intensidade ou com o espaço que ocupam no meu coração. Pelo menos, eu não o vejo assim. Eu gosto de cada um exactamente por aquilo que de melhor eles têm e são, e, por isso, gosto-os de forma diferente. E é isso que as pessoas têm de entender: diferente não é mau. Diferente é o que torna especial.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Morreste-me #2

«E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta do quintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e esta tarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chaves e, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa, examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. (...) Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombras finas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias? Não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne e luz ou sombra.»

Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 12-16)

No Domingo, voltámos a Fafe. A viagem fez-se silenciosa, de lágrimas silenciosas a escorrerem pelas faces da minha mãe e da minha avó. Eu fui quase todo o caminho de olhos fechados, auscultadores nos ouvidos. Abri-os por duas vezes para me deparar com as placas de direcção: Fafe. A terra que viu o meu avô ser menino, perder a mãe aos oito anos, ser rapaz, quase padre, ter lições de violino, perder o pai aos dezoito, casar pela primeira vez. A terra que foi o meu avô e agora nada.

Chegámos ao destino: bairro da Granja. Mais lágrimas, muitas lágrimas. Eu sentia-me zangada demais por dentro, por tudo e coisa nenhuma, para ter lágrimas. Às vezes, acontece-me e não quer dizer, por isso, que esteja a sofrer menos do que os que choram. Se bem que, neste caso em particular, talvez até fosse verdade, porque eu não tenho tantas recordações daqueles sítios e daquelas pessoas, quanto a minha avó e a minha mãe. Fomos ver a tia Maria. Estava deitada na cama, achei-a bonita, com melhor fisionomia do que há um ano atrás. Aquele espaço que fica entre as sobrancelhas, meias franzidas, foi o que mais me fez lembrar o meu avô. Mas já o cabelo fino, as orelhas compridas e a pele muito lisa para uma senhora de 92 anos, também são características que o meu avô partilhava.

Fomos almoçar a casa daquela sobrinha do meu avô com quem ele se dava bem. Sentaram a minha avó à cabeceira da mesa. Ao seu lado direito, um espaço vazio, prato, talheres e copo dispostos para o meu avô. Não sei se o fizeram para honrá-lo ou simplesmente para não ficar uma conta de treze pessoas à mesa. Para mim, só serviu para acentuar mais a sua ausência. Havia cabrito e vitela. A minha avó comeu um bocadinho de cabrito, com pouca vontade, pareceu-me. Ela e o meu avô adoravam o cabrito da tia Maria. Já eu, fiquei-me pela vitela assada e, uma vez mais, a vitela era avó, avô. Havias de te ter rido com vontade, eu queria ter-me rido com vontade contigo.

A meio do almoço, ouvi dizerem que onde o meu avô estava, estava muito bem. Disseram-no para apaziguar a minha avó, eu queria não ter ouvido. Ninguém sabe se onde o meu avô está, está bem ou tão-pouco se ele está em algum lado. Bem, muito bem, estaria ele, ao nosso lado, a derriçar cabrito e vitela-avó. Às vezes, fico com ciúmes por outras pessoas (que não a minha família mais chegada) se referirem ao meu avô como se o conhecessem desde sempre, melhor do que eu, como se o amassem mais do que eu (como se isso fosse possível). É um sentimento feio e egoísta, eu sei, e tento controlá-lo, mas o facto é que me sinto um bocadinho possessiva no que toca ao meu avô.

A visita terminou da mesma forma que começou: com um sentimento de desencantamento a encher-me o peito. Não é que a família não nos tenha recebido bem, porque recebeu. É só porque, para mim, era o meu avô que fazia aquele lugar, era através dos seus olhos que eu o queria conhecer. Valeu o coração da minha avó ter ficado mais sossegado. Voltar a Fafe e olhar nos olhos da tia Maria eram uma espécie de provação para ela e agora que o fizemos, penso que ganhou alguma paz de espírito. E isso é o que importa.

sábado, 13 de julho de 2013

O meu avô foi um lutador

O meu avô foi a pessoa mais determinada e com maior força de vontade que eu conheci. Só para terem uma ideia, quando teve o seu AVC, que lhe paralisou todo o lado direito e que havia de condicionar a sua vida para sempre, ficou totalmente dependente dos outros, quer para se alimentar, quer para cuidar da sua higiene pessoal. Quando voltou do hospital e durante muito tempo, esteve deitado numa maca que foi colocada no quarto de casal que, naquela altura, era o dos meus avós. Eu andava na Primária e quando voltava da escola, ao contrário das outras crianças, não ia brincar lá para fora, ia sentar-me ao pé dele, fazer-lhe companhia. Como recompensa, quando recuperou (e como recuperou!) ofereceu-me um conjunto de colar e pulseira de ouro. A sua determinação e teimosia, características intrínsecas ao seu carácter, permitiram-lhe atingir um patamar que ninguém esperava. Dedicou-se à fisioterapia com afinco, continuando-a quando chegava a casa. Lembro-me de ter ido algumas vezes com ele (e com a minha avó, claro) à Santa Casa da Misericórdia e, com a máxima atenção, aprender os exercícios que os fisioterapeutas lhe faziam para também o poder ajudar em casa. O meu avô não só voltou a ser totalmente autónomo, como chegou a dar grandes caminhadas nas tardes de Verão que se seguiram e, inclusive, a ter autorização médica para voltar a conduzir. Quanto a este último ponto, apesar da autorização médica, não o voltou a fazer por prudência, já que perdeu a confiança na rapidez de resposta da perna direita que, na condução, é peremptória e, que, numa situação de maior perigo, poderia falhar, pondo em risco a sua vida e a dos outros. Como consequência, teve de vender o carro de que tanto gostava, embora não gostasse de conduzir. Lembro-me de ele me dizer que, se eu fosse um bocadinho mais crescida, ficava para mim. 

Este foi o pico máximo de recuperação que obteve após o AVC. Com o tempo e com o avançar da idade, o processo começou, naturalmente, a regredir, mas nem por isso o meu avô se desleixou. Continuou a fisioterapia, continuou os exercícios em casa (sendo que, quando já não os conseguia fazer de pé, os fazia sentado), continuou a pedalar diariamente na bicicleta e a dar voltas ao quarteirão, apoiado na minha avó e na bengala, continuou a dieta rígida, evitando doces e gorduras, que, dado a sua tendência para colesterol alto e sangue grosso, na sua condição vulnerável, poderiam ser fatais.

E foi assim que me habituei a ver o meu avô: um homem que não desistia, que não se conformava, que não se queixava, que dava sempre, sempre, o seu melhor, mesmo quando as circunstâncias eram tão adversas. Se calhar também é por isso que a morte dele me revoltou tanto, porque eu acreditei sempre que ele ia dar a volta por cima, como sempre havia feito até então. Ele tinha tanta força que, aos meus olhos, era praticamente imortal, por muito que os seus órgãos o estivessem a trair. Eu não quis ver e não o quis ouvir quando ele me dizia que a morte estava mais perto do que eu julgava. Eu achei que, quando ele não tivesse mais forças, eu teria forças por ele e que isso havia de ser suficiente. Eu pensei sempre com o coração, com o amor que lhe tinha e nunca o imaginei a morrer, não considerei verdadeiramente que ele podia deixar-me. Mas eu compreendo, não o censuro, nem estou triste com ele, porque sei que até um lutador, eventualmente, se cansa de lutar (e ele lutou muito!). Eu estou triste, porque ele era o melhor avô e eu o queria ter sempre comigo. Eu tenho muito, muito orgulho de ter tido o privilégio de o ter tido na minha vida.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma lupa, um buda e cartas de amor

Ontem, estive em casa dos meus avós. Nestes últimos dias, a minha avó tem andado atarefada com algumas remodelações e limpezas maiores lá por casa, nomeadamente no terraço e no quintal, pelo que aproveitou a minha presença para me pedir que fosse à garagem ver se algum artigo do meu avô me interessava ou se podia deitar ao lixo. Ela referia-se sobretudo a um monte de revistas (algumas que eu própria tinha levado para ele e que ele havia guardado, como eu já vos havia referido num post anterior que era seu hábito fazê-lo quando continham algum artigo que considerava interessante). Dei uma vista de olhos às páginas que ele havia assinalado com números trémulos nas capas e eram sobretudo artigos de carácter religioso e as rubricas de "O Sexo e a Cidália", que ele achava especialmente divertidas. Acabei por convencer a minha avó a guardar as revistas todas numa prateleira do móvel das moedas.

Entretanto, pousada num dos sofás empoeirados, jazia a velha lupa preta do meu avô que, durante a minha infância, ele tinha utilizado para me mostrar como, apontando-a para o sol, começava a queimar uma folha branca que ele colocava sob ela, que nem um truque de magia. E, em cima do gira-discos que já nem funciona e vai acabar na sucata, descobri um buda pequenino que me fez sorrir muito por dentro, porque quando o vi, despertou em mim, espontaneamente, uma memória de uma vez em que o meu avô esteve no hospital (não me lembro qual o motivo), era eu pequenina, e lhe levar aquele mesmo buda (que não faço ideia onde o fui buscar), colocando-o na sua mesinha-de-cabeceira, como uma espécie de presente para ele ficar bom depressa. Agarrei naquele pequeno objecto simbólico com carinho, mostrei-o à minha avó e perguntei-lhe se ela se lembrava disto. Ela disse-me que não. Quando cheguei a minha casa, mostrei-o, desta vez, à minha mãe e ela também me disse que não se lembrava. Mas eu lembro-me e o facto é que, ao fim de tantos anos, ele ainda andava por lá, pelo que decidi trazê-lo comigo. Pode ser que me "dê sorte", assim como "deu sorte" ao meu avô, já que ele, na altura, recuperou do seu problema de saúde.

O último momento especial da tarde foi quando a minha avó encontrou, dentro de uma mala de viagem que guardava o seu vestido de casamento (que eu nunca tinha visto), um saquinho transparente amarrado com uma fita vermelha, contendo as cartas de amor que os meus avós haviam trocado entre si, nos tempos de namoro. Fiquei encantada, mesmo só tendo lido uns bocadinhos de algumas delas, palavras tão sentidas de amor verdadeiro, palavras redondinhas escritas à mão pela minha avó para o meu avô e dactilografadas do meu avô para a minha avó, revelando o desejo de ambos de se poderem ver aos domingos e as saudades que apertavam até estes finalmente chegarem. Claro que a minha avó acabou por só conseguir ler algumas linhas, já que a dor se tornou demasiado grande para caber no peito e não rebentar nos olhos, e eu também não insisti nem lhe pedi para as continuar a ler sem ela, porque entendo que é uma coisa muito íntima e que só aos dois diz respeito (embora vontade não me faltasse, tenho de confessar).

Era isto que vos queria contar ontem e não consegui. Deixo-vos com uma fotografia que tirei ao meu mais recente "buda da sorte":



Boa noite.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Se ele pudesse, se eu pudesse

No olhar do meu avô eu reconhecia o orgulho que ele sentia em mim. Ele nunca mo disse expressamente e também nunca foi preciso. Eu via e sentia-o e isso incentivava-me a tentar ser cada vez melhor, porque sabia que estaria alguém à minha espera para compartilhar o meu triunfo, para me ouvir e para me aconselhar. Era a única pessoa que me fazia sentir desta maneira e eu perdi-o. E agora não tenho ninguém para quem correr a contar uma novidade boa, alguém que eu sinta que o queira verdadeiramente saber, como acontecia com ele e isso deixa-me tão triste, tão profundamente triste. E não adianta ir ao cemitério ajoelhar-me na sua lápide fria cinzenta-escura ou pegar num dos seus retratos e pôr-me a falar para o ar, porque ele não me responde, não agarra nos meus braços para me encorajar, não me devolve o olhar com aqueles olhos brilhantes emocionados. Eu preciso do meu avô. Dele, inteiro, vivo. Eu preciso dele, eu quero-o tanto de volta! Eu não consigo dizer a falta que ele me faz. E eu tenho a certeza que ele quer tanto voltar como eu quero que ele volte. Se ele pudesse, se eu pudesse. Se eu pudesse fazer qualquer coisa, qualquer coisa!

P.S.: Não era nada disto que eu tinha em mente para escrever. Mas não podia ser mais verdadeiro. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Visita a Fafe (Julho de 2012)

O meu avô era natural de Fafe e daqui a quatro dias faz precisamente um ano em que lá fomos com o intuito de visitar uma das suas irmãs que estava doente. Logo de manhã, quando fomos buscar os meus avós a casa, se dúvidas tivéssemos quanto à importância daquela ida a Fafe para o meu avô, desapareceriam assim que lhe pusémos a vista em cima, quando apareceu ao portão, com o braço direito dado à minha avó e apoiado na bengala com o braço esquerdo, todo janota de fato e gravata, como eu já não o via há vários anos. Saí do carro para lhes dar um beijinho de bom-dia e até brinquei com ele, dizendo-lhe que até parecia mal eu ir vestida da forma que ía comparada à sua fatiota.

Estava um dia bonito e a viagem foi relativamente rápida, com o meu avô a inclinar-se progressivamente para o lado do condutor, tendência que ele havia desenvolvido de há uns anos para cá, fruto das mazelas que ficaram e se foram agravando de um AVC que o atingiu há sensivelmente 14 anos. Ele estava desejoso por chegar e eu também estava animada por conhecer o lugar onde ele havia vivido e crescido, palco das histórias que ele tantas vezes me contava.

Uma hora e meia depois, chegámos então à casa da tia Maria, na altura uma dos quatro irmãos, incluindo o meu avô, que ainda estavam vivos (no total, foram nove irmãos) e que era a irmã que tão bem cozinhava o cabrito assado aos domingos que o meu avô simplesmente adorava. Ela estava (e ainda está) muito debilitada e não conseguiu falar, mas penso que o reconheceu, já que uma lágrima lhe escorreu pelo rosto quando o viu e ele falou com ela. 

Estivémos lá durante algum tempo e depois fomos dar uma volta à vila, onde encontrámos uma outra irmã do meu avô, a tia Ana, a quem ele, na brincadeira chamou Rosa, levando-a a concluir que ele já não estava no seu perfeito juízo. A tia Ana ficou tão contente de nos ver, que tagarelou imenso, pelo que, quando nos disse que por dia dava 30 voltas a pé e que, só naquele dia, já tinha dado 25, o meu avô, maroto, lhe disse para ela ir dar as 5 que faltavam, porque já estávamos a ficar atrasados para o almoço. Só de me lembrar já me estou a rir, mas esta não foi a sua única graçola do dia, esperem que já vos conto.

Quando finalmente nos despedimos da tia Ana, fomos visitar uma das antigas paixões do meu avô, uma senhora por quem ele ainda nutria forte amizade. Estiveram a pôr a conversa em dia (ele, a minha avó e a tal senhora) e, já no final, maroto a dobrar, o meu avô não resistiu a perguntar-lhe se não merecia nada, deixando-nos a todos um bocadinho sem jeito, ao que esta lhe respondeu com dois beijinhos na cara.

Continuámos a nossa visita à vila que, segundo o meu avô, estava tão diferente que já nem a conhecia, e ainda encontrámos outros conhecidos (para mim, desconhecidos) que vieram cumprimentar o meu avô.

Chegada a hora de almoço, voltámos a casa da tia Maria. Sentámo-nos à mesa, o meu avô a uma das cabeceiras, comigo do seu lado direito, e começámos a degustar a vitela assada que a família havia encomendado. Tudo corria bem até uma das sobrinhas do meu avô, com quem, eu fiquei a saber, ele se dava particularmente bem, lhe perguntar "Tio, a vitela está boa?", ao que ele respondeu seriamente "Para ser avó, está muito boa". Em segundos, eu e o meu avô cruzámos o olhar e desatámo-nos a rir, a rir, a rir sem conseguirmos parar. Aquele momento foi de tal forma hilariante, com toda a família em silêncio à espera da resposta do meu avô, esperando tudo menos aquela inusitada que ele deu, que, ainda hoje, quando o relembrávamos nas nossas conversas, nos ríamos imenso. Depois disto, o almoço decorreu normalmente, pelo menos até à hora do café. 

O meu avô estava tão bem-disposto e revigorado, que se sentiu com força para ir tomar o café fora de casa, se eu também fosse. Claro que eu fui e, uma vez mais, a tal sobrinha que tinha perguntado se a vitela estava boa, desta vez, lembrou-se de perguntar se o café estava bom. E o meu avô não tem mais nada: "O melhor do café é o que está lá dentro... o açúcar." Pronto, desatámo-nos a rir outra vez, comigo a exclamar, num tom de censura pouco convincente, "Ohh, vô! Ohh, vô!".

A nossa visita deu-se por terminada, não antes de eu tirar uma fotografia com os meus avós, a última fotografia que tenho do meu avô e com ele, e que partilho agora convosco:


Quando olho para ela, só me lembro do quanto ele estava feliz naquele dia e juro que, às vezes, até me parece que ele está a sorrir para mim.