quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma lupa, um buda e cartas de amor

Ontem, estive em casa dos meus avós. Nestes últimos dias, a minha avó tem andado atarefada com algumas remodelações e limpezas maiores lá por casa, nomeadamente no terraço e no quintal, pelo que aproveitou a minha presença para me pedir que fosse à garagem ver se algum artigo do meu avô me interessava ou se podia deitar ao lixo. Ela referia-se sobretudo a um monte de revistas (algumas que eu própria tinha levado para ele e que ele havia guardado, como eu já vos havia referido num post anterior que era seu hábito fazê-lo quando continham algum artigo que considerava interessante). Dei uma vista de olhos às páginas que ele havia assinalado com números trémulos nas capas e eram sobretudo artigos de carácter religioso e as rubricas de "O Sexo e a Cidália", que ele achava especialmente divertidas. Acabei por convencer a minha avó a guardar as revistas todas numa prateleira do móvel das moedas.

Entretanto, pousada num dos sofás empoeirados, jazia a velha lupa preta do meu avô que, durante a minha infância, ele tinha utilizado para me mostrar como, apontando-a para o sol, começava a queimar uma folha branca que ele colocava sob ela, que nem um truque de magia. E, em cima do gira-discos que já nem funciona e vai acabar na sucata, descobri um buda pequenino que me fez sorrir muito por dentro, porque quando o vi, despertou em mim, espontaneamente, uma memória de uma vez em que o meu avô esteve no hospital (não me lembro qual o motivo), era eu pequenina, e lhe levar aquele mesmo buda (que não faço ideia onde o fui buscar), colocando-o na sua mesinha-de-cabeceira, como uma espécie de presente para ele ficar bom depressa. Agarrei naquele pequeno objecto simbólico com carinho, mostrei-o à minha avó e perguntei-lhe se ela se lembrava disto. Ela disse-me que não. Quando cheguei a minha casa, mostrei-o, desta vez, à minha mãe e ela também me disse que não se lembrava. Mas eu lembro-me e o facto é que, ao fim de tantos anos, ele ainda andava por lá, pelo que decidi trazê-lo comigo. Pode ser que me "dê sorte", assim como "deu sorte" ao meu avô, já que ele, na altura, recuperou do seu problema de saúde.

O último momento especial da tarde foi quando a minha avó encontrou, dentro de uma mala de viagem que guardava o seu vestido de casamento (que eu nunca tinha visto), um saquinho transparente amarrado com uma fita vermelha, contendo as cartas de amor que os meus avós haviam trocado entre si, nos tempos de namoro. Fiquei encantada, mesmo só tendo lido uns bocadinhos de algumas delas, palavras tão sentidas de amor verdadeiro, palavras redondinhas escritas à mão pela minha avó para o meu avô e dactilografadas do meu avô para a minha avó, revelando o desejo de ambos de se poderem ver aos domingos e as saudades que apertavam até estes finalmente chegarem. Claro que a minha avó acabou por só conseguir ler algumas linhas, já que a dor se tornou demasiado grande para caber no peito e não rebentar nos olhos, e eu também não insisti nem lhe pedi para as continuar a ler sem ela, porque entendo que é uma coisa muito íntima e que só aos dois diz respeito (embora vontade não me faltasse, tenho de confessar).

Era isto que vos queria contar ontem e não consegui. Deixo-vos com uma fotografia que tirei ao meu mais recente "buda da sorte":



Boa noite.

4 comentários:

  1. não imagino o que é perder alguém que nos seja tão próximo, não imagino a tua dor. porém imagino que escrever estas coisas seja, em parte, doloroso mas é também, sem dúvida, uma grande prova de amor para com o teu avô. e fico feliz por teres criado algo que te permite relembrá-lo e, de certa forma, homenageá-lo porque é um prazer que tenhas permitido à blogosfera ficar a conhecer esse maravilhoso ser que parece ser o teu avô.

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    1. Antes do meu avô, nunca tinha perdido alguém que fosse assim importante para mim e às vezes dava comigo a pensar o quanto era sortuda por saber que todos os que eu amava estavam bem.

      É uma dor impossível a perda dele, tanto que, às vezes, quero escrever e não consigo. Mas, quando consigo, faço-o, porque me faz feliz relembrá-lo e para ter a certeza de que não perco as memórias também felizes que ele me deixou.

      Obrigada pela tua visita e pelas tuas palavras, Joana. És sempre bem-vinda a este espaço :)

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  2. Há passagens na nossa Vida que ficam tatuadas em nós para sempre querida e a prova está aqui....foi um recordar de momentos únicos vividos com muito Amor Carinho e Dedicação e alguma Cumplicidade entre Avô e Neta e que deixam as marcas no tempo e nos objectos por vós trocados no momento e agora encontrados...que seja mesmo o Buda da Sorte com um significado bem maior...a Presença do teu Mais que tudo..Teu Avô...que te acompanhe sempre por onde quer que possas andar querida....beijinhos amo teu Blog.

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