sábado, 27 de julho de 2013

Dia dos Avós

Ontem foi Dia dos Avós. Tirando o Dia de Natal, o Dia da Mãe e o Dia de Mim (o dia dos meus anos), nunca dei grande importância às datas socialmente pré-definidas para assinalar algo, considerando-as até um pouco hipócritas, como o caso do Dia dos Namorados. Mas ontem, com todas as palavras e mensagens que fui lendo aqui e ali sobre este dia, foi-me crescendo um aperto no peito de tristeza e saudades do meu avô. Gostava de lhe ter desejado um "feliz dia", presenteando-o com um beijinho especial e um abraço apertado. Gostava de lhe ter dito que ele era o melhor avô que alguma neta poderia desejar. Gostava de lhe ter dito para nunca, nunca nem nos seus piores sonhos, se lembrasse de se transformar em nuvem ou estrela ou pássaro e voar para longe de mim. Gostava de lhe ter dito que ele me faz falta todos os dias, que tenho saudades da sua voz, do seu riso, da sua presença. Gostava de lhe ter dito que se eu fosse rainha do mundo, abolia este Dia dos Avós ou, melhor ainda, proibia que os avós morressem. Gostava de lhe ter dito que nunca me senti tão pequenina como agora, sem ele. Gostava de lhe ter dito que, se alguma vez tive um amigo, foi ele. E que vou gostar sempre dele e lembrá-lo com o amor, admiração e respeito que ele me merecia. 

És o melhor avô do mundo, avô.

terça-feira, 23 de julho de 2013

As mãos

Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.

Eugénio de Andrade

O meu avô era esquerdino. Quando foi para a escola, como era comum naquele tempo, obrigaram-no a aprender a escrever com a mão direita e, a partir de então, a direita impôs-se sobre a esquerda em todo o modo de viver. O meu avô tinha uma caligrafia bonita e cuidada e costumava dizer que os destros escreviam melhor, porque conseguiam ver as palavras à medida que as escreviam. Tinha os dedos longos e um bocadinho tortos, as unhas arroxeadas e veias que sobressaíam na pele. Quando ele faleceu, as mãos foram a parte do seu corpo que se manteve mais fiel à sua aparência anterior, ainda que colocadas anti-naturalmente uma sobre a outra, segurando um terço sem significado. Quando ele faleceu, foram as suas mãos que segurei e as suas mãos que receberam o meu último beijo.

Mas as mãos e, sobretudo a mão direita, como ilustra muito bem Eugénio de Andrade neste poema que adoro, são também o reflexo de uma vida de trabalho e o trabalho foi muito caro ao meu avô. Ele gostava de trabalhar e dedicava-se, porque sabia que dele dependiam os seus sonhos e os seus objectivos. O meu avô teve dois grandes objectivos na sua vida: a construção da casa dos meus avós e juntar um pé-de-meia que permitisse que a minha avó não passasse dificuldades após a sua morte (já que ele supunha que morreria primeiro dado os vinte anos de diferença entre os dois). Ambos os objectivos concretizou, com esforço, com trabalho e com algumas abdicações pelo meio, claro. O que é certo é que o meu avô pensou sempre além, sempre mais do que os seus olhos podiam alcançar no momento e essa visionação, aliada à sua inabalável determinação e ambição, permitiu-lhe alcançar tudo o que desejou e, ainda, ajudar a suprimir algumas das nossas próprias necessidades.

Quando falávamos destas suas conquistas, o orgulho era audível na sua voz e visível nos seus olhos. Faziam-se momentos de silêncio, para ele controlar a comoção que sentia, e nesses segundos o meu peito inchava também de orgulho e de admiração. Neste aspecto, o meu avô foi um exemplo incontornável para mim. Ensinou-me que é fundamental trabalhar com afinco, se queremos alguma coisa na vida, com honestidade e seriedade, mas sem deixar que nos pisem e maltratem. E deixou-me um aviso: que é mais difícil guardar o dinheiro, do que ganhá-lo. Neste momento e dada a conjuntura grave que o país atravessa, ganhá-lo também é difícil, mais difícil do que seria de esperar. Mas eu gosto de trabalhar, como boa neta do meu avô que sou, e aos poucos as oportunidades vão aparecendo. Comecei agora com um part-time e espero passar para estágio profissional. Daí que, se calhar, terei menos tempo para o blog, mas não menos tempo para pensar no meu avô. Ele está sempre presente em mim. Eu quero tornar-me uma profissional com um percurso de ascensão gradual, sustentada no mérito e no empenho, não só para concretizar os meus próprios sonhos e objectivos, mas também porque sinto que é uma forma de honrar os ensinamentos, os valores e a fé que o meu avô tinha em mim. Porque dentro do meu coração e da minha cabeça não estou sozinha a lutar: estou eu e ao meu lado está o meu avô, a orientar-me, a dar-me força. É a essa imagem que me agarro quando fico mais insegura. Ele vai estar sempre comigo e, como eu já disse uma vez, enquanto eu viver, ele viverá através de mim.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Gostar é gostar

Uma coisa que me irrita é a mania dos termos de comparação, sobretudo comparações do grau de amor e afecto que temos por uns e por outros. Dizer que eu gosto mais do meu avô do que da minha avó é mentira, assim como é mentira dizer que gosto mais da minha avó do que do meu avô. Não gosto mais nem menos, mas também não gosto da mesma maneira. A questão é: gosto deles de forma diferente porque eles são pessoas diferentes. Claro que posso ter mais afinidade com um ou com outro, identificar-me mais com uma forma de pensar de um ou de outro, mas isso nada interfere com o amor que lhes tenho.

Por exemplo, a minha avó é aquilo a que chamamos "um coração mole": é sensível, impressionável, vulnerável, sofredora, tem uma capacidade extraordinária de perdoar. Acredita que não pode dar mais do que aquilo que dá, o que não é verdade e o que a torna uma pessoa um bocadinho resignada e derrotista. Se "ofendermos" a minha avó de manhã, à tarde ela já está bem connosco e espera que a abordemos sempre com um sorriso nos lábios. Não é de conversas longas e muito intelectualizadas, mas com ela falo de flores, dos vizinhos de quem gostamos, do avô, de assuntos de meninas e trivialidades. 

Já o meu avô tinha uma personalidade mais forte e mais vincada: era sério e levava a sério as conversas sérias, era exigente consigo e com os outros, prezava a boa-educação, a honestidade e a verdade acima de tudo. Era um excelente comunicador, culto e informado. Com ele, eu podia falar da actualidade, desde política a economia ou religião. Era de ideias fixas, mas não era arrogante. Sabia ouvir, sabia aconselhar e também sabia quando se devia calar (infelizmente, pouca gente o sabe). Por outro lado, era uma pessoa um bocadinho susceptível, no sentido em que bastava uma palavra fora do lugar ou do tom para ele se ofender e, ao contrário da minha avó, muito dificilmente perdoar.

Sortuda ou não, o meu feitio aproxima-se mais do do meu avô do que do da minha avó, por isso, naturalmente eu o compreendia melhor do que compreendo a minha avó. É curioso, porque, muito embora a minha avó tenha, aparentemente, um feitio mais simples e mais maleável, não consigo atingi-la da mesma forma que o fazia com o meu avô. E, acho que isso é, muitas vezes e mesmo por ela própria, interpretado como menos amor da minha parte. E é engraçado que penso que essa ideia também passou para o meu avô que, pouco tempo antes de nos deixar, numa das tardes que fui passar com eles, me disse, quando a minha avó se ausentou da nossa companhia para ir ver a telenovela, que ela gostava muito de mim.

Mais uma vez, a questão não passa por qual dos dois gosto mais. Não tem a ver com intensidade ou com o espaço que ocupam no meu coração. Pelo menos, eu não o vejo assim. Eu gosto de cada um exactamente por aquilo que de melhor eles têm e são, e, por isso, gosto-os de forma diferente. E é isso que as pessoas têm de entender: diferente não é mau. Diferente é o que torna especial.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Morreste-me #2

«E esta tarde, e esta terra agora cruel. Na nossa rua, a nossa casa. A porta do quintal parada à minha frente, fechada, desafiante. Dizia nunca esquecerei, e esta tarde lembrei-me. Com os teus movimentos, tirei do bolso o teu molho de chaves e, como costumavas, usei todos os cuidados para escolher a chave certa, examinando cada uma, orgulhando-me de cada uma. (...) Entrei em casa. Apenas a lareira fria, as janelas fechadas a moldarem sombras finas no escuro. Do silêncio, da penumbra, um crescer de espectros, memórias? Não, vultos que se recusavam a ser memórias, ou talvez uma mistura de carne e luz ou sombra.»

Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 12-16)

No Domingo, voltámos a Fafe. A viagem fez-se silenciosa, de lágrimas silenciosas a escorrerem pelas faces da minha mãe e da minha avó. Eu fui quase todo o caminho de olhos fechados, auscultadores nos ouvidos. Abri-os por duas vezes para me deparar com as placas de direcção: Fafe. A terra que viu o meu avô ser menino, perder a mãe aos oito anos, ser rapaz, quase padre, ter lições de violino, perder o pai aos dezoito, casar pela primeira vez. A terra que foi o meu avô e agora nada.

Chegámos ao destino: bairro da Granja. Mais lágrimas, muitas lágrimas. Eu sentia-me zangada demais por dentro, por tudo e coisa nenhuma, para ter lágrimas. Às vezes, acontece-me e não quer dizer, por isso, que esteja a sofrer menos do que os que choram. Se bem que, neste caso em particular, talvez até fosse verdade, porque eu não tenho tantas recordações daqueles sítios e daquelas pessoas, quanto a minha avó e a minha mãe. Fomos ver a tia Maria. Estava deitada na cama, achei-a bonita, com melhor fisionomia do que há um ano atrás. Aquele espaço que fica entre as sobrancelhas, meias franzidas, foi o que mais me fez lembrar o meu avô. Mas já o cabelo fino, as orelhas compridas e a pele muito lisa para uma senhora de 92 anos, também são características que o meu avô partilhava.

Fomos almoçar a casa daquela sobrinha do meu avô com quem ele se dava bem. Sentaram a minha avó à cabeceira da mesa. Ao seu lado direito, um espaço vazio, prato, talheres e copo dispostos para o meu avô. Não sei se o fizeram para honrá-lo ou simplesmente para não ficar uma conta de treze pessoas à mesa. Para mim, só serviu para acentuar mais a sua ausência. Havia cabrito e vitela. A minha avó comeu um bocadinho de cabrito, com pouca vontade, pareceu-me. Ela e o meu avô adoravam o cabrito da tia Maria. Já eu, fiquei-me pela vitela assada e, uma vez mais, a vitela era avó, avô. Havias de te ter rido com vontade, eu queria ter-me rido com vontade contigo.

A meio do almoço, ouvi dizerem que onde o meu avô estava, estava muito bem. Disseram-no para apaziguar a minha avó, eu queria não ter ouvido. Ninguém sabe se onde o meu avô está, está bem ou tão-pouco se ele está em algum lado. Bem, muito bem, estaria ele, ao nosso lado, a derriçar cabrito e vitela-avó. Às vezes, fico com ciúmes por outras pessoas (que não a minha família mais chegada) se referirem ao meu avô como se o conhecessem desde sempre, melhor do que eu, como se o amassem mais do que eu (como se isso fosse possível). É um sentimento feio e egoísta, eu sei, e tento controlá-lo, mas o facto é que me sinto um bocadinho possessiva no que toca ao meu avô.

A visita terminou da mesma forma que começou: com um sentimento de desencantamento a encher-me o peito. Não é que a família não nos tenha recebido bem, porque recebeu. É só porque, para mim, era o meu avô que fazia aquele lugar, era através dos seus olhos que eu o queria conhecer. Valeu o coração da minha avó ter ficado mais sossegado. Voltar a Fafe e olhar nos olhos da tia Maria eram uma espécie de provação para ela e agora que o fizemos, penso que ganhou alguma paz de espírito. E isso é o que importa.

sábado, 13 de julho de 2013

O meu avô foi um lutador

O meu avô foi a pessoa mais determinada e com maior força de vontade que eu conheci. Só para terem uma ideia, quando teve o seu AVC, que lhe paralisou todo o lado direito e que havia de condicionar a sua vida para sempre, ficou totalmente dependente dos outros, quer para se alimentar, quer para cuidar da sua higiene pessoal. Quando voltou do hospital e durante muito tempo, esteve deitado numa maca que foi colocada no quarto de casal que, naquela altura, era o dos meus avós. Eu andava na Primária e quando voltava da escola, ao contrário das outras crianças, não ia brincar lá para fora, ia sentar-me ao pé dele, fazer-lhe companhia. Como recompensa, quando recuperou (e como recuperou!) ofereceu-me um conjunto de colar e pulseira de ouro. A sua determinação e teimosia, características intrínsecas ao seu carácter, permitiram-lhe atingir um patamar que ninguém esperava. Dedicou-se à fisioterapia com afinco, continuando-a quando chegava a casa. Lembro-me de ter ido algumas vezes com ele (e com a minha avó, claro) à Santa Casa da Misericórdia e, com a máxima atenção, aprender os exercícios que os fisioterapeutas lhe faziam para também o poder ajudar em casa. O meu avô não só voltou a ser totalmente autónomo, como chegou a dar grandes caminhadas nas tardes de Verão que se seguiram e, inclusive, a ter autorização médica para voltar a conduzir. Quanto a este último ponto, apesar da autorização médica, não o voltou a fazer por prudência, já que perdeu a confiança na rapidez de resposta da perna direita que, na condução, é peremptória e, que, numa situação de maior perigo, poderia falhar, pondo em risco a sua vida e a dos outros. Como consequência, teve de vender o carro de que tanto gostava, embora não gostasse de conduzir. Lembro-me de ele me dizer que, se eu fosse um bocadinho mais crescida, ficava para mim. 

Este foi o pico máximo de recuperação que obteve após o AVC. Com o tempo e com o avançar da idade, o processo começou, naturalmente, a regredir, mas nem por isso o meu avô se desleixou. Continuou a fisioterapia, continuou os exercícios em casa (sendo que, quando já não os conseguia fazer de pé, os fazia sentado), continuou a pedalar diariamente na bicicleta e a dar voltas ao quarteirão, apoiado na minha avó e na bengala, continuou a dieta rígida, evitando doces e gorduras, que, dado a sua tendência para colesterol alto e sangue grosso, na sua condição vulnerável, poderiam ser fatais.

E foi assim que me habituei a ver o meu avô: um homem que não desistia, que não se conformava, que não se queixava, que dava sempre, sempre, o seu melhor, mesmo quando as circunstâncias eram tão adversas. Se calhar também é por isso que a morte dele me revoltou tanto, porque eu acreditei sempre que ele ia dar a volta por cima, como sempre havia feito até então. Ele tinha tanta força que, aos meus olhos, era praticamente imortal, por muito que os seus órgãos o estivessem a trair. Eu não quis ver e não o quis ouvir quando ele me dizia que a morte estava mais perto do que eu julgava. Eu achei que, quando ele não tivesse mais forças, eu teria forças por ele e que isso havia de ser suficiente. Eu pensei sempre com o coração, com o amor que lhe tinha e nunca o imaginei a morrer, não considerei verdadeiramente que ele podia deixar-me. Mas eu compreendo, não o censuro, nem estou triste com ele, porque sei que até um lutador, eventualmente, se cansa de lutar (e ele lutou muito!). Eu estou triste, porque ele era o melhor avô e eu o queria ter sempre comigo. Eu tenho muito, muito orgulho de ter tido o privilégio de o ter tido na minha vida.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma lupa, um buda e cartas de amor

Ontem, estive em casa dos meus avós. Nestes últimos dias, a minha avó tem andado atarefada com algumas remodelações e limpezas maiores lá por casa, nomeadamente no terraço e no quintal, pelo que aproveitou a minha presença para me pedir que fosse à garagem ver se algum artigo do meu avô me interessava ou se podia deitar ao lixo. Ela referia-se sobretudo a um monte de revistas (algumas que eu própria tinha levado para ele e que ele havia guardado, como eu já vos havia referido num post anterior que era seu hábito fazê-lo quando continham algum artigo que considerava interessante). Dei uma vista de olhos às páginas que ele havia assinalado com números trémulos nas capas e eram sobretudo artigos de carácter religioso e as rubricas de "O Sexo e a Cidália", que ele achava especialmente divertidas. Acabei por convencer a minha avó a guardar as revistas todas numa prateleira do móvel das moedas.

Entretanto, pousada num dos sofás empoeirados, jazia a velha lupa preta do meu avô que, durante a minha infância, ele tinha utilizado para me mostrar como, apontando-a para o sol, começava a queimar uma folha branca que ele colocava sob ela, que nem um truque de magia. E, em cima do gira-discos que já nem funciona e vai acabar na sucata, descobri um buda pequenino que me fez sorrir muito por dentro, porque quando o vi, despertou em mim, espontaneamente, uma memória de uma vez em que o meu avô esteve no hospital (não me lembro qual o motivo), era eu pequenina, e lhe levar aquele mesmo buda (que não faço ideia onde o fui buscar), colocando-o na sua mesinha-de-cabeceira, como uma espécie de presente para ele ficar bom depressa. Agarrei naquele pequeno objecto simbólico com carinho, mostrei-o à minha avó e perguntei-lhe se ela se lembrava disto. Ela disse-me que não. Quando cheguei a minha casa, mostrei-o, desta vez, à minha mãe e ela também me disse que não se lembrava. Mas eu lembro-me e o facto é que, ao fim de tantos anos, ele ainda andava por lá, pelo que decidi trazê-lo comigo. Pode ser que me "dê sorte", assim como "deu sorte" ao meu avô, já que ele, na altura, recuperou do seu problema de saúde.

O último momento especial da tarde foi quando a minha avó encontrou, dentro de uma mala de viagem que guardava o seu vestido de casamento (que eu nunca tinha visto), um saquinho transparente amarrado com uma fita vermelha, contendo as cartas de amor que os meus avós haviam trocado entre si, nos tempos de namoro. Fiquei encantada, mesmo só tendo lido uns bocadinhos de algumas delas, palavras tão sentidas de amor verdadeiro, palavras redondinhas escritas à mão pela minha avó para o meu avô e dactilografadas do meu avô para a minha avó, revelando o desejo de ambos de se poderem ver aos domingos e as saudades que apertavam até estes finalmente chegarem. Claro que a minha avó acabou por só conseguir ler algumas linhas, já que a dor se tornou demasiado grande para caber no peito e não rebentar nos olhos, e eu também não insisti nem lhe pedi para as continuar a ler sem ela, porque entendo que é uma coisa muito íntima e que só aos dois diz respeito (embora vontade não me faltasse, tenho de confessar).

Era isto que vos queria contar ontem e não consegui. Deixo-vos com uma fotografia que tirei ao meu mais recente "buda da sorte":



Boa noite.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Se ele pudesse, se eu pudesse

No olhar do meu avô eu reconhecia o orgulho que ele sentia em mim. Ele nunca mo disse expressamente e também nunca foi preciso. Eu via e sentia-o e isso incentivava-me a tentar ser cada vez melhor, porque sabia que estaria alguém à minha espera para compartilhar o meu triunfo, para me ouvir e para me aconselhar. Era a única pessoa que me fazia sentir desta maneira e eu perdi-o. E agora não tenho ninguém para quem correr a contar uma novidade boa, alguém que eu sinta que o queira verdadeiramente saber, como acontecia com ele e isso deixa-me tão triste, tão profundamente triste. E não adianta ir ao cemitério ajoelhar-me na sua lápide fria cinzenta-escura ou pegar num dos seus retratos e pôr-me a falar para o ar, porque ele não me responde, não agarra nos meus braços para me encorajar, não me devolve o olhar com aqueles olhos brilhantes emocionados. Eu preciso do meu avô. Dele, inteiro, vivo. Eu preciso dele, eu quero-o tanto de volta! Eu não consigo dizer a falta que ele me faz. E eu tenho a certeza que ele quer tanto voltar como eu quero que ele volte. Se ele pudesse, se eu pudesse. Se eu pudesse fazer qualquer coisa, qualquer coisa!

P.S.: Não era nada disto que eu tinha em mente para escrever. Mas não podia ser mais verdadeiro. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Visita a Fafe (Julho de 2012)

O meu avô era natural de Fafe e daqui a quatro dias faz precisamente um ano em que lá fomos com o intuito de visitar uma das suas irmãs que estava doente. Logo de manhã, quando fomos buscar os meus avós a casa, se dúvidas tivéssemos quanto à importância daquela ida a Fafe para o meu avô, desapareceriam assim que lhe pusémos a vista em cima, quando apareceu ao portão, com o braço direito dado à minha avó e apoiado na bengala com o braço esquerdo, todo janota de fato e gravata, como eu já não o via há vários anos. Saí do carro para lhes dar um beijinho de bom-dia e até brinquei com ele, dizendo-lhe que até parecia mal eu ir vestida da forma que ía comparada à sua fatiota.

Estava um dia bonito e a viagem foi relativamente rápida, com o meu avô a inclinar-se progressivamente para o lado do condutor, tendência que ele havia desenvolvido de há uns anos para cá, fruto das mazelas que ficaram e se foram agravando de um AVC que o atingiu há sensivelmente 14 anos. Ele estava desejoso por chegar e eu também estava animada por conhecer o lugar onde ele havia vivido e crescido, palco das histórias que ele tantas vezes me contava.

Uma hora e meia depois, chegámos então à casa da tia Maria, na altura uma dos quatro irmãos, incluindo o meu avô, que ainda estavam vivos (no total, foram nove irmãos) e que era a irmã que tão bem cozinhava o cabrito assado aos domingos que o meu avô simplesmente adorava. Ela estava (e ainda está) muito debilitada e não conseguiu falar, mas penso que o reconheceu, já que uma lágrima lhe escorreu pelo rosto quando o viu e ele falou com ela. 

Estivémos lá durante algum tempo e depois fomos dar uma volta à vila, onde encontrámos uma outra irmã do meu avô, a tia Ana, a quem ele, na brincadeira chamou Rosa, levando-a a concluir que ele já não estava no seu perfeito juízo. A tia Ana ficou tão contente de nos ver, que tagarelou imenso, pelo que, quando nos disse que por dia dava 30 voltas a pé e que, só naquele dia, já tinha dado 25, o meu avô, maroto, lhe disse para ela ir dar as 5 que faltavam, porque já estávamos a ficar atrasados para o almoço. Só de me lembrar já me estou a rir, mas esta não foi a sua única graçola do dia, esperem que já vos conto.

Quando finalmente nos despedimos da tia Ana, fomos visitar uma das antigas paixões do meu avô, uma senhora por quem ele ainda nutria forte amizade. Estiveram a pôr a conversa em dia (ele, a minha avó e a tal senhora) e, já no final, maroto a dobrar, o meu avô não resistiu a perguntar-lhe se não merecia nada, deixando-nos a todos um bocadinho sem jeito, ao que esta lhe respondeu com dois beijinhos na cara.

Continuámos a nossa visita à vila que, segundo o meu avô, estava tão diferente que já nem a conhecia, e ainda encontrámos outros conhecidos (para mim, desconhecidos) que vieram cumprimentar o meu avô.

Chegada a hora de almoço, voltámos a casa da tia Maria. Sentámo-nos à mesa, o meu avô a uma das cabeceiras, comigo do seu lado direito, e começámos a degustar a vitela assada que a família havia encomendado. Tudo corria bem até uma das sobrinhas do meu avô, com quem, eu fiquei a saber, ele se dava particularmente bem, lhe perguntar "Tio, a vitela está boa?", ao que ele respondeu seriamente "Para ser avó, está muito boa". Em segundos, eu e o meu avô cruzámos o olhar e desatámo-nos a rir, a rir, a rir sem conseguirmos parar. Aquele momento foi de tal forma hilariante, com toda a família em silêncio à espera da resposta do meu avô, esperando tudo menos aquela inusitada que ele deu, que, ainda hoje, quando o relembrávamos nas nossas conversas, nos ríamos imenso. Depois disto, o almoço decorreu normalmente, pelo menos até à hora do café. 

O meu avô estava tão bem-disposto e revigorado, que se sentiu com força para ir tomar o café fora de casa, se eu também fosse. Claro que eu fui e, uma vez mais, a tal sobrinha que tinha perguntado se a vitela estava boa, desta vez, lembrou-se de perguntar se o café estava bom. E o meu avô não tem mais nada: "O melhor do café é o que está lá dentro... o açúcar." Pronto, desatámo-nos a rir outra vez, comigo a exclamar, num tom de censura pouco convincente, "Ohh, vô! Ohh, vô!".

A nossa visita deu-se por terminada, não antes de eu tirar uma fotografia com os meus avós, a última fotografia que tenho do meu avô e com ele, e que partilho agora convosco:


Quando olho para ela, só me lembro do quanto ele estava feliz naquele dia e juro que, às vezes, até me parece que ele está a sorrir para mim.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Eu tenho dois amores"

Durante a sua vida, o meu avô cultivou duas paixões: mulheres e moedas. Em relação às mulheres, durante a sua juventude, foi um quebra-corações. Elas ficavam rendidas à sua beleza, à sua forma de estar e de se apresentar, que o diferenciavam no meio rural onde ele vivia, e, segundo a minha avó, ao seu "parlapier" de vários metros de comprimento. Ele contava-me muitas vezes os seus atribulados romances e, a certa altura, até a minha avó que desaprovava, naturalmente, alguns detalhes das histórias, se começava a rir tal era a desfaçatez e ousadia que o caracterizavam naquela altura. Já eu, divertia-me sempre imenso a ouvi-lo.

A sua segunda paixão era, então, as moedas, que ele coleccionava desde rapaz novo. Achava-as belas, apreciando sobretudo a minúcia do traçado do relevo das faces. Conhecia-as de trás para a frente e sabia praticamente de cor o seu valor no mercado, cuja informação actualizava anualmente com o livro Centavo que eu comprava por ele, ultimamente, no Porto, numa loja de numismática. A mim, ensinou-me a distinguir entre duas moedas iguaizinhas, qual das duas era rara, através da leitura dos eixos. Gostava tanto delas que um dos móveis que as guardam, foi, inclusive, construído por ele, em madeira, com sucessivas gavetinhas. Nestes últimos tempos, ele já não costumava ir vê-las, por não conseguir estar muito tempo de pé, nem a segurar as gavetas ou as capas arquivadoras. Pelo que, não há muito tempo atrás, numa sexta-feira de sol, lhe perguntei se ele gostava de ir à garagem vê-las comigo, ao que ele se levantou quase de imediato, qual criança entusiasmada quando a convidam para ir jogar à bola. Apoiado em mim, lá fomos e eu arrastei o velho sofá até ao móvel das "meninas dos seus olhos". Ele sentou-se e eu sentei-me também num dos braços do sofá, de forma a poder chegar ao armário e colocar-lhe as gavetas no colo. Estivémos horas naquilo, a tirar e colocar moedas. De vez em quando, eu perguntava-lhe se ele estava cansado ou com frio e ele dizia-me sempre que não, pelo que só interrompemos o nosso serão quando a minha avó nos veio perguntar se naquele dia não lanchávamos. Ele estava tão contente que nem deu pelo tempo passar. Enquanto arrumava tudo nos respectivos lugares, disse-me que ainda havia muito para ver, como que um convite para uma próxima tarde. Ohh, avô, como eu gostava de voltar a ver as moedas contigo! Um dia destes, vou lá e pego emprestada aquela com o Fernando Pessoa. Gostei dela e tenho a certeza de que não te importas que o faça. Prometo estimá-la, avô. Gosto tanto de ti!

Morreste-me #1

«Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida.»


Morreste-me, de José Luís Peixoto (pp. 9-10)

A morte muda o nosso olhar sobre o que nos rodeia e, inicialmente, é muito difícil aceitar que a vida continua quando nós sentimos que ela perdeu todo o direito de continuar. É quase insultuoso observarmos que o mundo lá fora segue indiferente à nossa dor que, por maior e mais profunda que seja, parece não conseguir abarcar as outras pessoas, pouco ou nada as afectar. E só nos apetece bater-lhes, gritar-lhes aos ouvidos que já nada é nem nunca mais será igual. É uma febre de revolta, indignação, mágoa, dor, tristeza e medo que nos assalta e, no fundo, o mínimo que esperamos é que os outros a partilhem connosco. Mas a verdade é que isso não acontece e as pessoas à nossa volta continuam a rir, a dançar, a celebrar, a viver. Quando muito, disfarçam ou diminuem o tom quando nos vêem, por respeito ou compaixão. E nós começamos a afastar-nos instintivamente delas e a juntarmo-nos mais aos nossos. É assim, pelo menos, numa primeira fase.

Continuar é inevitável e não precisamos de estar sempre a ouvir frases feitas e insensíveis como "a vida continua" ou "a morte faz parte da vida". Nós sabemos perfeitamente que temos de fazer um esforço para continuar, só que não é no dia seguinte, nem no outro, nem mesmo no outro a seguir. A dor leva tempo a mitigar e há dores que nunca chegam a curar.

Quanto a mim, sinto-me como se me faltasse um prato na balança. Quando o meu avô morreu, uma parte de mim morreu com ele. Agora, é reaprender a desfrutar do que a vida ainda tem para me oferecer, da mesma forma que um amputado tem de reaprender a realizar as tarefas diárias com menos um membro. A diferença entre mim e um amputado é que eu não perdi uma perna ou um braço, mas em compensação perdi metade do coração, ainda que metaforicamente falando. E dói e é uma dor tão ou mais real do que se fosse uma amputação verdadeira.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Morreste-me, de José Luís Peixoto

Pouco tempo depois de o meu avô falecer, descobri o livro Morreste-me, de José Luís Peixoto. Conhecia o autor por ter recebido o Prémio Literário José Saramago em 2001, mas nunca tinha lido nenhum dos seus livros. Em relação ao Morreste-me comecei por ler um excerto disponível na Internet e o impacto foi de tal forma extraordinário que, de repente, pude sentir a dor da perda de José Luís Peixoto e a minha própria dor pela perda do meu avô como se fossem uma única dor gigante e pungente que explodiu no meu peito. Chorei muito, tal foi o grau de identificação com aquelas palavras e senti que, naquele momento, nenhuma pessoa me compreendia melhor do que aquele escritor com quem eu nunca me havia "cruzado" antes. 

Alguns dias mais tarde, a minha família ofereceu-me o livro e experienciei uma sensação idêntica à que tive quando o armador finalmente chegou à igreja, transportando o meu avô do hospital, e abriu o caixão na capela: durante muito tempo não consegui ler uma linha, embora o desejasse, assim como não consegui olhar para o meu avô ali prostrado, inerte, acinzentado, gelado: tão anti-natural e já tão longe de mim.

Cinco meses depois, consegui ler o livro (que só tem 60 páginas), mas fi-lo de forma galopante, passando pelos pontos finais como se eles nem lá estivessem. Ao lê-lo desta forma fugidia, sem dar a mim mesma muito tempo para reflectir, tentei que a dor não se infligisse, uma vez mais, sem piedade, no meu coração já magoado. E, devo dizer, que esta estratégia acabou por resultar mais ou menos.

Mas, agora, quero lá voltar e demorar-me em cada palavra e em cada frase o tempo que for necessário até conseguir suportar, no meu íntimo, o peso das emoções e dos sentimentos que aquelas páginas me obrigam a reviver. É que os momentos mais difíceis ou os momentos impossíveis, chamemos-lhes assim, visto que é como eu os entendo, eu ainda não consigo escrever sobre eles e nem sequer relembrá-los. É estranho, mas é como se o meu subconsciente erguesse barreiras à medida que tento chegar até eles, como se encontrasse uma força repulsiva qualquer que me faz desistir e desviar o pensamento para uma outra situação. Acontece-me muito quando fecho os olhos à noite, logo antes de adormecer.

Por isso, vou fazer do Morreste-me um ponto de partida. Uma nova rubrica para o blog: em cada dia uma pequena transcrição de um excerto do livro, seguida de uma reflexão minha. Sempre intercalada com outras memórias e histórias, claro. 

Porque este blog vive de memórias mas é também o meu luto. Desenganem-se os que pensaram o contrário.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Desabafo

Disseram-me que o coração do meu avô já estava muito fraquinho, o que não deixa de ser uma ironia, quase uma piada de mau gosto. Como é que o coração do meu avô podia estar fraquinho se eu o amava, se eu o amo tanto?!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sem título #2

Não há muito tempo atrás, levei uns bombons daqueles pequeninos com licor por dentro que vêm embrulhados em prata de várias cores, para os meus avós. Com cuidado, o meu avô desembrulhou o seu e deixou-o derreter suavemente na língua. Quando acabou, disse-me que para a próxima não tirava o papel, ao que eu perguntei porquê. E ele respondeu-me, sorridente, que era para durar mais tempo na boca.

Hoje, ao almoço, durante uma conversa animada sobre a dependência de chocolate que tão bem caracteriza o meu irmão, lembrei-me deste episódio com o meu avô. 

Por que será que as coisas boas acabam tão depressa? Um chocolate que derreta na língua, durante algum tempo ainda perfuma o nosso palato. Mas a vida, a vida, ao contrário do chocolate, quando "derrete" é tudo menos uma despedida doce. Amarga a boca e amarga o coração.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aos leitores

Criei uma conta de e-mail (memoriasdomeuavo@gmail.com), referida no final do blog, para o caso de desejarem perguntar ou sugerir-me alguma coisa, ou até partilhar comigo as vossas próprias histórias/memórias com os vossos avós, fora da esfera pública dos comentários. Sintam-se à vontade.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O gosto pela leitura

O gosto pela leitura herdei-o do meu avô. A leitura, a par da rádio, constituía para ele o meio de eleição para se manter informado sobre a actualidade e eram sobretudo as questões políticas e económicas do país que o preocupavam, fazendo-o perder horas e horas de sono a conjecturar o futuro da nossa família. A noite trazia-lhe a lucidez e concentração necessárias para avaliar factos e encontrar soluções. Quando estava mais descontraído, até poemas de mais de trinta quadras rimadas ele criava mentalmente e memorizava. 

Por isso, e tendo em conta que ele se recusava a ver televisão, sempre que eu podia, leváva-lhe jornais e revistas, mesmo que já tivessem alguns dias. Quando algum deles continha uma notícia que ele considerava particularmente interessante ou relevante, guardava-os na garagem, apontando nas capas as páginas referentes ao tal artigo oportuno. 

Mas, nem sempre a fome de leitura do meu avô se restringiu a jornais e revistas e, tão-pouco, a notícias da actualidade nacional e internacional. Quando era novo, o meu avô devorava romances, lendo, muitas vezes, pela noite dentro. O seu autor favorito era Camilo Castelo Branco, do qual leu "Amor de Perdição", "A Freira no Subterrâneo" e "A culpa dos Pais". Curiosamente, foi preso pela PIDE pelo seu nome constar de uma lista de uma biblioteca, à qual pertenciam o nome de vários comunistas. Isto porque, livros como "A Freira no Subterrâneo" eram proibidos no Estado Novo, pelo que ele os procurava para os ler à revelia. Ele gostava de histórias que facilmente se pudessem confundir com a realidade. Do "Amor de Perdição" (que já se encontra na fila para as minhas próximas leituras), ficou a recordação de quando ele levou a minha avó ao cinema para ver o filme baseado na obra, ainda eram namorados. Quando eu lhe perguntava se a minha avó tinha chorado muito, ele dizia "Ui, moça!", ao que ela acrescentava depois que, durante alguns dias, nem conseguia comer, já que "parecia que a comida nem passava para baixo".

Se dúvidas houvesse quanto "a quem eu saí", assim viciada na leitura, penso que acabaram de se dissipar. Foi mesmo ao meu avô. Mais um legado feliz que ele me deixou.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sem título #1

Hoje, enquanto aguardava com a minha avó uma consulta de oftalmologia na sala de espera do hospital, lembrei-me de uma das inúmeras histórias de deliciosa malícia que o meu avô tinha sempre prontas na ponta da língua e que não se cansava de mas contar, ao ponto de eu as saber quase todas de cor, embora, quando contadas por mim, não tenham metade da graça. Ainda assim, não resisti e resgatando a minha avó do seu estado de alheamento, murmurei-lhe "Vó, vê lá se não te põem um olho de um cão". Ela compreendeu de imediato e retribuiu-me o sorriso. Se, por acaso, o meu avô estivesse ali, tenho a certeza de que se teria rido com gosto. Ele tinha um riso contagiante que o traía sempre que queria contar uma das suas marotices. Ria-se, começava a contar, voltava a rir-se, recomeçava de novo, ria-se mais uma vez e nós começávamos a rir-nos também, ainda antes de ele ter conseguido contar o que quer que fosse. 

Em relação à história em questão, era mais ou menos assim: havia um homem que era cego e, como acontece com qualquer cego, o seu maior sonho era poder ver, nem que fosse de um só olho. Então, um dia foi ao médico e expôs o seu problema com tanto fervor, suplicando ao especialista por uma qualquer solução que lhe permitisse enxergar minimamente o mundo que o rodeava, que conseguiu comovê-lo ao ponto de este lhe prometer que havia de encontrar uma solução. E assim o fez: transplantou-lhe um olho. Só que, não tendo um olho humano disponível, fê-lo com um olho de um cão, não prevendo nenhum efeito colateral significativo que pudesse advir desta pequena e inofensiva troca. E a operação foi, de facto, um sucesso, sendo que a origem do olho nunca foi revelada ao paciente que, entretanto, já nem cabia em si de contente por poder finalmente ver.
Passaram-se umas semanas e, aparentemente, tudo corria bem, até ao dia em que o paciente apareceu no consultório do médico a queixar-se de que havia qualquer coisa de estranho consigo, qualquer coisa que mudara nele, no seu interior, desde a operação e que ele não sabia explicar o que era. O médico, não pouco constrangido, acabou por confessar o inevitável: que lhe tinha transplantado um olho de um cão. Ao que, o paciente, visivelmente aliviado, respondeu: "Ahh, agora compreendo, Senhor Doutor. Por isso é que, há já alguns dias, eu trago uma cadela debaixo de olho!".

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Da minha infância #4

Enquanto frequentei a Primária foi sempre o meu avô quem me acompanhou à escola. Íamos e vínhamos a pé, todos os dias - o meu avô a carregar a minha mochila. Só quando chovia é que ele me ia buscar no seu Seat Ibiza verde-escuro. Geralmente, íamos pela rua principal e voltávamos pela rua do aeroporto, sendo que o nosso percurso nunca demorava menos do que uma hora, porque eu gostava de saber tudo e perguntava-lhe sobre as flores, as árvores, as borboletas e ele, pacientemente, ía-me respondendo com carinho, levando-me sempre a sério. Às vezes, a minha avó também nos acompanhava, mas era pouco frequente.

Já durante a tarde, depois dos deveres da escola que eu fazia com o maior entusiasmo, sobretudo quando envolvia composições e pinturas de desenhos - sempre sobre a supervisão, ajuda e aprovação final do trabalho feito pelo avô -, íamos passear pela "bouça dos cãezinhos", uma bouça de eucaliptos, carvalhos e pinheiros que, ainda hoje, ladeia a urbanização onde fica a casa dos meus avós. Eu chamo-lhe "bouça dos cãezinhos" porque vivia lá no meio, num casebre, uma família que, embora fosse muito pobre, tinha sempre imensos cães. Pelo caminho, eu gostava de apanhar "cocas" (os frutos dos eucaliptos), verdes e vermelhinhas. As vermelhinhas eram as que eu gostava mais, porque eram mais difíceis de encontrar. Também apanhava bugalhos, mas a minha avó não queria que eu os levasse para casa, porque, dizia ela, enchia tudo de mosquitos. Ao longo do caminho, pelo qual o meu avô me guiava, atravessávamos uma ponte e às vezes ficávamos a ver o comboio a passar por baixo.

Outras vezes, íamos à bouça recolher troncos e cepos de árvores para arderem no fogareiro. Eu ía sempre procurar os cepos, porque sabia que o meu avô gostava especialmente deles, já que ardiam muito bem. Quando já tínhamos um molho grande, voltávamos para casa e, um a um, o meu avô ía serrando-os, em cima do poço, comigo a segurá-los para evitar que oscilassem enquanto ele o fazia. Eu gostava de ver o serrim a acumular-se no chão, fazía-me lembrar farinha Cerelac. E gostava ainda mais que o meu avô me deixasse ajudar e ele deixava sempre.

Para além de irmos à bouça, também costumávamos ir comprar leite a uma casa de lavradores que ficava na rua que dava para a escola. Lembro-me de perguntar ao meu avô, uma vez, se o Sr. Almeida (que era o nome do lavrador que, infelizmente, também já faleceu, há muitos anos atrás) não dava banho às vacas. O meu avô disse-me que não e eu fiquei muito indignada, por elas estarem sempre todas sujas. Enquanto esperávamos pelo nosso leite, ficávamos a observar o lavrador a ordenhá-las com aquelas máquinas estranhas em forma de tetas. Isso e a canseira delas a lamberem o ranho com a língua.

Entretanto, em frente à casa desse lavrador havia castanheiros. E, por altura do magusto, eu e os meus avós íamos lá apanhar umas castanhas. Eu gostava de ir descobri-las nos ouriços meios abertos camuflados entre as folhas de outono no chão. Depois, em casa, cozinhávamo-las. Assadas no forno era a forma preferida do meu avô. Já eu e a minha avó também apreciávamos comê-las cruas.

Hoje em dia, infelizmente, os castanheiros já não existem, a casa de lavradores está desabitada e a "bouça dos cãezinhos", agora sem cãezinhos, já se encontra meia despida. E, ainda assim, nada disto me interessava verdadeiramente se o meu avô aqui estivesse para o recordar comigo. Se o tempo pudesse voltar atrás, nem que fosse por um bocadinho. Só o bocadinho de eu conseguir olhar nos seus olhos e abraçá-lo. Nem precisava de dizer nada.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do medo de esquecer

Um dos meus maiores medos, neste momento, é o esborratar da minha memória. Começar a tornar-se impreciso e dúbio na minha cabeça o som do riso do meu avô; a ferida de cor amarelada, por causa do Betadine, que marcava o lado esquerdo do seu rosto sempre que se barbeava; os dedos das mãos inclinados por causa das artrozes e a forma como ele, às vezes, os observava, esticando-os devagarinho; os olhos aguados e o tremido dos lábios sempre que se comovia. Pormenores que eram o meu avô, pormenores que me dilaceram de cada vez que os evoco. E medo, sobretudo muito medo de perdê-los, agora que nunca mais os vou voltar a ver. Nunca mais é a pior sentença de todas.

E, como recordá-lo, na sua alegria, é a única forma que temos de o resgatarmos, por um bocadinho que seja, para perto de nós, a memória torna-se um factor tão crucial neste processo. Tão crucial e tão ingrata. Diz-se que o tempo cura tudo, mas neste contexto, o tempo só estraga. Será que as pessoas dizem que com o tempo fica mais fácil porque vão perdendo gradualmente a imagem dos seus entes queridos? Espero que não, é uma ideia assustadora. Prefiro pensar que, se calhar, dizem isso, porque a vida, ao impor-se na sua obrigação de ser vivida, as foca nos outros mil e um problemas que vão surgindo no dia-a-dia, ao ponto de a pessoa que se perdeu só se atravessar nos seus pensamentos pouco antes de adormecerem. Sinceramente, não gosto de nenhuma das duas opções, embora, a acontecer, que seja a segunda.

A melhor forma de recordar acaba por ser conversar com os familiares sobre essa pessoa. Mas, enquanto umas vezes, ao relembrar, nos sentimos quase felizes de novo, nem que seja por uma fracção de segundo, outras vezes torna-se demasiado doloroso, demasiado triste, já que a sombra da morte e da perda nunca desaparece. Acho que, em parte, é por isso que escrevo. Porque às vezes, ao falar tanto sobre o meu avô, deixo a minha família triste. Por exemplo, nos primeiros dias eu sonhava com ele e, de manhã, contava à minha avó. Eram sonhos tristes, mas eu contava à mesma, precisava de contar. Até que ela me pediu para não o fazer mais. 

Mas, para além de conversarmos com a nossa família e de recorrermos às fotografias, há outra coisa que, parecendo menor, torna-se importante: os objectos. As pessoas mais antigas e geralmente com menor grau de educação, são muito supersticiosas, pelo que fiquei a saber que, quando alguém morre, acreditam que não é bom ficar com as coisas dos entes queridos e, então, em poucos dias, logo depois do funeral, começam a arrumar os pertences da pessoa e a oferecer muitos deles. Isto foi uma coisa que me fez imensa confusão: eu não queria dar, nem lavar nem trocar de lugar nada que tivesse pertencido ao meu avô. Porque os objectos também dão personalidade às pessoas, os objectos remetem-nos para situações vividas. Por que é que havemos de nos desfazer deles? Se calhar, os mais antigos acreditam que os objectos nos prendem ao passado e, de certa forma, não nos permitem superar, continuar. É uma suposição, eu não sei mesmo de onde vem esta superstição. Mas se for este o motivo, eu não concordo de todo. Eu não vejo mal nenhum em guardar o que tão bem e por tanto tempo caracterizou uma pessoa e, sobretudo, que nos faz lembrar dela.

Por exemplo: os óculos de mocho do avô que ele usava para ler o jornal no café ou artigos de revistas em casa, que lhe ocupavam quase metade da cara e lhe davam um ar tão amoroso; o relógio de pulso de corda que já contava com mais de 60 anos e que o avô tinha conseguido numa loja de penhores (ele adorava aquele relógio); a bengala que já havia sido da minha bisavó e que o acompanhou nestes últimos anos; o pullover bege, a gravata vermelha, os sapatos de lona e a manta castanha que ele usava por cima dos ombros...

Tudo isto faz parte do que o meu avô foi e de como ele continua a ser dentro do meu coração. Quando penso nele, é assim que o vejo. E eu vejo-o, cá dentro, repetidamente, todos os dias, com os olhos do amor. Do amor grande que sinto por ti, avô.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Da minha infância #3

Há aprendizagens e experiências que quase todas as crianças vivem no período da sua infância, sejam largar a chupeta, puxar um dentinho de leite com um fio, trepar uma árvore, perder o medo de dormir sozinhas no quarto, construir um cata-vento, deixar as rodinhas de trás da bicicleta. Eu fiz quase todas estas coisas que descrevi (só não me lembro de trepar uma árvore), entre muitas outras: umas mais divertidas, outras de lágrima no olho. E em quase todas, "houve dedo", como se costuma dizer, do meu avô. Vou contar-vos, assim por alto, algumas delas: largar a chupetinha foi uma experiência traumática, tal era o consolo que aquele pequeno objecto de borracha me trazia. Claro que o meu avô não lhe achava graça nenhuma, porque não me deixava falar correctamente e me entortava os dentes. Então, uma vez, lembrou-se de me dizer que a atirou para o monte de estrume que nós tínhamos lá no quintal. Ai e eu chorei, se chorei. Chorei e, com o meu pequeno coração despedaçado, andei tempos infinitos a inspeccionar o estrume de fio a pavio a tentar encontrá-la, para, mais tarde, vir a descobri-la atrás da torradeira na cozinha de cima. Não se faz, avô, não se faz. (Gosto de imaginar que, neste momento, ele se está a rir).

Depois, houve o perder o medo de dormir sozinha no quarto, porque, durante muito tempo, eu dormi com a minha mãe. Ora sem chupeta e sem mãe, a vida não ficou fácil. Os meus avós iam deitar-me e, todas as noites, o avô vinha falar comigo, para que eu me portasse bem. Mas não adiantava nada, eu não queria ficar ali sozinha e chorava. Então, houve uma vez (e isto eu não me lembrava, foram os meus avós que me contaram já eu era crescida) em que fomos ao Porto e eu vi uma boneca numa montra. E, segundo eles, fiquei encantada com a boneca, pelo que o meu avô me perguntou se, se ele ma oferecesse, eu à noite ficava sossegada, sem medo de dormir sozinha (nota que o meu avô nunca foi de nos dar brinquedos nem guloseimas). Mas, eu devia ser tal "peça", que ele fez este acordo comigo. E eu, menina esperta, disse que me ia portar lindamente, de maneira que ele me deu a tal boneca. E eu cumpri o acordo, pelo menos até ir para a cama. Quando lá cheguei é que não houve boneca que me salvasse. E o avô não ficou muito contente.

Mais tarde, quando eu andava na escola primária, o meu avô ajudou-me a construir um cata-vento e um trapézio (uma tábua com pregos que utilizávamos para representar figuras geométricas com elásticos). 

E, depois, ensinou-me a andar de bicicleta sem rodinhas de apoio. Ainda me lembro como se fosse hoje: foi na minha bicicleta amarela (a "Yellow", como eu lhe chamava), oferecida pela minha mãe. Só com uma roda, comecei, aos poucos, a tentar equilibrar-me, no terreiro de cimento lá de casa. O avô ia-me segurando no selim para eu não cair. Quando finalmente consegui pedalar sozinha, o avô deixou-me ir para a rua e ficou a ver-me, ao portão, a dar voltas à urbanização, aconselhando-me a ter cuidado com os carros, sempre que passava por ele. Noutros dias mais tarde, aventurámo-nos em passeios maiores. Eu, de bicicleta, e o meu avô, ao meu lado, a pé. Quando chegávamos a uma subida mais íngreme, eu descia da bicicleta e ele levava-a à mão. Ou então punha a sua mão atrás do selim e dava-me um empurrãozinho.
Costuma-se dizer que quem aprende a andar de bicicleta, nunca mais esquece. É verdade. Mas eu digo, ainda, outra coisa: nunca mais se esquece quem nos ensinou a andar de bicicleta. Quem nos ensinou a ser um bocadinho mais livres. Obrigada, querido avô.

domingo, 26 de maio de 2013

Da minha infância #2

Quando eu era criança, lembro-me de me ajoelhar no poço da casa dos meus avós a fazer chás de brincar, esmagando pétalas de flores coloridas com um bocadinho de água. Disso e de ir à caça de abelhões com o meu avô. Dito assim até faz rir, mas é verdade: pegávamos em garrafões de água vazios, nos quais o avô fazia alguns buraquinhos para que os abelhões pudessem respirar, e, cuidadosa e pacientemente, íamos tentar apanhá-los, enquanto eles retiravam o pólen dos agapantes azuis que tínhamos lá num canteiro. Quando já tínhamos alguns, daqueles mesmo gordinhos e de um amarelo vivo, colocávamos a tampa e ficávamos a admirá-los a esvoaçar dentro do garrafão. Não era lá grande coisa para os abelhões, mas eu gostava daquela brincadeira e, no fim, acabávamos sempre por devolvê-los à Natureza.

Para além dos abelhões, também nos entretínhamos a contar as sardaniscas, sobretudo quando íamos à feira ou à farmácia. Elas costumavam estar a apanhar sol nas reentrâncias do muro que delimita a rua de acesso à feira e, ao longo do caminho, eu e o meu avô íamos contando quantas é que víamos, indicando um ao outro onde é que elas estavam. Houve uma vez em que contámos 36 ou 37! Às vezes, ainda relembrávamos, animados, este nosso feito. 

Agora já não temos agapantes e, por isso, os abelhões já não param muito lá por casa. Mas, em contrapartida, temos muitas sardaniscas a passear pelo jardim. Tenho pena que não possas vir contá-las comigo, avô. Não sei se viste no outro dia o grito da avó quando uma sardanisca grande lhe passou pela mão enquanto ela estava a matar lesmas no canteiro. Eu ri-me muito. Se fosses tu, tinhas logo perguntado "O que é que foi, Mila?" e quando ela te dissesse o motivo do grito, tinhas respondido "Porra, porra", em desaprovação, por te ter assustado por causa de um bicho. Ohh, avô, as saudades que eu tenho tuas!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tarde com sabor a chocolate e nozes

Um par de dias após o Natal, numa sexta-feira, salvo erro, por volta das duas da tarde, entrei no portão de trás da casa dos meus avós com um bolo de chocolate e nozes, feito por mim, decorado com uma imitação de azevinho de plástico que encontrei cá em casa. A marquise estava vazia e só ouvi a voz da minha avó. Estava ao telefone com um discurso derrotista: queixava-se de estar cansada, com falta de energia e com o pó ainda por limpar e a cozinha por arrumar. Não deu por mim atrás dela e eu esperei que terminasse a chamada, o mais silenciosamente possível, para que ela tivesse uma dupla surpresa quando me visse: eu e o bolo (a minha avó é muito gulosa). E assim foi: ela virou-se, viu-me, deu-me dois beijos, eu perguntei o que é que se passava, que discurso feio era aquele e disse-lhe que se animasse que eu a ajudava a limpar o pó. De seguida, mostrei-lhe o bolo e perguntei pelo avô. Como estava um dia quente e à tarde o sol incide na garagem, era costume o meu avô passar lá a tarde, mais ou menos até à hora do lanche, por volta das cinco horas. E lá estava ele: sentado no sofá bordô desbotado, de óculos de sol de lentes esverdeadas e bengala ao seu lado. Quando me viu, sorriu logo. Mostrei-lhe o bolo (que, por acaso, tinha ficado bonito e alto, embora levemente tostado por cima), disse-lhe para cheirar. Ele ficou agradado, embora me tenha dito, como eu já esperava, que não se podia meter em coisas doces, porque tinha de ter muito cuidado com a saúde para não ficar com diabetes. Dantes, acontecia-me, muitas vezes, levar alguma coisa para ele, nem que fosse um chocolate pequenino e ele agradecer o meu gesto mas não comer, mesmo que lhe apetecesse. O meu avô era mesmo muito rigoroso no que tocava à saúde. Mas ultimamente, já ia cedendo mais. E eu gostava, oh como eu gostava! que ele aceitasse aquele pequeno mimo.

Ficámos a conversar enquanto a minha avó lavava a loiça. Entretanto, ela chegou para irmos limpar o pó, já mais airosa por contar com a minha ajuda, e eu vi na expressão do meu avô que ele preferia que tivéssemos ficado ao pé dele. Ele gostava de ter a nossa companhia, porque, no fundo, passava muitas horas sozinho, enquanto a minha avó andava nos seus afazeres diários, ou calado, porque, mesmo quando estavam ao pé um do outro, não falavam muito. A minha avó tem muita necessidade de, como ela diz, "descansar a cabeça" e para isso gosta do silêncio. Se bem que, quando eu ía para lá, isso era impossível, não parávamos de contar histórias, de rir e até ela acabava por participar. O meu avô diz que ela ficava logo outra quando eu chegava. E ele, ele também ficava outro, ficava com o rosto luminoso, com o espírito mais leve.

As limpezas tardaram até à hora do lanche. Fomos para a cozinha (já se estava a levantar um vento fresco) e depois da sua generosa malga de leite com cevada e pão integral (por vezes, comia sete bolachas Maria), lá provou uma fatia pequena do meu bolo. Saboreou, disse que eu tinha jeito. O meu avô sempre foi um apreciador de chocolate. Costumava contar-me que, quando era novo, os seus lanches eram um pão com dois golpes onde colocava duas barras de chocolate fininhas e um copo de vinho branco. E a meio da manhã, comia uma boa posta de bacalhau assado. E ao almoço, nem chegava a usar o prato, era mesmo da travessa: um belo bife de quarto de quilo com batatas fritas. Outros tempos e um avô muito diferente daquele que eu conhecia, agora, que pouco comia, deixando a minha avó, por vezes, à beira de um ataque de nervos.

O lanche chegou ao fim e ele cismou que tinha de me pagar o bolo. Claro que eu não deixei, porque não fazia sentido nenhum, mas este assunto ainda serviu para uns longos minutos de discussão. Quando se tratava de dinheiro, o meu avô era muito sério e irredutível (chegava mesmo a ser casmurro). Mas lá consegui convencê-lo de que preferia que me gratificassem num outro dia.

Esta tarde ficou-me gravada na memória assim. E o bolo de chocolate com nozes ficou gravado no meu coração como "o bolo do avô", se calhar, porque não cheguei a ter oportunidade de lhe dar outro a provar. Fica-me a imagem dele a saboreá-lo, lentamente, de olhos fechados, e eu a perguntar-lhe se sabia muito a nozes e ele a dizer-me que não.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Da minha infância #1

Durante a minha infância, o meu avô foi o meu companheiro de aventuras. Eu andava sempre atrás dele e no Verão, então, com as férias da escola, passava mesmo muito tempo com os meus avós maternos. Íamos muitas vezes à praia do Marreco, em Matosinhos, a praia favorita por ser bastante rochosa e amparar do vento. A minha avó gostava de se ir esticar nas rochas ao sol, de forma a levar, de vez em quando, com os salpicos das ondas. O calor da areia fazia-lhe mal. Já eu e o meu avô, todos os dias, sem excepção, íamos fazer a nossa caminhada, pela beira do mar, até ao Cabo do Mundo. O Cabo do Mundo era um rochedo muito grande que, salvo erro, separa a praia do Marreco de uma outra. Íamos devagarinho, sempre de mãos dadas, a conversar: eu, do lado do mar, o avô do lado da areia. Esta era a regra para o caso de vir uma onda com mais força, ele poder segurar-me e puxar-me. 

Para além da caminhada, fazíamos outra coisa: apanhávamos conchas e beijinhos-do-mar, uns búzios pequeninos e arredondados, de cor rosa, naquela orla de conchas e mexilhões que o mar deixa ao longo da praia. Eu gostava especialmente dos beijinhos, porque eram mais difíceis de encontrar e eu ía logo a correr, orgulhosa, quando encontrava um, mostrar ao avô.

Depois, chegava a hora do lanche, que a minha avó preparava amorosamente todos os dias e que levávamos nas lancheiras. Muitas vezes, até almoçávamos lá. A mim, saía-me quase sempre na rifa um pão com queijo. E eu como não gosto muito de queijo, quando a minha avó não estava a olhar, enterrava-o discretamente na areia ao meu lado. Eles nunca repararam, se não a esta hora, tinha outra história para contar: o famoso puxão de orelhas do avô, que eu também cheguei a experimentar.

Este é só um dos exemplos das experiências maravilhosas que vivi com os meus avós. Tenho saudades desse tempo de ser criança, do tempo em que o avô era um ser imortal, do tempo em que era inimaginável que ele não me pudesse vir acordar com cócegas (a que nós chamávamos "bichinhos") na parte anterior dos braços.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dói-me a tua ausência

Dói-me a tua ausência, avô.

Dói-me não te encontrar em lado nenhum: na cadeira gasta de praia, a alisar o jornal no café, a mastigar de olhos fechados à mesa da cozinha. Dói-me não te poder ver nunca mais, olhar para as fotografias e sentir que são como as plantas artificiais: por muito bonitas e realistas que possam parecer, não passam de um elemento morto, decorativo, falso. Quando olho para as tuas fotografias, à tua procura, sinto que não te representam com a vida que eu espero, falta a tua essência, faltas tu.
Dói-me o sorriso que não me espera, os ouvidos ávidos das minhas histórias que ensurdeceram. Dói-me as nossas longas conversas que cessaram, deixando apenas o vazio. Nós que éramos tagarelas natos. 

Oh, avô, e eu ainda tenho tantas coisas para te contar, tantos sonhos para partilhar contigo. Onde é que estás? Onde é que estás, avô? Queria tanto poder abraçar-te, para nunca mais te largar.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Boa noite, meu pai

- Boa noite, meu pai.
- Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho.

Eu e o meu avô repetimos este diálogo inúmeras vezes, com um sorriso cúmplice de compreensão a formar-se nos nossos lábios, mesmo ainda sem nos termos visto apropriadamente. Acontecia de eu chegar a casa dos meus avós, muitas vezes ao final da tarde, e o meu avô estar sentado na cozinha de luzes apagadas. E era automático. Eu dizia "Boa noite, meu pai" enquanto pousava a mala e tirava o casaco e ele respondia, com voz grave "Boa noite. Eu não teu pai, mas tu és meu filho". E, de seguida, dizia para eu acender as luzes que queria poder olhar para mim, ver a minha cara. Eu acendia a luz, ia dar-lhe um beijo (às vezes, dava logo quando chegava, quando ele ainda era uma sombra meio inclinada na cadeira), e os olhos dele sorriam, felizes, quando encontravam os meus, mesmo que ele tivesse passado um dia com dores terríveis nas pernas ou nos pés. Mas ele nunca se queixava, queria era conversar, saber se eu já tinha lanchado, de onde vinha. 

Às vezes, eu vinha mal-disposta, sem vontade para grandes diálogos. E ele comentava "tu hoje não estás nos teus dias" ou "acho que a tua cara hoje não está como o costume" e aguardava pela minha resposta. Geralmente, ao fim de alguns minutos, quase sem dar por isso, eu começava a desabafar com ele, a contar os infortúnios que me trouxera o dia e, a verdade é que, quando me ia embora, já quase nem me lembrava de que, algum tempo antes, estivera tão aborrecida. Outras vezes, eu não falava mesmo e ele não pressionava.

Mas mesmo mal-disposta, eu não conseguia ser rude com o meu avô, nem sequer ousava levantar-lhe a voz. Eu tinha muito medo que ele se zangasse. Claro que isso não foi suficiente para que uma ou outra vez ele não se tenha, de facto, desiludido e magoado comigo. E, acreditem, ele era muito severo, radical mesmo, quanto às suas decisões e quando entendia que alguém, de alguma forma, o havia ofendido, ele cortava imediatamente relações com essa pessoa e era como se ela tivesse morrido para ele. Raramente voltava atrás com a sua palavra e acho que perdoar, ele nunca chegava a perdoar verdadeiramente.

A mim, ele acabou, eventualmente, por me desculpar (muito graças aos esforços da minha avó e mesmo da minha mãe) mas, eu sei que, no fundo, também foi porque me amava muito. Eu era a menina dele. E ele era a minha pessoa favorita no mundo.

Eu não posso prometer que não o voltaria a decepcionar, sobretudo agora que me sinto tão desamparada sem ele. Eu esforço-me, mas não consigo ser boa e compreensiva o tempo todo. O meu coração está partido, avô. Mas eu vou tentar. Tu sabes que vou tentar. Não desistas de mim.


P.S.: a forma como comecei este post remete para uma das muitas histórias que o meu avô me contava. Esta era mais ou menos assim: «Numa noite escura, de nevoeiro e em que chovia bastante, dois vultos encontraram-se na estrada e o primeiro cumprimentou: "Boa noite, meu pai". Ao que o segundo respondeu (o avô fazia nesta parte uma voz grave para despistar): "Boa noite. Eu não sou teu pai, mas tu és meu filho."» E a pergunta ficava no ar: quem era o segundo vulto?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Primavera

Hoje começa a Primavera e esta era a estação do ano preferida do meu avô. Daqui a uns dias, quando as manhãs se tornassem mais luminosas e solarengas, o meu avô descia mais cedo para o pequeno-almoço e, depois do seu habitual pão molhado numa almoçadeira cheia de leite com cevada, ia sentar-se na sua cadeira de praia gasta na marquise a admirar o quintal. E o que ele mais gostava era de observar a conversa dos pássaros. Ele dizia-me, muitas vezes, como achava curioso a forma como um casal de pássaros comunicava um com o outro quando se queriam revezar de tomar conta do ninho. Às vezes, ficava a admirar, através dos seus óculos de sol de reflexos esverdeados (a claridade feria-lhe os olhos), durante tempos infinitos, o saltitar de um melro à procura de qualquer coisa para petiscar ou a minúcia de uma aranha a tecer a sua teia. Dizia-me que me havia de fazer perder o medo delas. 

Daqui a mais alguns dias, começaria a usar calças claras e camisas "à sport". E, se as suas pernas o ajudassem, a dar uma voltinha - ou, provavelmente, apenas meia - à volta da urbanização, apoiado na minha avó. E chegariam os dias de assar o bacalhau na brasa, com maior frequência, que ambos adorávamos. Ele ensinou-me que o bacalhau devia ser demolhado com a pele para cima, que é onde se concentra mais o sal. E que as postas para assar não deviam ser muito grossas, se não ficavam queimadas por fora e cruas (somente aquecidas) por dentro. E que o bacalhau era de boa qualidade se a pele não derretesse na grelha. Depois, acompanhávamos o bacalhau com batatas cozidas, embebidos em bastante azeite com alhos, e um pedaço de broa. Dantes, em vez das batatas, o meu avô assava pimentos para acompanhar o bacalhau ou as sardinhas assadas. Não os esquentava, assava-os, devagarinho, virando uma e outra vez, até ficarem com uma cor acastanhada. Ninguém assava pimentos como o meu avô, embora, ultimamente, ele já não assasse, porque dizia que o carvão estava caro e assar os pimentos queimava muito carvão.

Amanhã, combinei com a minha avó que ia arranjar o quintal, que está cheio de ervas daninhas. Vou arranjá-lo para os dois. Porque, mesmo do céu, fica difícil ver os pássaros por entre ervas grandes.

Tenho tantas saudades tuas, avô. Tantas.

terça-feira, 19 de março de 2013

A tristeza é uma coisa muito especial

A tristeza é uma coisa muito especial, de tão indefesos que ficamos diante dela. É como uma janela que se abre apenas quando lhe apetece. A sala fica fria, e não podemos fazer mais nada do que tremer. Mas abre-se um bocadinho menos de cada vez; e um dia perguntamo-nos o que é que lhe aconteceu.
Em Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden (p. 288)

As pessoas à minha volta, as que me querem bem e mesmo as que não querem, mas simplesmente não conseguem ficar caladas, estão sempre a dizer coisas do género "tens de ter paciência", "tens de ser forte", "a morte faz parte da vida", "já eram 88 anos", "com o tempo fica mais fácil". Às vezes, só me apetece mandar-lhes dois berros. Eu não quero ter paciência, não quero ser forte e não quero que fique mais fácil. Pronto. Eu gosto da tristeza -  chamem-me masoquista, se quiserem - , mas com a tristeza vem a dor, aquele aperto na boca do estômago que parece que me faz sufocar, mas que torna tudo mais real. Lembra-me o quanto sinto a falta dele, o quanto o amo. Por isso, se eu preciso de ser triste, deixem-me ser triste. Porque eu não me quero sentir melhor, quero sentir-me mais perto. Perto de ti, avô.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Avô

Sabem aquela expressão que, de vez em quando, surge na boca de um vizinho ou de um amigo, na forma de um desabafo magoado ou até irado sobre algum membro da sua família biológica - "nós não escolhemos a nossa família"? Bom, se me tivessem dado a escolher quem seria o meu avô materno, eu teria escolhido, de todos os potenciais e maravilhosos avôs do mundo, sem qualquer hesitação, o meu avô, ele próprio, sem tirar nem pôr - José de Carvalho, de sua graça.

Cliché ou não, o meu avô era o melhor avô do mundo, era-o para mim. Estão a ver aquele tipo de avô que "estraga" os netos com brinquedos, mimo e indulgência? Pois, o meu avô não era nada assim. Era antes um avô de sorriso franco que se predispunha a escutar-nos e a ensinar-nos valores, pequenas lições de vida para nos tornarmos melhores pessoas. O meu avô era aquele tipo de avô que me perguntava, assim que eu chegava a casa e depois de lhe dar um beijo, "como é que te correu o dia?", não de uma forma banal, como quem comenta o tempo, mas olhos nos olhos, com verdadeiro interesse em saber se eu estava bem. Era um avô preocupado, atento e presente. 

E é dele que vos falo, de hoje em diante, porque se há pessoa que merece ser recordada, essa pessoa é o meu avô. E eu vou recordá-lo sempre.